Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.
Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!
segunda-feira, 26 de maio de 2014
sábado, 24 de maio de 2014
quinta-feira, 22 de maio de 2014
terça-feira, 20 de maio de 2014
Hitler reage à venda dos Mirós
Descobri este vídeo no youtube.
É uma bela caricatura da situação política que se vive actualmente em Portugal. Por isso resolvi "surripiá-lo" e postá-lo aqui, sobretudo porque demonstra que (apesar de se dizer que vivemos em democracia e num estado de direito) o governo age, em determinadas situações, de forma idêntica a uma ditadura. Ou, no mínimo, aplica o: "eu quero, posso e mando", independentemente do que diz a lei e a Constituição da República.
De facto, e apesar do governo português saber que cometeu uma ilegalidade ao autorizar a saída dos 85 quadros Miró sem a permissão da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), entidade competente nessa matéria, continua a querer levar em diante essa mesma ilegalidade.
É uma bela caricatura da situação política que se vive actualmente em Portugal. Por isso resolvi "surripiá-lo" e postá-lo aqui, sobretudo porque demonstra que (apesar de se dizer que vivemos em democracia e num estado de direito) o governo age, em determinadas situações, de forma idêntica a uma ditadura. Ou, no mínimo, aplica o: "eu quero, posso e mando", independentemente do que diz a lei e a Constituição da República.
De facto, e apesar do governo português saber que cometeu uma ilegalidade ao autorizar a saída dos 85 quadros Miró sem a permissão da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), entidade competente nessa matéria, continua a querer levar em diante essa mesma ilegalidade.
sábado, 17 de maio de 2014
A idade, o tempo e a vida...
Parece-me
que ainda o outro dia olhava para os meus pais sem me preocupar
minimamente com a idade deles. Pareciam-me eternos. Vivia a fase em que, quando
me perguntavam quantos anos tinha me apetecia sempre acrescentar um ou dois
anos à idade real. Ou então, sem mentir, dizia: tenho quase 12, ou tenho quase 14 anos. E fazia-o com a facilidade
de quem tinha pressa de ser adulto, convencido de que, com uma simples
data, adquiria (por decreto) um estatuto superior… ou um nível acima. Que
afinal me ocuparia tantos anos a subir, pensava eu.
De
repente, tirei a carta de condução, tirei o meu curso, cumpri o serviço militar obrigatório, comecei a trabalhar, casei e fui pai de dois maravilhosos filhos.
Simultaneamente,
passei a assumir com naturalidade, mas com mais cautela, a minha idade real… mas
agora querendo fazê-la durar todo o tempo a que sentia ter direito e sem
pressas.
Depois
passei rapidamente por aquela idade em que ainda tinha o privilégio de olhar
para cima e ver o meu pai vivo mas a necessitar de uma
atenção especial devido à sua doença e à sua idade… e para baixo, para os meus filhos que tendo já entrado
na sua idade adulta não deixaram de me trazer as naturais preocupações de um
pai sempre presente. Foi aquela idade em que me senti entalado e a correr entre os filhos e os
pais, na ânsia de chegar e de estar para todos com a mesma intensidade.
Foi talvez
a idade mais difícil para mim, aquela em que ajudamos uns a crescer e outros a
morrer...
Este
balanço entre duas realidades tão opostas deveria remeter-nos para a brevidade
da nossa existência e relativizar as nossas prioridades.
Sempre
ouvi dizer que: “quem de novo não morre
de velho não escapa”! Mas… caramba, não gosto mesmo nada de me ver a envelhecer e não aprovo nada a ideia
de morrer já. Que dilema!
Depois
vem este chato do José Saramago no seu livro "As Intermitências da
Morte", que tentei ler até ao fim mas, mais uma vez, não consegui. Mesmo
assim ainda deu para me aperceber que ele vai divagando sobre a morte, a vida,
o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência. Para ele (e neste
aspecto concordo) a morte é não só uma inevitabilidade da vida como irrevogável,
a bem do equilíbrio. Aqui o termo irrevogável não tem nada a ver com o conceito
trazido por Paulo Portas :-).
Cheguei
assim a este ponto da minha idade em que passei a considerar que o ideal seria
viver cada dia como se fosse o último e com a convicção de que não
teremos o dia seguinte para corrigirmos o que hoje fizermos de errado. Até por que a
idade (como alguém disse) é: “algo tão fugaz
na vida de cada um de nós que o melhor é chamar-lhe presente e acreditar que tem
a duração do instante que passa…”
quinta-feira, 15 de maio de 2014
terça-feira, 13 de maio de 2014
A balança que falava…
Nota introdutória:
Hoje reproduzo aqui uma velha estória que
me foi narrada no início da década de 70 pelo meu primo Alexandre, filho do meu Tio/Avô Marcelino, que
veio, ainda na sua juventude, viver e trabalhar para a cidade do Porto.
Ele contou-me que havia uma Farmácia - a Farmácia Estácio - que
ficava mesmo ao lado do
Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e que era famosa, naquela época, sobretudo por ter uma balança que falava e que, rapidamente, se tornou um ex-libris da baixa portuense, chegando mesmo a formar-se filas de pessoas à sua porta.
Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e que era famosa, naquela época, sobretudo por ter uma balança que falava e que, rapidamente, se tornou um ex-libris da baixa portuense, chegando mesmo a formar-se filas de pessoas à sua porta.
Dizia-me ele com todo o entusiasmo: “Ainda me recordo da primeira vez em que me fui lá pesar! Foi um momento fantástico… depois de esperar a minha vez na fila, subi para a sua base redonda, o ponteiro movimentou-se
no mostrador apontando para o meu peso e, ao mesmo tempo, uma voz metálica saiu
da balança, informando: Vossa Excelência
pesa 64 quilos e 700 gramas"!...
E continuou: “Tu
imaginas lá!!!… naquela altura... deixa cá ver... decorria o Mundial em que o Eusébio marcou 4 dos cinco golos à Coreia, pois... foi em 1966 e, naturalmente, ainda não estávamos habituados a estas novas tecnologias e muito pouca gente sabia explicar este fenómeno! Pessoalmente, só percebi a “coisa”
mais tarde quando o Porfírio, que fazia a manutenção da balança falante, me
explicou o seu funcionamento. A balança, colocada na entrada da farmácia, nunca
mudava de lugar. Nem podia!... Estava presa ao chão por parafusos. E na cave,
precisamente por baixo da balança, havia um balcão de madeira sobre o qual se encontrava outro
mostrador ligado por um veio ao tecto... precisamente à base (ou prato) da balança que estava na
loja! Esse balcão era o local de trabalho da Srª Hermínia, a funcionária que empacotava comprimidos e rotulava xaropes, enquanto esperava que
um cliente se fosse pesar. Quando tal sucedia, o mostrador da cave apontava o
mesmo peso que o cliente comprovava visualmente, ao mesmo tempo que acendia uma lâmpada
vermelha, chamando a atenção da funcionária. Esta, tinha um microfone e um
botão para o ligar ao mesmo tempo que dizia o peso que via no mostrador que
tinha à sua frente, e que o cliente ouvia na saída do som por detrás do painel
do ponteiro!
O meu primo concluiu, deixando-me um pequeno aviso: “Quando fores lá experimentar e se a balança
te parecer avariada... se, por exemplo, te mostrar o peso, mas não falar, não
te preocupes. Isso acontece normalmente quando a funcionária da cave foi fazer
as suas necessidades fisiológicas... fazer xixi… ou... eh eh eh eh!!!”
Nota final:
Em 1975, um incêndio de grandes proporções na Rua Sá
da Bandeira, atingiu a Farmácia Estácio e destruiu grande parte do seu
interior, incluindo a célebre balança.
domingo, 11 de maio de 2014
sexta-feira, 9 de maio de 2014
quarta-feira, 7 de maio de 2014
segunda-feira, 5 de maio de 2014
sábado, 3 de maio de 2014
A mula Berta...
Era uma mula velha e mansa, com umas enormes pestanas, que o
meu avô Alfredo se lembrou de baptizar de “Berta”. Era o resultado de um
cruzamento (portanto filha) de um jumento do meu tio/avô Marcelino e da égua do
Senhor Simplício.
Desde as minhas primeiras lembranças da minha infância a
Berta esteve sempre presente. Recordo os dias em que acompanhava o meu avô que a levava ao lameiro nos “Cerejais”
lá longe na aldeia onde nasci, em Pinhal do Douro.
Num belo dia do verão de 1959, ainda não tinha completado seis anos de vida, atrevi-me a ir, sozinho visitar a Berta a esse lameiro. Interrompi a sua refeição, peguei nas rédeas e encostei-a a um muro de pedras soltas mais ou menos da sua altura e, qual cavaleiro experimentado, saltei para o seu dorso de pelo liso, suave e brilhante. Quando bati com os meus pés no sua barriga larga e escorregadia ela acelerou de repente o seu passo de forma tão surpreendente que, quando dei por mim, estava no chão a rebolar na erva macia mas que não impediu que eu me sentisse durante alguns momentos com uma grande falta de ar.
Este episódio aparentemente negativo não impediu novas e excitantes experiências deste género. Pelo contrário, serviu-me de motivação e deu-me um sentido de superação que passou a fazer parte das nossas tardes, talvez durante três semanas, não mais. E quando digo nós, englobo também os meus primos. O Toninho, filho da minha segunda prima Adozinda, que montava o macho da família que levava para um lameiro limítrofe ao nosso lá nos cerejais. E também o meu primo Acácio que levava um cavalo já idoso, mas muito grande e elegante, que era da sua avó. Mas três semanas, naquela altura, naquela idade, naquele
verão, era imenso tempo.
Um dia, no balanço diário que normalmente se fazia ao jantar lá em
casa, acabei por referir, embora meio excitado por me atrever a contá-lo, que: “dei uma queda da Berta, nos Cerejais”. Tive receio de
que o meu avô me viesse a proibir de voltar a montar a Berta. Mas
ele sorriu, achou graça à minha imaginação e coragem e incentivou-me a voltar a fazê-lo com a condição de que até ao fim desse verão seria eu a levar a Berta para o lameiro.
Tornou-se assim habitual ao jantar toda a família perguntar-me: “e a Berta, hoje que tal se portou?”, e eu lá ia contando os
últimos episódios. E depois eles entreolhavam-se, sorrindo. E lá fui
desembrulhando a história, todos os dias um pouco. E todos os dias eles ficavam a saber um
pouco mais da mula Berta. Sabiam que nas corridas com o macho montado pelo Toninho e com o cavalo montado pelo Acácio, a Berta não gostava nada de perder e para não ficar atrás levava-me a velocidades que me pareciam supersónicas por caminhos de terra batida até à Fonte de Baixo que era por nós considerada a meta final.
Naquele verão, todas as tardes lá íamos buscar a mula Berta, o macho e o cavalo dos meus primos, e
com eles passávamos aquelas horas que se estendiam até à hora da ceia.
A Berta seguia-me, já naturalmente, dando as mesmas voltas, ficando-se quieta e tranquila quando nós nos
sentávamos em algum dos muros do caminho, seguindo as nossas brincadeiras com os seus olhos e pestanas enormes, e por
ali ficava no ócio connosco, com aquele olhar meigo, tendo-nos como
companheiros.
Depois vinha a noite, e por obrigação lá a ia deixar na loja, já com saudades, inquieto pelo dia seguinte.
Uma noite viram-me tristonho, e já na sobremesa questionaram-me. “Foi a Berta dizia-lhes, já lá não está. Tenho medo que tenha morrido”. E eles
entreolharam-se, inquietos e um deles disse-me: “deixa estar, olha porque não
passas a brincar com o Farrusco (que era o cão de caça do meu avô) vais ver que é um belo bicho”. Nunca mais voltei a ver a Berta, aquela mula velha e meiga, e as
conversas ao serão acabaram por deixar de a trazer e eu de perguntar por ela pois fiquei magoado quando soube que o meu avô a tinha vendido a um cigano que vivia no Vilarinho da Castanheira.
Ainda hoje me lembro dos seus olhos tristonhos, aquelas pestanas enormes, a
mansidão com que me matava as horas da tarde. E ouvia os meus pais
contarem aos amigos, ou aos meus tios, do entusiasmo com que eu durante dias a
fio, trouxe a Berta para as conversas do jantar.
Nunca os contradisse, nem
mesmo em adulto. Afinal, que importância teria?
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Donos de Portugal
Donos de Portugal é um
pequeno vídeo baseado no livro homónimo de Jorge Costa, Cecília Honório, Luís
Fazenda, Francisco Louça e Fernando Rosas, editado em 2011 pela
Afrontamento.
O filme retrata a
protecção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as
suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza.
Mello, Champalimaud,
Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança.
Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a
partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Os novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base.
terça-feira, 29 de abril de 2014
domingo, 27 de abril de 2014
A felicidade (im)perfeita...
No Domingo passado fui um dos muitos portugueses
benfiquistas que se associou aos festejos a propósito da conquista do galardão
máximo do futebol nacional por parte do Sport Lisboa e Benfica.
Não deixei, no entanto, quando percorri a Avenida da
Liberdade e, sobretudo, enquanto permaneci na
Praça do Marquês de Pombal, de ficar perplexo com a enorme expressão atingida
pelos festejos.
Reconheço que tais celebrações se enquadram dentro daquilo
que é a maneira de ser e de estar dos povos latinos e provavelmente foram semelhantes ao que acontece nas vitórias desportivas de
outros clubes, nomeadamente do Futebol Clube do Porto, que ultimamente o têm
feito com mais regularidade na Avenida dos Aliados, no Porto.
Mas… lá está! Há sempre um "mas" em tudo aquilo que fazemos! Dei por mim a interrogar-me se, ao entrar e aderir a
este tipo de manifestações populares, não estaria eu também (sem querer) a
contribuir para o aproveitamento político que este Governo iria fazer de tudo isto, desviando a atenção dos reais problemas
que efectivamente preocupam, e com toda a razão, os portugueses em geral, numa
lógica em tudo idêntica à que era feita no tempo da ditadura, em que se usavam os
tais três efes (Fátima, futebol e fado) para anestesiar e alienar o povo.
Acabei por serenar, cair em mim e pensar que hoje em dia o
povo é mais alfabetizado e não se deixa manipular com a mesma facilidade de
antigamente. Por outro lado, enquanto extravasava também a minha alegria e a
manifestava dessa forma tão efusiva e invulgar, convenci-me de que estava apenas a
desfrutar de um prazer da vida que também contribui para
dar cor e sentido à minha condição de simples mortal.
E pronto! Dentro dos meus 60 anos dei por mim a gritar como
uma criança e com a multidão: Benfica, Benfica, Benfica. O campeão voltou, o
campeão voltou…
sexta-feira, 25 de abril de 2014
25 de Abril – Dia da liberdade
Nesta liberdade descobri lugares
Livre de correntes e de receios
Abri a minha alma sem grandes anseios
No passadiço gritei ao mar e ao céu
Senti-me pequeno, mas livre
Caminhei e corri com vigor
Como alguém que procura o sonho
Senti o pulsar da minha alma
Senti o rasgar da pele
Senti em mim sangue novo
Voltei a ser eu!
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Joan Baez, Diamonds and Rust - Live, 1975
Ao ouvir esta música sou levado no tempo que ficou lá longe há muitos anos atrás na lindíssima Vila de Monção. Aí, num pequeno quarto da Residencial que dava
para a Praça Deu-la-Deu Martins, ouvia - sozinho - esta canção a pensar em ti, no quanto te queria e te amava e no quanto gostava da tua maneira séria de ser e de
estar na vida.
Fecho os olhos, "viajo" para esse tempo e sinto bem presente as boas sensações ao ouvir cantar Joan Baez no velho reprodutor de cassetes (Hitashi) que o meu avô
Alfredo me oferecera e que comprou no Grand Magasin Printemps, em Paris.
Era uma das formas que eu utilizava para relaxar e... esquecer como o meu mundo e a minha vida nesse tempo eram débeis e inseguros.
Era uma das formas que eu utilizava para relaxar e... esquecer como o meu mundo e a minha vida nesse tempo eram débeis e inseguros.
Diamonds and Rust-Live é, para mim e sem qualquer dúvida, uma das melhores canções de todos os tempos
e proporcionou-me momentos de grande prazer e de bem-estar só comparáveis aqueles
em que estava contigo e tinha os meus lábios nos teus...
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Acontecem coisas "estranhas" no dia em que me apetece dizer: Diga 33!
No dia-a-dia de cada um de nós
acontecem coisas aparentemente estranhas que, por vezes, nos parecem normais de
suceder. Nenhuma dessas coisas é igual a outra, mas quase nunca damos por elas,
ou não as valorizamos de forma conveniente, porque provavelmente acontecem frequentemente.
É isso que as torna iguais, apesar de diferentes. Ultimamente, não é tão raro
assim, dar-me conta
de pequenas coisas que me tocam profundamente sobretudo com pequenos
rasgos de afecto que surgem do nada, assim como um viajante
desconhecido que sai do comboio numa estação qualquer à procura de aventura.
Numa paragem de autocarro em
Sto Amaro, Lisboa, muito próximo do Museu da Carris e perto do
Hotel Opera Vyla Galé,
onde me encontrava hospedado, o céu assemelhava-se a uma cinzenta aguarela com
nuvens de diversas formas e vários tons de cinza sobrepostos em diferentes
camadas e deixava cair pequenas gotículas a que normalmente chamam de “chuva de molha-tolos”. De repente, uma mulher, vendo-me
assim desprotegido e com a careca exposta encostou-se discretamente a mim e
dividiu o seu guarda-chuva comigo. Ficou ali a segurá-lo, protegendo-me da morrinha que ia caindo, como se isso fosse a
coisa mais normal deste mundo. Mas não era. A normalidade também depende da
estatística e eu não via mais ninguém a dividir o guarda-chuva com um
desconhecido qualquer. Esse dia foi ontem, 20 de Abril de 2014 – dia de Páscoa
e deslocava-me para o estádio da Luz na expectativa de ver o Benfica sagrar-se
Campeão nacional de futebol, em jogo a disputar com o Olhanense.
Ela não disse nada. Nem sequer
uma palavra. Eu, no fim, só disse uma. Obrigado. Depois vi-a sair perto da
estação de Campolide e continuei no autocarro a acompanhar o seu
percurso enquanto ela se dirigia a passos largos para não perder o comboio, que se
dirigia para o Sul.
Peguei no bloco de notas e
escrevi estas linhas para não me esquecer destes pormenores. Veio-me,
entretanto, ao pensamento um acontecimento análogo que visionei na minha última
viagem de comboio que fiz de Valadares para a estação de São Bento, no Porto. Depois
de me sentar confortavelmente no meu lugar reparei que no banco da frente seguiam
duas pessoas. Pareciam mesmo um casal. Ele dormia com a cabeça pousada no ombro
dela, enquanto ela olhava pela janela como se analisasse ao pormenor uma
pintura qualquer.
Ela acabou por sair numa das paragens
mais próximas, mais precisamente na estação das Devesas-Gaia. Não sem antes lhe
ter afastado cuidadosamente a cabeça e pousado para trás, como se estivesse a
mudar de sítio uma frágil peça de louça de porcelana. Depois levantou-se e saiu
em silêncio enquanto ele lhe pediu desculpa, ainda estremunhado. Afinal não
eram um casal. Não se conheciam de lado nenhum, mas ele adormecera no ombro
dela e ela deixara-se estar ali, tão quieta como uma mãe leoa que protege a sua cria.
Acontecem coisas
estranhas nos dias normais.
Normais?
Interroguei-me.
Penso assim por ser
dia de Páscoa? Ou porque o Benfica se sagrará provavelmente campeão nacional
neste dia?
Mas, de facto, é um
dia que também tem as 24 horas do costume. Portanto é um dia normal.
Uma das coisas mais
estranhas que me acontece a mim é quase nunca dar pelas coisas estranhas que
acontecem em dias normais.
Ou das coisas
normais que acontecem em dias estranhos.
Uma coisa é certa. Se eu fosse capaz de reparar todos os dias nas mulheres que têm a coragem de salvar o dia de um homem, tenho a certeza que os meus dias seriam diferentes. Mais estranhos e mais normais. Certamente melhores.
Nota: Este dia “normal”
acabou bem e, estranhamente, dei por mim no Marquês de Pombal, em Lisboa, a celebrar o 33º título de campeão nacional de futebol que o Benfica acabara
de conquistar .
Por tudo isso apetece-me dizer:
diga 33!
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Cá se vai andando...
A chuva deu tréguas e o sol começa a aquecer os nossos corpos. Umas corridinhas no passadiço, umas idas (escassas) ao cinema, fugas diárias ao hipermercado porque a casa ninguém traz nada, xadrez on line, manter o blogue activo, ler, ouvir música e tentar tenazmente não perder o contacto. Eis aqui, assim em síntese, o que tem sido a vida deste alegre cidadão, neste início de Primavera de 2014.
E... logo agora que podia dar asas à imaginação
e martelar no teclado até os dedos sumirem na palma das mãos evaporaram-se
todos os conteúdos que fervilhavam nesta "carola" ansiosos por se verem derramados
no ecrã do monitor.
Resta-me "viajar" no tempo e relaxar ao som deste magnífico som até que a inspiração reapareça :-)
terça-feira, 15 de abril de 2014
Pedro Abrunhosa - "Voámos Em Contramão" (Videoclip)
Este gajo é feio e parece que arrota em vez de cantar mas consegue cativar-nos pela música.
Eu gosto...
domingo, 13 de abril de 2014
O professor de Religião e Moral e a cor dos olhos da Natureza...
Externato de Santa
Luzia, Vila Flor. Novembro de 1969.
Nesse dia chovia a
cântaros e os alunos da turma A do (antigo) 5º ano viam-na cair, através das enormes
janelas da sala de aulas situada do 2º piso do novo edifício, enquanto ouviam, distraidamente, o professor de Religião e Moral a discorrer sobre Deus.
A páginas tantas ele quis que, todos nós,
reflectíssemos sobre o tema. A mim, pessoalmente, não me apetecia nada falar de
uma entidade tão abstracta. Apetecia-me pensar e discutir sobre coisas mais
concretas como a fome, a guerra colonial ou a injustiça dos homens. Sobre a dor
daqueles que sofrem. Sobre futebol. Sobre as diferenças entre a educação dos
rapazes e das raparigas que nessa época ainda era muito acentuada, etc, etc.
De religião e de
Deus não me apetecia falar. Pronto.
Mas - nem de propósito - o
Professor, parecendo adivinhar os meus pensamentos, resolveu interrompe-los
perguntando-me: - E tu, Bernardino,
acreditas em Deus?
- Eu!? Respondi
atarantado.
- Sim, tu mesmo.
- Para ser sincero
não acredito- respondi agora com toda a convicção.
- Ai não!? Então
como explicas a existência da terra, dos animais, das plantas, do céu e dos
oceanos? Acreditas em quê, afinal?
- Acredito na
natureza e na sua força para criar e transformar tudo isso - respondi
simplesmente.
- Na natureza!? E
quem criou a natureza?
- E quem criou
Deus? – Retorqui já bastante nervoso
-Já que tens
resposta para tudo, diz-me lá qual a cor dos olhos da natureza? - Perguntou-me
o professor agora algo irritado mas com o seu sorriso mais irónico.
- Não sei! Mas
talvez fique a saber quando o Sr. Padre me disser qual a cor dos olhos de Deus
- respondi-lhe de pronto, enquanto ouvia as fortes gargalhadas dos meus colegas de turma.
Já não me recordo
se, dessa vez, o professor me expulsou da sala de aulas. O que sei é que hoje,
passados cerca de 45 anos após esta pequena discussão existencial, não tenho
tantas “certezas” como tinha nessa época.
O que me parece é
que cada um à sua maneira o invoca ou o renega, de acordo com a sua imagem.
Muitas vezes, e
perante determinados acontecimentos trágicos que se passam por perto penso que
se Deus existisse tinha que ser muito grande, mas não do tamanho que os crentes
imaginam que ele seja. Por outro lado, também penso que seria muito estranho
que um ser tão grande, tão omnipresente e omnipotente, enfim, tão supremo, fosse
tão facilmente perceptível por seres tão mesquinhos como os da nossa
espécie. Desde logo por alguns daqueles que representam a própria Igreja.
Muitos falam em
nome de Deus. Uns a favor, outros contra. Mas Deus não é futebol, nem política.
Felizmente, hoje em
dia, somos tão livres que podemos ter opiniões tão discordantes.
Tão "livres" que em alguns países existem fundamentalistas tão
radicais que, em seu nome, matam, destroem e cometem as maiores
atrocidades. Tão livres que muitos de nós vêm na nossa liberdade a prova
da sua inexistência. Tão livres que muitos desejam um Deus que os apoie,
principalmente quando se sentem comovidos por situações que os transcendem.
Outros desejam um Deus que seja mais que um pai.
Para mim se Deus
existisse não teria apenas o papel de perdoar e limpar os disparates e as crueldades
que o Homem faz todos os dias em qualquer canto do globo terrestre.
Com toda a certeza
que ele não daria a importância que qualquer um de nós imagina que ele daria a
um texto como este. Acho que ele não estaria para aturar merdas destas...
sexta-feira, 11 de abril de 2014
quarta-feira, 9 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
Desabafo num dia de chuva...
Hoje, dia 4 de Abril de 2014, choveu! De manhã, à tarde e à
noite!
Qual a novidade? Tem sido assim o Inverno todo! E este
início de Primavera também! Então, por que razão estou eu aqui a protestar,
outra vez, contra a chuva? É uma boa pergunta à qual, por agora, não sei
responder. Mas… que me apetece promover um movimento BASTA contra a chuva, tal
como o presidente do Sporting fez contra os árbitros de futebol, lá isso
apetece.
Enquanto assim penso, e me interrogo desta forma rabugenta, estou encostado à porta do escritório que dá acesso à varanda de onde vejo lá
baixo na rua e no Largo de Eiróz os carros a passar com os limpa para-brisas
a funcionar incessantemente a as pessoas a caminhar também elas apressadas
debaixo dos guarda-chuvas e, provavelmente, regressando a casa depois de mais
um dia de trabalho. Em certos locais da rua o asfalto torna-se mais irregular e
formam-se pequenas poças de água que brilham com a luz artificial dos
candeeiros.
Aqui permaneço, neste meu refúgio (ou porto de abrigo) que é o escritório cá de casa e que me
serve também de farol luminoso para o exterior. Gosto de ver o movimento dos
carros e das pessoas que se encaminham para os seus destinos certos. De ver
também os reclames luminosos e coloridos de algumas casas comerciais; as luzes
ainda acesas e a brilhar que anunciam a Cerâmica de Valadares, embora já falida
e extinta; as gaivotas que se refugiam do mar bravo esvoaçando e pousando nos candeeiros
mesmo em frente à varanda; a Lua em certas noites e as nuvens a fugir empurradas pelo vento.
Quando era rapaz e vivia lá longe em Vila Flor também
gostava de me refugiar na varanda da casa dos meus pais e, de forma similar,
apreciar o movimento das pessoas na Rua e no Largo da Fonte. Nesse tempo, as
pessoas que passavam, isoladas normalmente, pareciam-me indolentes, tristes e
mal sorriam. As que passavam acompanhadas normalmente faziam-no em silêncio ou
a discutir entre si. Eram pessoas que iam e vinham frequentemente dos campos
dos arredores da Vila. Agricultores que levavam os animais, cavalos ou burros,
carregados com cestos ou canastras devidamente
colocadas nas albardas.
Hoje, recordo-me dessas pessoas que se deslocavam na rua da casa
da minha juventude e que iam normalmente acabrunhados naquela rotina que me
parecia trágica. As imagens vão desfilando e há inúmeras delas que sempre me
acompanharam. As vozes e os rostos é que já se perderam, e tenho pena.
Por que “carga d´água”
me lembrei delas?
Regressando ao presente. A Amélia aproxima-se e, vendo-me
assim meditativo, encosta-se a mim e diz: - "Não
te atormentes tanto. As coisas mudam e nem sempre isto será assim. Para a
semana já vem o Sol."
Pois! A verdade é que me sinto realmente muito aborrecido. Com o tempo, com o São Pedro
e com a Primavera que nunca mais chega. Com os nossos governantes e, sobretudo,
com o seu discurso já gasto. De facto, as palavras destes políticos, agora, de
tão debochadas e gastas, já nem sequer agitam nem estimulam a minha indignação.
Porém, tenho de continuar a fazê-lo, quanto mais não seja através de palavras. Palavras que digo e que escrevo. Tenho de continuar a trabalhá-las, a proferi-las e a escrevê-las com firmeza e
ânimo. Por muito que me custe sinto que tenho de o fazer pois acho que essa é uma das
minhas obrigações cívicas.
Há muitos anos um dos meus filhos perguntou-me: "Ó pai, escrever custa muito?" E eu: -não dói nada, mas… custa, custa muito… mas, no fim, vale a pena quando
conseguimos exprimir o nosso pensamento com as palavras certas. Agora certamente acrescentaria:
não as palavras destes políticos “jotinhas” aldrabões, que as não respeitam e que as
despejam com futilidade, ignorância e menosprezo.
Mas... hoje já não me apetece (mais) escrever sobre estes políticos manguelas
que nunca fizeram nada de jeito na vida a não ser enganar, manipular e mentir. Eles
enojam-me. Por isso viro-me para dentro de mim e para o interior do escritório. Olho para as
estantes carregadas de livros, para uma ou outra fotografia e para as medalhas
e taças que fui conquistando nos diferentes torneios de Xadrez em que participei e que ajudaram a marcar a minha
vida e o meu destino. Reavivam-me também algumas memórias dos meus amigos mais antigos e
companheiros de brincadeiras, de jogos, de causas e de lutas. Tantos que já
foram. O que demonstra que estou a ficar velho. Sento-me na cadeira da
secretária e escrevo. Penso…
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Idade...
A cada ano que passa, cada vez mais e melhor o compreendo meu caro amigo professor Agostinho da Silva!!!
terça-feira, 1 de abril de 2014
O "Mata-Frades" de Coimbra...
Quando fui estudar para Coimbra, na primeira metade da década
de 70, fiquei instalado primeiro nas águas furtadas desta casa da Rua da Sota, nas
traseiras do Hotel Astória.Depois mudei-me, como também já aqui referi em posts anteriores, para o nº 9 da Rua Ferreira Borges.
Quer a Rua da Sota, quer a Rua Ferreira Borges, vão desembocar
no Largo da Portagem. Este local foi, em consequência e nessa época, um dos meus
pontos de referência da cidade.
Certo dia, enquanto tomava café e lia o Jornal "A Bola", na esplanada da Tabacaria da Portagem, um senhor já de muita idade e com "ar" de intelectual sentado
na mesa mesmo ao lado da minha meteu conversa comigo.
A páginas tantas perguntou-me se eu sabia de quem era a estátua que se encontrava mesmo à nossa frente e bem no centro da Praça da Portagem.
Certo dia, enquanto tomava café e lia o Jornal "A Bola", na esplanada da Tabacaria da Portagem, um senhor já de muita idade e com "ar" de intelectual sentado
na mesa mesmo ao lado da minha meteu conversa comigo. A páginas tantas perguntou-me se eu sabia de quem era a estátua que se encontrava mesmo à nossa frente e bem no centro da Praça da Portagem.
Eu lá lhe respondi (por ter lido na placa respectiva) que
era um monumento dedicado a Joaquim António de Aguiar.
- Pois! Mas quem foi Joaquim António de Aguiar? E sabes qual
a razão por que lhe chamavam o Mata-Frades?
- Não, confesso que não sei. – lá lhe respondi já um pouco incomodado
pelo interrogatório e, sobretudo, por ter de lhe expor a minha ignorância.
- Então eu vou dizer-te – respondeu ele com toda a convicção. E, durante a hora seguinte, lá discorreu sobre o célebre Mata-Frades e a sua importância para a história de Portugal ainda durante o tempo da Monarquia. Finalizou o seu discurso, que mais me pareceu uma aula de história, dizendo-me: - Repara bem na estátua... vê que ele tem na sua mão esquerda uma folha de papel e na sua mão direita uma pena. Não sabes para quê, pois não? Então eu digo-te: - Dizem que é para anotar os nomes das jovens estudantes que chegam a Coimbra virgens e saem de cá ainda virgens... e juro-te que ainda ninguém o viu mexer a sua mão direita! Eh, eh, eh.
- Então eu vou dizer-te – respondeu ele com toda a convicção. E, durante a hora seguinte, lá discorreu sobre o célebre Mata-Frades e a sua importância para a história de Portugal ainda durante o tempo da Monarquia. Finalizou o seu discurso, que mais me pareceu uma aula de história, dizendo-me: - Repara bem na estátua... vê que ele tem na sua mão esquerda uma folha de papel e na sua mão direita uma pena. Não sabes para quê, pois não? Então eu digo-te: - Dizem que é para anotar os nomes das jovens estudantes que chegam a Coimbra virgens e saem de cá ainda virgens... e juro-te que ainda ninguém o viu mexer a sua mão direita! Eh, eh, eh.
Parece-me que ainda estou a ouvir a sua sonora gargalhada quando acabou de contar esta história. E sorrio...
Nota 1: se derem um "clique" em cima de cada fotografia poderão ver melhor os seus pormenores.
Nota 2: Apesar de hoje ser o dia das mentiras (1 de Abril) a história é verdadeira :-)
domingo, 30 de março de 2014
Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (V)
Como vem sendo frequente - nem de propósito - estava numa mesa próxima um grupo de 5 (exactamente 5) jovens da nossa geração, com idades entre os 50 e os 55.
Esclareça-se, porque a palavra “jovens” é ambígua, que se tratava de elementos do sexo feminino. Ficamos à distância estrategicamente conveniente: não demasiado próximos, para não nos inibir de falar à vontade; nem excessivamente longe para não se quebrar a corrente de interesse nem esbater o perfume do romantismo serôdio que nestas circunstâncias se estabelece. Pelo nosso traquejado faro concluímos que se tratava de um grupo de professoras. Provavelmente a conversa recaia sobre os testes a aplicar aos alunos ou sobre a má criação, tão em voga nos dias de hoje. Certamente já não se lembram das asneiras que faziam quando eram da idade deles. Ou falariam antes sobre as malfeitorias do governo, com alvo particular na vilipendiada classe dos professores?
Nisto aproximou-se alguém que tanto poderia ser o director da escola, como o homem das fotocópias. Mas a sua presença de pouco nos interessava, pelo que nem demos pela sua ausência, passado pouco tempo. Parece ter saído à sucapa, para não perturbar a nossa etérea contemplação.
O Bernardino ainda disse que noutros tempos não teria qualquer pejo em procurar uma aproximação, atrevendo-se temerariamente a meter conversa, confiante no sucesso da investida. Mas agora nem sequer ousou. Ficamo-nos por isso naquele tipo de conversa de velhos jarretas, como a raposa que, ao saber que não pode chegar às uvas, sabiamente limita-se a proferir o célebre: “não prestam. Estão verdes”.
Entretanto faziam-se horas para regressar a penates. Mas como o almoço tinha sido sóbrio e regrado, só o Rogério teve necessidade de procurar um “Toni” em Vale de Cambra, mas para uma visita rápida e descomprometida.
Nisto aproximou-se alguém que tanto poderia ser o director da escola, como o homem das fotocópias. Mas a sua presença de pouco nos interessava, pelo que nem demos pela sua ausência, passado pouco tempo. Parece ter saído à sucapa, para não perturbar a nossa etérea contemplação.
O Bernardino ainda disse que noutros tempos não teria qualquer pejo em procurar uma aproximação, atrevendo-se temerariamente a meter conversa, confiante no sucesso da investida. Mas agora nem sequer ousou. Ficamo-nos por isso naquele tipo de conversa de velhos jarretas, como a raposa que, ao saber que não pode chegar às uvas, sabiamente limita-se a proferir o célebre: “não prestam. Estão verdes”.
Adeus até ao meu regresso
Este grupo é mesmo muito organizado. Já está prometido e alinhavado com pormenores mais uma ida a Trás-os-Montes, logo que mude a hora. Quase só falta acertar a data. Mas mais, enquanto esse longínquo e ansiado dia não chega, não podemos perder tempo. Tratou-se já da próxima viagem, tendo-se mesmo fixado a data e seleccionado o local e a ementa: será em 7 de maio, novamente no Mira Freita, para voltarmos a saborear o cabrito serrano. Não é só pelo gosto de repetir: desejamos compartilhar estes inolvidáveis e saborosos momentos com as nossas consortes (com sorte), que sabemos estarem ansiosas por esse dia, há muito prometido e mais que por uma vez adiado.
“Uma vez sem exemplo”, ouvi eu no carro. E, como cronista fiel, não posso deixar de registar com precisão o que ouvi com estes que a terra há-de comer, mesmo que a expressão não traduza o verdadeiro sentimento de quem proferiu tão oportuna quão assertiva e assassina frase, embora sem lhe medir as consequências (obviamente, isto não pode sair daqui. Todos os cuidados são poucos e nestas coisas elas não perdoam).
Como não podia deixar de ser, o Mota ditou sábia sentença: “entretanto, e como o 7 de maio ainda vem longe, podemos no meio organizar um novo almoço só para nós, para desenferrujar a língua e não perder o ritmo” (a tradução é livre, pois a memória não registou a frase sic).
E sem mais nada de especial digno de registo acabamos por chegar a Valadares. Aí nos despedimos com um até já, já com saudades do futuro encontro no Mira Freita.
O secretário/cronista
Alexandre Ribeiro
Nota final: O vídeo já nem era necessário mas... "o prometido é devido"! Aqui fica, portanto. Vejam em ecrã inteiro para verem melhor.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (IV)
Finalmente
Depois de uma
descida até ao sopé da serra finalmente chegamos ao Mira Freita, em Felgueira,
o ponto mais almejado desde a nossa saída, local onde iríamos confortar o
estômago e proporcionar uma onda de requintados prazeres ao palato. Faltavam
ainda 5 minutos para a hora marcada. O Mota programou a coisa com todo o rigor.
O restaurante
é enorme, com espaço para quase 200 comensais, com amesendação simpática, a não
merecer qualquer reparo. Como era meio da semana a afluência era escassa,
deixando-nos à vontade para uma conversa descontraída, mesmo que porventura
viesse a descambar para o desbragamento (o que obviamente não aconteceu, como é
apanágio deste grupo).
Pelas bandeiras portuguesa e suíça ostentadas em frente ao edifício, que a brisa fazia ondular nos mastros em suaves movimentos, concluímos que o restaurante pertenceria a um português provavelmente ex-emigrante na Suíça que, soubemos, agora produzia vinho numa quinta em Sever do Vouga.
Comodamente instalados, passamos ao que interessa. Abrimos as hostilidades começando
por uns tradicionais rojões de porco conservados no pingue, à antiga (que deixaram o Mota a calcorrear com nostalgia os caminhos e sabores da infância) acolitados por saborosa morcela tradicional caseira.
Para melhor aconchego mandamos vir um verde tinto da “Quinta do Patrão”, leve e saboroso, servido em pequenas canecas, o que obrigou o empregado a ter de proceder ao reabastecimento vezes sucessivas.
E veio então o cabrito, servido em assadeira de barro, com honras de verdadeiro campeão, profusamente ladeado de folhas de louro. Um cabritinho daqueles que não enganam: carne tenríssima, nacos suculentos, assadura no ponto, tempero com sapidez milimétrica. A quantidade - 3 doses para 5 galfarros - foi exactamente quanto baste: deu para ficar plenamente satisfeito, embora se mais viesse não iria sobrar nada, com os inconvenientes que se conhecem. Como acompanhamento veio um arroz malandrinho de carqueja, com as flores
da dita a boiar à superfície. Em complemento ou alternativa havia legumes, batata cozida e nabos.
A lista de sobremesas, não sendo extensa, era suficiente. Quantidades generosas, sabor agradável. Para culminar esta refeição de príncipes da idade média, o serviço foi concluído com os inevitáveis cafés e umas reconfortantes aguardentes para os apreciadores.
A conta não ofereceu surpresas: 20 euros por bico, englobando já uma algo pífia gratificação ao garçon, sempre prestimoso, amável, discreto e eficiente.
Pelas bandeiras portuguesa e suíça ostentadas em frente ao edifício, que a brisa fazia ondular nos mastros em suaves movimentos, concluímos que o restaurante pertenceria a um português provavelmente ex-emigrante na Suíça que, soubemos, agora produzia vinho numa quinta em Sever do Vouga.
Comodamente instalados, passamos ao que interessa. Abrimos as hostilidades começando
por uns tradicionais rojões de porco conservados no pingue, à antiga (que deixaram o Mota a calcorrear com nostalgia os caminhos e sabores da infância) acolitados por saborosa morcela tradicional caseira.
Para melhor aconchego mandamos vir um verde tinto da “Quinta do Patrão”, leve e saboroso, servido em pequenas canecas, o que obrigou o empregado a ter de proceder ao reabastecimento vezes sucessivas.
E veio então o cabrito, servido em assadeira de barro, com honras de verdadeiro campeão, profusamente ladeado de folhas de louro. Um cabritinho daqueles que não enganam: carne tenríssima, nacos suculentos, assadura no ponto, tempero com sapidez milimétrica. A quantidade - 3 doses para 5 galfarros - foi exactamente quanto baste: deu para ficar plenamente satisfeito, embora se mais viesse não iria sobrar nada, com os inconvenientes que se conhecem. Como acompanhamento veio um arroz malandrinho de carqueja, com as flores
da dita a boiar à superfície. Em complemento ou alternativa havia legumes, batata cozida e nabos.
A lista de sobremesas, não sendo extensa, era suficiente. Quantidades generosas, sabor agradável. Para culminar esta refeição de príncipes da idade média, o serviço foi concluído com os inevitáveis cafés e umas reconfortantes aguardentes para os apreciadores.
A conta não ofereceu surpresas: 20 euros por bico, englobando já uma algo pífia gratificação ao garçon, sempre prestimoso, amável, discreto e eficiente.
Como "sobremesa" extra assistiu-se, na varanda voltada a sul, a um animadíssimo despique em matraquilhos, que opôs uma equipa mista Porto/Benfica (Rogério e Bernardino) aos declarados portistas Jorge e Alexandre. Depois de um robusto 5-1 na primeira partida, favorável aos portistas Jorge/Alexandre, os adversários acabaram por ganhar terreno, nas três restantes partidas, sempre renhidas e disputadas até ao fim, registando-se um empate e dois resultados tangenciais favoráveis à dupla mista Rogério/Bernardino.
Vale de Cambra
Terminado o repasto havia que queimar os últimos cartuchos, antes de regressar a casa.
O que é bom acaba sempre depressa. Para não falar em outros exemplos (porventura de sabor mais intenso e excitante), recordo apenas a saudade dos adeptos de Mary Quant, quando diziam o mesmo: “o que é bom acaba depressa. Por isso é que a moda da minissaia durou tão pouco tempo”.
Descemos, assim, até Vale de Cambra, calmamente, para não apressar o tempo.
Aí preenchemos o habitual euromilhões, sempre com a expectativa e a promessa de que a próxima viagem seja de helicóptero, para saborear de forma condigna o jackpot que um dia, fatalmente, se atravessará no nosso caminho.
Ficamos numa acolhedora esplanada a conversar um pouco, enquanto ajudávamos a digestão com as águas da praxe.
(Continua...)
quarta-feira, 26 de março de 2014
Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (III)
Local das pedras parideiras
Avançamos
talvez uns dois quilómetros, a caminho do local das famosas pedras
parideiras, passando ao lado de uma pitoresca aldeia chamada Albergaria
da Serra.
Mais para meter conversa que para pedir informação (a placa não deixava dúvidas), interpelamos um habitante local que nos apareceu ao caminho e que nos confirmou: Vão bem. As pedras parideiras são já ali. Mas nesta época não estão a parir nada.
Mais para meter conversa que para pedir informação (a placa não deixava dúvidas), interpelamos um habitante local que nos apareceu ao caminho e que nos confirmou: Vão bem. As pedras parideiras são já ali. Mas nesta época não estão a parir nada.
Tal como a maior
parte dos consultores de empresas, este aldeão não nos disse nada que já não
soubéssemos. Mas é sempre reconfortante encontrar alguém que nos garanta que
estamos no caminho certo e que sabemos como são as coisas. E lá fomos nós,
agora muito mais serenos e confiantes, a caminho do sítio das pedras parideiras.
Daqui
observa-se, sob outro ângulo, a frecha da Mizarela em toda a sua plenitude e
imponência, em plácida e exuberante nudez da fenda e das rochas (granito e
xisto) que a marginam. As águas revoltas deslizam em tropel imparável, descendo
em turbilhão pelas descarnadas rochas da fenda, (ou pela fenda das rochas?)
apressadas e ofegantes, ansiosas por chegar ao êxtase e à calmaria, no sopé do
monte, onde, enfim, podem repousar e retemperar energias após tão alucinante
viagem (que é que isto me faz lembrar?).
Voltemos às pedras parideiras, que são um fenómeno
geológico raríssimo. No caso da serra da Freita são mesmo um caso único no
mundo no que respeita a este tipo de granito.
Cientificamente o fenómeno é assim:trata-se de uns afloramentos rochosos onde os
componentes da rocha se agrupam em vez de se distribuírem de forma mais ou menos uniforme por toda a rocha, formando nódulos que se destacam claramente pela sua cor escura. Ao fim de milhares (ou milhões) de anos a erosão, as condições de tempo (diferença térmicas e humidade) fazem estalar a rocha, que larga os seus rebentos. Daí a designação de pedras parideiras. O período de gestação é muito longo, o parto é muito demorado.
Cientificamente o fenómeno é assim:trata-se de uns afloramentos rochosos onde os
componentes da rocha se agrupam em vez de se distribuírem de forma mais ou menos uniforme por toda a rocha, formando nódulos que se destacam claramente pela sua cor escura. Ao fim de milhares (ou milhões) de anos a erosão, as condições de tempo (diferença térmicas e humidade) fazem estalar a rocha, que larga os seus rebentos. Daí a designação de pedras parideiras. O período de gestação é muito longo, o parto é muito demorado.
Mesmo à face
da estrada vemos os afloramentos
graníticos (não estou a inventar nem a fazer literatura. É assim que reza o
panfleto), prenhes de pedras parideiras, na maior parte
dos casos com os partos concluídos e com os filhotes já muito longe da casa paterna. Mas ainda há pedras com a gestação incompleta e sem data marcada para o parto, apesar dos meios tecnológicos de que hoje se dispõe para avaliar a data destes eventos. Neste aspecto, como em muitos outros, a natureza não se compadece com a pressa ou com os desejos dos homens. Há-de ser quando Deus quiser, dirão os crentes.
dos casos com os partos concluídos e com os filhotes já muito longe da casa paterna. Mas ainda há pedras com a gestação incompleta e sem data marcada para o parto, apesar dos meios tecnológicos de que hoje se dispõe para avaliar a data destes eventos. Neste aspecto, como em muitos outros, a natureza não se compadece com a pressa ou com os desejos dos homens. Há-de ser quando Deus quiser, dirão os crentes.
Mas para
outras coisas (como a larica) a natureza pode apressar o “parto”. E para nos lembrar as regras lá estava o co-piloto Mota,
novamente a carregar a fundo no “acelerador”: “Temos de nos despachar. É quase uma hora e já devíamos estar a chegar
ao restaurante.”
“Ok Mota. Espera um pouco que já vamos”.
E, sem pressas, ainda nos demoramos o tempo suficiente para comprovar que o Centro de Interpretação – Casa das Pedras
Parideiras é
uma estrutura muito bem organizada e dotada em meios técnicos e humanos, merecedora de todo o apoio e da gratidão de quem gosta de conhecer estes interessantes fenómenos com o máximo de rigor e cientificidade. Aliás, as próprias rochas podem ser visitadas em excelentes condições de conforto, seguindo por uma passerelle tipo passadiço, em madeira, que circunda a principal afloração e permite ver e tocar directamente as rochas. Mas posso garantir que será infrutífera qualquer tentativa de provocar um parto.
uma estrutura muito bem organizada e dotada em meios técnicos e humanos, merecedora de todo o apoio e da gratidão de quem gosta de conhecer estes interessantes fenómenos com o máximo de rigor e cientificidade. Aliás, as próprias rochas podem ser visitadas em excelentes condições de conforto, seguindo por uma passerelle tipo passadiço, em madeira, que circunda a principal afloração e permite ver e tocar directamente as rochas. Mas posso garantir que será infrutífera qualquer tentativa de provocar um parto.
As entidades
locais e a Arouca Geopark merecem os parabéns.
(Continua...)
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