Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


sábado, 11 de maio de 2013

E foste tu para psicologia...

Acendeu o último cigarro que tinha tirado uns segundos antes do maço SG Filtro.
Como acontecia ultimamente e desde há várias noites, a insónia vencia-o e assim como as cinzas sinistras do cigarro se esboroavam, também as suas ideias se lhe esbatiam, impossibilitado de as encadear e de engendrar um raciocínio consequente.
Ali do seu quarto situado no 9º andar do prédio nº 9 da Rua Ferreira Borges, os olhos passando por cima do telhado do Hotel Astória divagavam pela mata Nacional do Choupal, corriam sem se deter pelo estádio Universitário de Coimbra, pela Ponte de Santa Clara, e imaginavam a aldeia de Bencanta.
Era ali que dormia a sua amada, lá para os lados da Escola de Regentes Agrícolas que nesse mesmo ano e rapidamente se transformara na Escola Superior Agrária de Coimbra, do Instituto Politécnico de Coimbra.
Nunca se tinham falado, mas apaixonara-se por ela desde o primeiro dia em que a viu num baile em S. Martinho do Bispo onde tinha ido com uns colegas de curso há umas semanas atrás.

Nuvens baixas e silenciosas vindas do Mondego e do Choupal começavam a cobrir lentamente, as casas da Rua Sofia e da Avenida Emídio Navarro deixando aqui e ali a descoberto os fantásticos picos das suas chaminés.
Mal adivinhava o seu pai, lá longe em Vila Flor, que, com sacrifícios imensos o mandara estudar em Coimbra, alugando-lhe um quarto num dos locais mais emblemáticos da cidade, que o seu filho, em vez de estudar, passava as noites a esfumaçar à janela e de coração apaixonadamente obstinado na sua musa do Mondego.
Mal começou a romper a aurora, passou a cara por água, tentando disfarçar as olheiras profundas, penteou-se, vestiu-se, meteu dois livros debaixo do braço e saiu de casa.
Em vez de se dirigir à Escola Superior Agrária para ir às aulas, atravessou a pé a ponte de Santa Clara, acelerou o passo e dirigiu-se até à Av. João das Regras e, já próximo do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, parou numa esquina. Como de outras vezes, era ali que esperava que ela passasse para ir às aulas do Liceu onde frequentava o 7º ano.
Nunca antes lhe tinha falado, mas desta vez estava resolvido a abordá-la e a declarar-lhe o seu amor.
Pouco depois, viu-a descer a rampa que vinha da Avenida Inês de Castro em direcção à Rua Dona Mor Dias, acompanhada de outras colegas, numa algazarra juvenil, de gargalhadas e dichotes.
Mas o seu coração desabou. Num abraço apertado, um rapaz envolvia a Isabel com o braço em redor dos ombros.
Afinal ela já namorava!
Desistiu de lhe dirigir a palavra.
Sorumbático, desalentado, com o coração a sangrar de desgosto, virou costas em direcção à próxima paragem da Avenida da Guarda Inglesa para aí apanhar o próximo autocarro para a Escola Agrícola.

Duas décadas mais tarde, e a trabalhar numa das várias escolas em que exerceu a sua actividade docente, viu a Isabel entrar-lhe numas das salas pedindo-lhe para que analisasse um relatório psicopedagógico de um dos seus pacientes de psicologia.
Ela era psicóloga e trabalhava numa Instituição para onde ele enviara um dos seus alunos com necessidades educativas especiais.
Reconheceu-a, falaram de Coimbra, de Bencanta e do baile onde se viram pela primeira vez. Ela disse-lhe que tinha simpatizado com ele desde o primeiro instante e que nunca mais se tinha esquecido dos seus olhos verdes que tanto a olharam nessa noite.
Ele respondeu que (pelos vistos) a empatia tinha sido recíproca, que andara uns meses para lhe falar e que no dia em que estava disposto a fazê-lo a encontrou na sua deslocação para o Liceu abraçada a um tipo.
Ela sorrindo de forma enigmática disse-lhe que aquele rapaz que a abraçava, naquele tenebroso dia, era o seu irmão que a tinha ido visitar. Disse-lhe ainda que o tinha visto ao longe e que lhe quis fazer ciúmes com a finalidade de estimular a seu avanço…

E foste tu para psicologia! Pensou ele.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

terça-feira, 7 de maio de 2013

domingo, 5 de maio de 2013

Janis Joplin- Piece of my heart

Recuando um "pouquinho" no tempo, deixo hoje aqui esta belíssima canção desta enorme cantora, que me habituei a ouvir usando as velhinhas cassetes piratas.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXII)

Jean Paul continuou a dissertar sobre si e sobre o seu percurso de vida, num longo monólogo que Zeferino ouvia com alguma impaciência ao mesmo tempo que o tempo demorava a passar: "A minha aldeia ficava lá longe e distante dos grandes centros urbanos". Aqui Zeferino pensou: dizes isso porque não conheces a minha lá em Trás-os-Montes! 

Mas ele não se calava. "Como deves calcular, devido ao isolamento da aldeia acabei por frequentar apenas a escola primária, pelo que só mais tarde, já adulto, frequentei uma outra escola, onde obtive formação profissional e um diploma académico correspondente ao ensino médio. Tive como directora desse curso a professora Simone que era uma belíssima senhora mas cujo marido se tinha reformado antecipadamente das suas funções maritais. Engraçou comigo e apoiou-me naquilo que pode. Posso mesmo dizer, sem qualquer dúvida, que foi a principal responsável por toda a minha formação  profissional, sexual e académica. Muito devo a essa senhora que já lá está na companhia dos anjos!”.

Zeferino tentava desligar-se da conversa do motorista. Sentia-se farto, cansado... queria simplesmente encostar-se melhor, fechar os olhos e adormecer. Adormecer para os pensamentos sombrios, para os problemas, para as dores... Adormecer para o que existe de feio no mundo. Permanecer por um tempo alheio a tudo o que existe para se refazer e ao acordar poder ver todas as coisas com olhos novos, com a autenticidade do adolescente que ainda era e que se arrebatava e se divertia, ou aborrecia, facilmente com cada descoberta que ia fazendo.

Mas Jean Paul não estava para aí virado e continuava no seu discurso. (…) “Fui criado juntamente com 6 irmãos, dois gémeos mais novos dois anos do que eu e três irmãs mais velhas, um cavalo, uma égua, uma vaca, algumas cabras e muitas galinhas... todos vivíamos mais ou menos harmoniosamente em três divisões na exígua casa onde nasci”… “Naquele tempo as dificuldades eram de toda a ordem, da alimentação ao agasalho, da educação ao lazer, tudo era conquistado com muito esforço quer dos mais velhos, quer dos jovens e das crianças”… “Porém a vida decorria placidamente e se o inverno era rigoroso, o calor de verão era impiedoso”… “Até aos 20 anos decorreram banalidades várias na minha vida, até que fiz o tal curso profissional com a minha mestre Simone. No final, e porque o marido já andava desconfiado, ela arranjou-me este emprego aqui na quinta do seu primo afastado M. Roland e despachou-me a grande velocidade”…

A viagem decorria assim monocórdica, lenta e aborrecida. Para não pagar a portagem da autoestrada (A10) Jean Paul conduziu sempre o seu camião por uma estrada secundária que se encontrava em relativo mau estado de piso e sempre paralela ao Rio Loire. Zeferino ia apreciando a paisagem e as diversas localidades de reduzidas dimensões mas que lhe prendiam a atenção pela arquietectura das casas muito diferente do que estava habituado a ver em Portugal. Até que em Saint-Denis-sur-Loire, já muito perto da pequena cidade de Blois, Jean Paul resolveu parar. “Vou ali e já venho. Fica aqui e toma conta do camião.” Disse-lhe no seu sotaque açoriano francês. Regressou passados aí uns dez minutos acompanhado por uma rapariga loura e com uma saia curtíssima que permitia a visão de umas pernas longas e bem torneadas. Retomaram a viagem com a miúda sentada entre os dois mas muito encostada a Jean Paul. Zeferino não pode deixar de ver pelo reflexo do para-brisas como a mão dela o acariciava entre as pernas. “Isto promete”, pensou ele. E, de facto, na cidade de Blois Jean Paul parou, virou-se para Zeferino e, ao mesmo tempo que lhe piscava o olho direito, lhe disse: “ficas aqui um pouquinho que eu vou levar a minha amiga Yolande ao paraíso e já volto”. Pois que remédio, pensou Zeferino.

Depois de uma longa espera Jean Paul lá regressou sozinho e bem-disposto. Retomaram a viagem e ao chegarem ao destino (Tours) Jean Paul propôs a Zeferino: “ se me ajudares a descarregar a mercadoria no cliente de M. Roland eu prometo-te que te dou boleia, pela A10, até à cidade de Poitiers e ganhas assim mais uns quilómetros da tua longa viagem”.

(continua...)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXI)

O almoço foi servido numa linda casa típica da região e que possuía um enorme alpendre virado para o Rio Loire que Zeferino ia admirando enquanto degustava a lauta refeição com que aí foi presenteado.
Ele sabia, de ler nos livros da sua disciplina de francês do 5º ano do Liceu, que a culinária francesa se caracterizava sobretudo pela sua extrema diversidade. Mas, mesmo assim, não deixou de ficar espantado. Aturdido mesmo!
De entrada foram servidos queijos diversos mas todos produtos da terra-mãe e da especialidade francesa. Havia ainda, claro, uma variedade enorme de foie gras caseiros produzidos na própria quinta e servidos em pequenos potes de barro de vários tamanhos e feitios. Foram servidos ainda ovos mexidos com espargos e bacon, cogumelos fritos e/ou grelhados com moelas de aves.
O prato principal foi Cassoulet. Um maravilhoso prato à base de carne de pato, feijão branco, salsichão e alho.
No final, o anfitrião M. Roland disse, satisfeito e orgulhoso, enquanto afagava com carinho a face de sua esposa e grande mestre da cozinha: "Sabes Zeferino este prato é uma das especialidades desta região e assenta sobretudo na qualidade do produto local e na tradição camponesa e, acima de tudo, desta casa".

Depois, e enquanto aguardava pela boleia prometida, Zeferino deambulou pelas imediações do casario principal da Quinta onde teve a oportunidade de falar com trabalhadores e operários de quem obteve a convicção de que M. Roland era respeitado sobretudo por ser o homem mais rico daquelas redondezas e por dar trabalho a muita gente. Era também admirado pelo seu carácter, pela sua figura imponente de possante estatura, pelo respeitável bigode branco e, sobretudo, pela impecável organização de toda a exploração agrícola e pecuária. Era também temido pelo pausado e duro tom de voz quando algo não decorria como ele havia determinado e pelo pulso forte com que mantinha em ordem toda aquela organização.
Talvez, por tudo o que viu e apreciou nesse dia, Zeferino tenha optado mais tarde por continuar os seus estudos nas áreas agrícolas. Quem sabe?

Às quinze horas e trinta minutos partiu em direcção à cidade de Tours com o empregado da Quinta – Jean Paul - não sem antes agradecer, de forma verdadeira e sentida, a boleia e a hospitalidade com que foi recebido por M. Roland a quem deu a sua morada de Vila Flor, convidando-o a visitá-lo quando um dia tivesse a oportunidade de se deslocar a Portugal.

Para Zeferino, traçar o perfil físico de Jean Paul não era muito fácil. Era diferente de quase todos os franceses que até aí tinha conhecido quer na sua fisionomia, quer na maneira de se vestir, quer até na carregada pronúncia do seu francês esquisito que lhe dificultava o entendimento. Se lhe perguntassem provavelmente Zeferino responderia que Jean Paul era do tipo açoriano francês. 
Quanto à sua personalidade ele próprio se encarregou de o fazer durante a viagem. De facto ele acabou por fazer uma retrospectiva de quase todo o seu percurso de vida sem deixar de “desenhar” a traços largos as suas definições pessoais e de carácter.
Começou mais ou menos assim: Sabes eu sou originário de uma aldeia longínqua na província da Bretanha, daquelas absolutamente refundidas nas encostas de um vale, onde chove tanto, tanto, mas mesmo tanto, sobretudo no inverno, que até os cavalos se assustam só de verem um homem sem guarda chuva...
(continua...)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

quarta-feira, 10 de abril de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

sábado, 30 de março de 2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

O resto do lixo...

Tentei não ver. Sou sincero, não queria dar audiência a um canal de televisão que promove o regresso deste refugiado em Paris. Resisti, resisti e resisti até perto do fim da entrevista. A minha companheira resumiu: A narrativa dele é repetir, vezes sem conta, a palavra “narrativa” e dizer que vem para se defender. Quanto ao resto… o resto é ele, o Sócrates. Aquele que conhecemos, não mudou nada, continua o mesmo aldrabão manipulador de sempre!

Nem me sentei no sofá mas ainda deu para o ouvir, na sua irritante voz, despejar a mesma argumentação de sempre a propósito do PEC IV. (...) Se não tivessem reprovado o PEC IV o País não estava assim, blá … blá … blá. Apeteceu-me gritar para os entrevistadores: perguntem lá a esse sujeito para que serviram todos os PEC(s) que lhe aprovaram antes do IV. Tenham juízo. Para que serve (e a quem) entrevistar um parasita destes? Para que dão a esse criminoso o tempo de antena em vez de entrevistarem alguém responsável pela justiça deste país, perguntando-lhe porque razão este psicopata não está a apodrecer atrás das grades por todos os crimes que cometeu enquanto primeiro ministro de Portugal?

Depois de desabafar (para mim) tudo isto, virei costas e... não acabei de ouvir o resto do lixo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

Desaparecido em divagações...

Olho a imensidão do mar enquanto um sol tímido mas firme vai caindo na linha do horizonte neste dia frio de inverno. 
Sorrio, desaparecido nas minhas divagações… 
Comparo-me a esse sol que teima em não desaparecer. E penso na ocaso da minha vida profissional... no que foi, no que é e no que queria que fosse... Lembro-me com alguma tristeza, saudade e nostalgia a altura em que tudo era como um verão escaldante, ardente, interminável... e como a minha vida profissional acompanhava tudo isso com sofreguidão e paixão...
Onde para tudo isso?....
Não sei. Qualquer coisa, algures pelo caminho perdeu-se... a idade não perdoa! Talvez seja isso, a idade…
No entanto, continuo a precisar de sentir algo de ardente, que me tente, que me entusiasme e que me dê aquele gosto pela vida. Sim, algo que vá dando e recebendo como se não houvesse amanhã... 
Enquanto estes pensamentos me percorrem a mente ao mesmo tempo que corro no local do costume, começo a sentir o suor a escorrer e, de repente, um sentimento de alívio e de prazer diz-me: mas tu já tens tudo isso! É só estares atento e desfrutares... caramba! Tens quase tudo com que sempre sonhaste e… já chegaste à Granja! Que bom…

segunda-feira, 11 de março de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XX)

Chamava-se Roland, era um agricultor e produtor ligado à produção de aves (galinhas, frangos, patos e gansos). Tinha 76 anos e era culto, educado e muito, mas mesmo muito, falador... 

-Então és um estudante português que vai à boleia para Portugal!!?? Começou ele logo que Zeferino se sentou no exíguo espaço que lhe sobrava no banco da frente da Renault 4. Deves ser completamente maluco, não!? Sabes que é muito perigoso viajar sozinho na tua idade, não sabes? Nunca sabemos quem nos dá boleia, pá... Por acaso comigo tens sorte, pá, pois eu sou um bom tipo, um tipo fixe, tás a ver? E ria-se… ria-se muito!

E continuou… posso dar-te boleia até Orléans pois tenho a minha quinta em Jargeau, que fica poucos quilómetros mais a Sul de Orléans. É aí que eu vivo e trabalho, fazendo criação de aves e cavalos de recreio. (…) Hoje vim a Paris, mais precisamente ao Ministério da Agricultura, para me inteirar dos pormenores técnicos necessários para a construção de uma nitreira lá na Quinta. Sabes o que é uma nitreira? Ah, bem parecia que não sabias... Pois uma nitreira é... bom... podes dizer que é um armazém onde podemos guardar os efluentes pecuários (estrumes e chorumes) no período que decorre entre a realização da limpeza dos pavilhões e a sua posterior aplicação nos solos… Mas não podemos construir uma "coisa" destas de qual maneira. Tem que obedecer a determinados requisitos técnicos: tem que ser impermeabilizada, possuir coberturas, devendo as escorrências geradas nesse armazém ser recolhidas e armazenadas para encaminhamento adequado, normalmente fossas sépticas com vala absorvente... tudo isto está regulamentado por lei e é esse técnico do Ministério da Agricultura que vai supervisionar tudo isso, estás a ver? (…) Tudo isto fica muito caro pois exige muita mão-de-obra para fazer a manutenção e inspecção periódica de todas as estruturas ligadas à recolha/drenagem de águas; para garantir as boas condições físicas do sistema e para assegurar a limpeza das instalações dos animais, etc,etc.

E assim foi a sua primeira boleia!
Durante os 120 km deste percurso da viagem, toda ela feita pela A10, M. Roland não se calou por um minuto. 
À entrada da cidade de Orléans ele deu duas alternativas a Zeferino: “ou deixo-te já aqui à saída da cidade e continuas a pedir boleia ou então vens comigo até Jargeau, vês a Quinta, almoças lá connosco e talvez eu te arranje uma boleia até à cidade de Tours pois o meu empregado Jean Paul vai lá esta tarde com um carregamento de ovos e de frangos”. 

Zeferino escolheu a segunda hipótese e lá foi até à Quinta de M. Roland que ficava situada na margem direita do Rio Loire. 
E não se arrependeu pois o local era lindíssimo! A exploração era constituída por diversas parcelas, perfazendo uma área total de cerca de 25 ha, dispondo, todas elas, de rega por aspersão. Em cada parcela praticava-se uma cultura diferente: desde o milho, à ervilhaca, ao trevo, à batata, ao nabo, à pastagem espontânea e à horta familiar. A Quinta formava um conjunto harmonioso e com uma paisagem toda ela “pintada” de verde que contrastava com o azul do céu, com o azul da água do rio e com o branco das casas e pavilhões que constituíam os quatro aviários da exploração.

Depois de terem visto toda a Quinta, que circundaram sem saírem do interior da Renault 4, foram ver as instalações, os aviários e uma enorme cozinha que servia de fábrica onde se produzia o célebre foie gras com o fígado dos patos e dos gansos.

Zeferino já tinha comido foie gras e sabia que tinha um sabor suave e levemente amanteigado mas nunca tinha entendido por que razão era considerada  uma das maiores iguarias da culinária francesa. Até porque o foie gras é o fígado inchado através de alimentação forçada. Ao ver a forma como esses animais eram super alimentados antes de serem mortos para lhes extraírem o fígado inchado e aumentado, Zeferino ficou profundamente horrorizado e agoniado. De facto, é muito cruel a forma de tratamento imposta a esses animais... eles diariamente são obrigados a comer, depois de já terem comido várias vezes... Sobretudo uns dias antes da matança e através de um funil muito comprido é empurrada, pelo pescoço abaixo, uma quantidade enorme de cereais misturados com gordura. O corpo destes pobres animais fica distorcido e o fígado fica seis a sete vezes maior do que o normal. 

Zeferino questionou M. Roland sobre este método agoniante que lhe respondeu: "quanto maior o fígado mais foie gras e quanto mais foie gras naturalmente mais lucro…"  
 (continua...)