Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


sábado, 19 de outubro de 2013

Reumatismo...

- Padre, perdoe-me porque pequei (voz feminina)
- Diga-me filha - quais são os seus pecados?
- Padre, o demónio da tentação apoderou-se de mim, pobre pecadora.
- Como é isso filha?
- É que quando falo com um homem, tenho sensações no corpo que não sei descrever...
- Filha, apesar de padre, eu também sou um homem...
- Sim, padre, por isso vim confessar-me consigo.
- Bem filha, como são essas sensações?
- Não sei bem como explicá-las - neste momento meu corpo recusa-se a ficar de joelhos 
  e... necessito ficar mais à vontade.
- A sério??
- Sim, desejo relaxar - o melhor seria deitar-me...
- Filha, deitada como?
- De costas para o piso, até que passe a tensão...
- E que mais?
- É como um sofrimento que não encontro palavras.
- Continua minha filha.
- Talvez um pouco de calor me alivie...
- Calor?
- Calor padre, calor humano, que leve alívio ao meu padecer...
- E com que frequência é essa tentação?
- Permanente padre. Por exemplo, neste momento imagino as suas mãos na minha pele...
- Filha?!
- Sim padre, sinto necessidade de que alguém forte me estreite em seus braços e me dê o alívio de que necessito...
- Por exemplo, eu?
- Sim padre.
- Perdoe-me minha filha, mas preciso saber a sua idade...
- Setenta e quatro, padre.
- Filha, vá em paz que o seu problema é reumatismo...

Esta pequena historieta, assim "apimentada", ilustra um pouco daquilo que penso da "sagrada" confissão que se pratica na religião católica apostólica romana. 
De facto, nunca consegui compreender (por muito que me explicassem) como alguém consegue obter a redenção dos seus pecados, e consequente paz de alma, através do acto da confissão e da penitência aí aplicada. Se conseguisse expressar a minha primeira (e única) experiência, ainda muito jovem e imaturo, teria de falar arrebatadamente na ansiedade que senti antes da confissão, da consternação durante o acto e do desalento carregado de medo que o seguiram.

Em contrapartida, conseguia obter de forma espontânea e natural, a tal paz interior ouvindo a chuva cair antes de adormecer, olhando simplesmente para o pôr-do-sol, apreciando o brilho da Lua e do Céu estrelado, ou vendo e ouvindo as ondas do mar a espraiarem-se na areia...

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A dúvida


Nota:  
Encontrei esta dúvida perdida no baú onde guardo alguns dos meus pensamentos.
O despacho de aposentação de facto já chegou. Deixo, ainda assim, com algum atraso esta dúvida que é também uma suplica e que demonstra a minha vontade em sair rapidamente de um sistema com o qual já não me revejo. 

As "dúvidas" não matam mas moem...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Reportagem fotográfica 5 - Açores

 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Os dois lobos...

"- Existe uma batalha que toda a gente tem que travar dentro de si. Essa batalha dentro de nós é entre dois lobos.
- Um é mau. É a cólera, a inveja, o ciúme, a amargura, o desgosto, o arrependimento, a cobiça, a arrogância, a lamentação, a culpa, o ressentimento, a inferioridade, a mentira, a vaidade, a soberba, o complexo de superioridade e o egoísmo.
- O outro é bom. É a alegria, a paz, o amor, a esperança, a serenidade, a humildade, a bondade, a benevolência, a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a confiança.

Quem assim falava era o velho Chefe Índio, sentado numa magnífica pele de urso, aspirando pausadamente o fumo do antigo cachimbo. A ouvi-lo extasiado estava um jovem  pele vermelha, seu neto, que aproveitou a pausa na narrativa para perguntar:
- Qual dos lobos vence?
O velho índio respondeu simplesmente:
- Aquele que alimentares."

Um velho amigo enviou-me por e-mail esta linda história.  
Normalmente seria reenviada para alguns dos meus amigos, sem prestar mais atenção. Mas, talvez por me encontrar imbuído de um certo espírito introspectivo, aproveitei para reflectir sobre as lutas que se desenrolam no meu interior e tentar identificar qual dos lobos eu alimento mais.
Convido quem me visitar neste blogue a fazer o mesmo.
Pela parte que me toca, confesso que a luta entre as minhas feras ainda não terminou porque a alimentação que lhes lanço tem sido abocanhada ora por um, ora por outro.

Mas o que eu quero que vença é, sem dúvida, o lobo bom. E há-de vencer. Tem que vencer. Disso estou seguro...

sábado, 5 de outubro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXXV e último)

Estava a trincar, alternadamente, uma maçã que segurava na mão esquerda e um pedaço de queijo Camenbert que tinha na mão direita quando uma carrinha de caixa fechada parou mesmo à sua frente. Saíram de lá um homem de bata branca e uma mulher de avental e lenço também brancos. Contornaram a carrinha cada um do seu lado, abriram em equipa a porta traseira que abria e fechava em forma de livro e retiraram do seu interior um cesto de pães enormes com a côdea tostada e estaladiça. Entraram pela porta principal da estação e reapareceram passados alguns minutos. Ele, calmamente, a sacudir as mãos da farinha. Ela esbaforida e a berrar pelo facto de mais uma vez ele ter vendido fiado.
Quando Zeferino lhes pediu boleia o homem, a quem a mulher chamava de Zequinha, aproveitou o pretexto para acabar com a discussão perguntando-lhe para onde queria viajar. - Está bem, levo-te até Moncorvo se não te importares de fazer duas paragens connosco, uma em Carviçais e outra no Larinho, enquanto vamos distribuir o resto do pão.
Zeferino acomodou-se então no único banco disponível do furgão entre sacos vazios, amarrotados e sujos de farinha. Assim, no seu canto, e à medida que a viagem ia decorrendo, pensava para si que qualquer semelhança entre aquela estrada esburacada, sem separadores centrais, que se serpenteava entre sobreiros, amendoeiras e pinheiros bravos e as modernas estradas de França era uma pura coincidência. Aqui parecia que não circulavam veículos fabricados neste século. A maioria eram camiões, carros velhos, “chaços” que se envolviam numa nuvem de fumo e pó e que produziam um barulho ensurdecedor. O mais curioso é que só agora no regresso a Portugal é que Zeferino se dava conta destes pormenores e os interiorizava desta maneira.
Também em si próprio notava que muita coisa havia mudado. De facto, logo que deu os primeiros passos em Barca d´Alva, sentiu que já não era o mesmo e que tinha regressado mais adulto, mais inspirado e virado para uma vida mais ampla e global… com uma visão mais pragmática e realista do mundo e, em consequência, melhor preparado para ultrapassar esse que seria sem dúvida um dos piores períodos que teve de percorrer e viver enquanto jovem ainda adolescente e, sobretudo, enquanto estudante.
Vinha também mais armado sob o ponto de vista psicológico e moral para superar essa “crise” da adolescência e alguns dos episódios que viveu nessa época e que sentiu de forma intensa, quase dramática. 
Sentiu sobretudo que esta também tinha sido uma viagem ao interior de si mesmo e, ao fazê-la, pode analisar todos os aspectos da sua vida com a mesma visão e viver consigo próprio com maior honestidade, sem receios, nem medos, nem preconceitos. Esta viagem ao interior do seu âmago assim dessa forma tão saudável permitiu-lhe enfim uma melhor aceitação de si mesmo e melhorar o seu auto conceito e auto estima.
Prometeu a si próprio que nunca mais iria ter um fracasso nos seus estudos. Iria estudar e aplicar-se como nunca o tinha feito até aí. Nunca mais iria reprovar em qualquer exame que tivesse de fazer como, infelizmente, já lhe tinha acontecido em duas situações anteriores. Assim, com esta auto confiança adquirida nunca mais iria baixar os braços e não deixaria que as dificuldades dessem cabo da sua alegria de viver. 
Habituar-se-ia a não gastar os seus dias com queixas e lamentações e (re)aprenderia a viver sem algumas das coisas a que achava que tinha direito e, entretanto, lhe foram retiradas, ganhando com isso a possibilidade de desfrutar de outras ainda com mais potencialidades. 
Aprenderia ainda a olhar para as pessoas, para os objectos, para os sítios, para os acontecimentos, com outros olhos, com outro sentido de descoberta.
Prometeu ainda a si próprio que, porventura, deste período negro sairia mais forte e com mais capacidade de conseguir ver o lado positivo da vida mesmo quando tudo parecesse cinzento e nublado.
Assim imbuído nestes pensamentos mal se deu conta da viagem e quando deu por si já estava em Moncorvo.
No centro desta bela localidade de Trás-os-Montes, mesmo em frente à Câmara Municipal, e com surpresa, viu um carro aí estacionado que conhecia muito bem, o Nissan 240Z, novinho em folha, do Dr. Silva, veterinário de Vila Flor e seu professor de Geografia no Colégio de Santa Luzia. – Viva! Já está! Já tenho boleia até casa. Agora é só esperar que o Dr. Silva regresse ao seu carro, pensou com regozijo.
O Dr. Silva chegou, deu-lhe de imediato boleia mas ralhou-lhe por ter faltado às aulas durante a primeira semana desse terceiro período. Só ficou mais calmo depois de Zeferino lhe ter contado que durante os primeiros três dias dessa semana tinha estado a cumprir o tal castigo aplicado pelo Padre Cassiano e - sobretudo - as circunstâncias injustas que o motivaram. Depois de ter perguntado se tinha sido mesmo assim que tudo se tinha passado acreditou e pareceu até ter ficado solidário com Zeferino. Fizeram os vinte e cinco quilómetros que separam Moncorvo de Vila Flor de forma muito agradável, bem dispostos e a rirem-se das peripécias ocorridas durante a viagem e que Zeferino foi relatando com prazer.

Alguém disse que a vida é uma viagem  a três estações: acção, experiência e recordação. 
Zeferino podia afirmar com toda a certeza de que esta tinha sido a viagem da sua vida em que não faltou nenhuma dessas estações…

FIM

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXXIV)

Já perto da fronteira de Barca D´Alva, mais precisamente em La Fuente de San Esteban, Zeferino acordou lentamente e, ainda estremunhado, olhou através da enorme janela para o exterior do comboio e pensou: quem disse que "quem olha para fora sonha e quem olha para dentro acorda" tinha toda a razão. 
Este pensamento veio-lhe à mente provavelmente por duas razões que no momento o impressionavam e agitavam os seus sentimentos mais profundos. 

Por um lado, devido à bela obra de engenharia que liga de caminho de ferro esta localidade espanhola a Portugal e que desfrutava e admirava à medida que ia olhando para fora. 
De facto, estes últimos 77 Km de linha permitiam-lhe apreciar cenários e paisagens verdadeiramente impressionantes por um traçado quase impossível de imaginar. Calculava que devia ter sido necessário um enorme engenho humano para construir 20 túneis e 13 pontes por entre graníticas e imponentes montanhas, num trabalho de dimensão faraónica que durou 12 anos, perfurando-se montanhas e unindo-se encostas, tudo para permitir vencer o isolamento secular das terras da província espanhola de Salamanca, permitindo desta forma que as mercadorias transportadas pudessem escoar os seus produtos, por mar, na cidade do Porto.

Por outro lado, porque quase no final desta inesquecível viagem, Zeferino ao olhar para dentro de si próprio, sentia-se confuso e com sentimentos ambivalentes. Ao mesmo tempo que sentia um certo mal estar (devido talvez a sentimentos de culpa) começou também a sentir saudades de Helena, como que acordando. 
Não sabia bem porquê mas à medida que mais se aproximava de Vila Flor mais saudades tinha. Já não a via há cerca de quinze dias mas parecia-lhe que a ausência durava há quinze anos. Na verdade, não fazia a mínima ideia se ainda continuariam a ser namorados depois de todas estas súbitas e apaixonantes experiências. Nestas duas semanas perdeu-lhe totalmente o rasto e nem sequer ocupou muito a sua mente e os seus pensamentos. Parecia-lhe que vivia num mundo lá longe, distante e inatingível.
O mais provável seria acabarem de vez com o relacionamento. De facto, ele vinha disposto a encarar a vida de um outro modo, mais sério e pragmático. 
Mas… naqueles momentos, sozinho no comboio, parecia que lhe ouvia a voz, que lhe sentia o cheiro e principalmente que a ouvia chamar pelo diminutivo do seu nome, que ela fazia de forma única, tão doce e com tanto carinho. A Lena, até agora, não tinha sido apenas a sua namorada. Tinha sido uma grande companheira, uma amiga, a sua melhor amiga. Quando andava mais triste era dela que ele se lembrava. 
Poderia parecer contraditório mas era exactamente pela consideração e amizade que lhe tinha que ele sentiu que tinha de ser totalmente sincero com ela e propor-lhe o fim... 
Teria, naturalmente, de ser politicamente correcto (se fosse capaz) e dizer-lhe que, se acabassem, deviam e podiam ficar amigos. Queria dizer-lhe também que a iria lembrar para sempre como tendo sido a sua primeira namorada e que aquilo que tinham vivido nessa fase tinha sido muito importante para ele e iria com certeza ter uma consequência forte para a vida inteira.
Teria de lhe contar todas as incidências desta viagem de ida e volta a Paris e, sobretudo, a forma como sentia o impacto de tudo o que viveu, de tal forma tão forte e intenso que lhe provocaram grandes alterações ao mesmo tempo que lhe haviam criado novos sentimentos que o levavam para o oposto daquilo que era a sua vida anterior. 

Zeferino agora sentia-me mais forte, não fisicamente mas mentalmente, agora não tinha de usar a agressividade para sobreviver no seu pequeno mundo lá no nordeste transmontano. 
Sentia, isso sim, que neste novo e grande mundo que descobrira, ele só tinha de usar a sua mente, e mais importante, o seu coração. Agora ele sentia alegria, sentia-se livre e com autonomia para viver sozinho. 

Agora ele sabia o que era a felicidade...
(continua...)


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Porto Sentido

 Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
Vê um velho casario
Que se estende até ao mar
Quem te vê ao vir da ponte
És cascata, são-joanina
Erigida sobre o monte
No meio da neblina.
Por ruelas e calçadas
Da Ribeira até à Foz
Por pedras sujas e gastas
E lampiões tristes e sós.
E esse teu ar grave e sério
Dum rosto e cantaria
Que nos oculta o mistério
Dessa luz bela e sombria
Ver-te assim abandonada
Nesse timbre pardacento
Nesse teu jeito fechado
De quem mói um sentimento
E é sempre a primeira vez
Em cada regresso a casa
Rever-te nessa altivez
De milhafre ferido na asa
Porto Sentido, Rui Veloso

domingo, 29 de setembro de 2013

O poder do beijo

Vinha pela estrada uma caravana de motociclistas fortes, bigodudos, nas suas poderosas motos, quando de repente vêem uma garota a ponto de saltar de uma ponte num rio. 
Eles param e o líder, particularmente corpulento e de aspecto rude, salta, dirige-se à miúda e pergunta:
- Que diabo está a fazer??
- Vou suicidar-me! Responde suavemente a delicada garota com a voz cadenciada e ameaçando pular.
 
O motociclista pensa por alguns segundos e finalmente diz:
- Bom, antes de saltar, por que não me dá um beijo?
 
Ela acena com a cabeça, bota de lado os cabelos compridos encaracolados e dá um beijo longo e apaixonado na boca do motociclista.
 
Depois desta intensa experiência, a gangue de motoqueiros aplaude, o líder recupera o fôlego, alisa a barba e admite:
- Este foi o melhor beijo que me deram na vida. É um talento que se perderá no caso de você se suicidar. Por que quer morrer?
- Meus pais não gostam que eu me vista de mulher!!! 

(não me lembro se o caso terminou classificado como homicídio ou suicídio)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Chegou o outono...

E porque o outono, estação associada à queda das folhas e a castanhas assadas, regressou há 4 dias atrás, mais precisamente no dia 22 deste mês, às 21h44, nada melhor do que comemorar esta bela estação do ano, recordando o nosso grande poeta, Fernando Pessoa.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Melodias...

Música para relaxar...
Deixemos que ela entre como um bálsamo  e veremos como nos transmite tranquilidade, serenidade e a paz. 
Condições necessárias e essenciais para encararmos, com coragem, os tempos difíceis que atravessamos e que foram provocados por políticos corruptos, malabaristas e aldrabões que nos (des)governam e desgovernaram.


E amanhã, 25 de Setembro, lá estarei  como aposentado da função pública, no Rossio, em Lisboa, numa jornada nacional de protesto contra os cortes nas pensões, dando a cara e lutando contra o embuste da convergência das pensões que este governo nos quer impor, escondendo que em muitas áreas do sector privado são pagas pensões mais elevadas (banca, seguros, telecomunicações, transportes aéreos, etc).

sábado, 21 de setembro de 2013

Palavras para quê?


“O presidente do PSD e primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, sustentou, hoje à noite, dia 21 de Setembro de 2013, que cortes nas pensões são decisivas para evitar segundo resgate…”

Confrontado com este discurso arrasador, tão "verdadeiro" e "coerente", só me apetece citar Mario Quintana, quando disse:
"Todos estes que aí estão
atravancando o meu caminho,
eles passarão,
eu passarinho!"

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXXIII)

Zeferino empreendeu esta caminhada na certeza de que iria chegar a bom porto, munido do propósito firme de fazer a viagem sozinho e à sua conta e risco.
Pelas últimas e excelentes experiências que viveu sentia-se optimista e, assim animado, acelerou o passo para entrar na carruagem do comboio que lhe pareceu a mais vazia. Já algo cansado da pesada mochila que levava às costas encontrou um enorme e confortável banco só para si, onde se acomodou e sentiu que poderia descansar.
Ficou então imerso nos seus pensamentos e num estado de alma ambíguo e impreciso que não conseguiria descrever ou exprimir por palavras. Por um lado sentia-se triste por estar a chegar ao fim da caminhada e por outro sentia uma enorme e exultante alegria por tudo o que tinha acabado de viver.
Ora sentado, ora deitado no banco comprido com a cabeça pousada na mochila, ora levantando-se para desentorpecer as pernas, ia consumindo os quilómetros e a distância do caminho que lhe faltava percorrer.
Viajava praticamente sozinho na carruagem e, tendo encontrado um jornal espanhol abandonado num dos bancos, entreteve-se a ler as notícias que mais lhe prenderam a atenção, ao mesmo tempo que praticava a sua leitura em língua espanhola.
Ficou por exemplo a saber que Julio Iglésias se havia casado no dia 20 de Janeiro desse mesmo ano, em Toledo (Espanha), com Isabel Preysler Arrastria, que tinham passado a lua-de-mel nas Canárias e... que iria participar no Festival da Eurovisão com a canção Gwendolyne.
Leu ainda que o Grande Prémio de Fórmula 1 se havia disputado no circuito urbano de Montjuich, em Barcelona,  3 dias antes, a 18 de Abril de 1971. O vencedor tinha sido Jackie Stewart no seu Tyrrell. 
Na Guerra da Independência do Bangladesh, lutava-se ferozmente e diariamente eram violadas dezenas e dezenas de mulheres.
Depois de ler, deitou-se mais uma vez ao comprido no banco e o seu pensamento viajou mais rápido do que o comboio e... estacionou em Vila Flor. 
Mal aí chegou, ficou ainda mais triste. Descodificar as causas dessa tristeza era entrar nos obscuros labirintos duma análise tão real quanto inverosímil do mundo que aí o rodeava. Uma enorme indignação o invadiu de tal modo que nenhuma revolta o podia apaziguar… 
Considerava-se um rapaz pacato e globalmente bem comportado. Por isso não compreendia, nem aceitava, as alegadas razões pelas quais tinha sido castigado tão duramente (três dias de suspensão das actividades lectivas) pelo Director do Externato de Santa Luzia de Vila Flor que frequentava.  
O incidente tinha acontecido na tarde do sábado que antecedeu o final do 2º período desse ano lectivo. A música de um gira-discos animava os cinco ou seis pares que dançavam na sede do Vila Flor Spor Clube. O seu par tinha ido embora momentos antes com receio de que o pai descobrisse onde ela estava e o que andava a fazer. Encontrava-se, naquele momento, no passeio junto da porta de entrada da Sede quando, de repente, viu passar na rua que subia uma bela rapariga de largas ancas e fartos peitos, com andar decidido e mais velha aí uns quatro ou cinco anos do que ele. Não resistiu a mandar-lhe uns piropos. Sem a ofender, antes pelo contrário, para a galantear disse-lhe qualquer coisa como isto: - tens uma avançada melhor do que a do Benfica! És muito jeitosa! Queres vir dançar comigo?
Ela olhou para Zeferino e respondeu: - És um malandreco! Pensas que não te conheço? Pensas que engatas as raparigas todas? Vou já dizer ao Senhor Padre!
Ele não sabia mas o Lelo Pinto, que estava a seu lado, logo o avisou que aquela rapariga era a empregada doméstica do padre Cassiano Dimas Fais, que era também o Director do Externato.
- Mau, mau, então estou feito! Pensou Zeferino.
Nessa mesma noite por volta da hora do jantar, apareceu em casa dos seus pais uma patrulha da GNR(!) acompanhada pelo sacristão(!) dizendo ao pai de Zeferino para irem, sem demoras, a casa do padre.
Pelo caminho Zeferino disse a seu pai que sabia a razão pela qual lá iam. E contou-lhe o incidente dessa tarde em que eu tinha mandado uns piropos à criada do padre. 
Logo que entraram para o escritório do Padre este mandou sentar o seu pai numa cadeira que ficava ao seu lado direito, mas num plano inferior ao seu.
A Zeferino mandou-o ficar de pé e sem grandes rodeios, virando-se directamente para o seu pai, sentenciou:
-Pois aqui o seu filho tratou mal a minha criada que é para mim como da família! Deve educar melhor os seus filhos!
Depois, virando-se para Zeferino: Vais ter que lhe pedir desculpa!
- Eu!? Porquê? Que lhe fiz? - respondeu o assarapantado Zeferino
- Então não te meteste com ela dizendo que era "boa como o milho"?
- Não foi bem esse isso... não utilizei esses termos nem essa expressão. Mas era minha intenção gabá-la, elogiá-la e convidá-la para dançar.
- Com a minha criada ninguém se mete! Ouviste?
- Mas… se eu soubesse que era sua criada, mesmo sem a ter ofendido, nada lhe teria dito!
- Não quero saber! Vamos … pede-lhe desculpa! Já!!! Apontando o dedo indicador para a empregada, que entretanto também tinha entrado, ao mesmo tempo que o olhava de lado.
Zeferino olhou para a rapariga, que tinha visto pela primeira vez nessa mesma tarde, e perguntou-lhe: - Eu ofendi-te? Fiz-te algum mal? Prejudiquei-te? Diz a verdade!
Ela olhou para o padre, baixou de novo os seus grandes, lindos e tristes olhos para o chão e... não respondeu.
Mas o padre não desistiu insistindo: - Tens que lhe pedir desculpa! Vamos, pede!
Zeferino, a tremer de revolta, virou-se para seu pai e suplicou: - Pai, vamos embora daqui - nós não merecemos esta humilhação!
- Filho, pede desculpa e vamos embora! Respondeu ele.
- Mas, porquê? Porquê?
- Anda lá, não custa nada!
- Mas, pai! Só lhe quis dizer que era muito bonita! Que simpatizava com ela. Não tenho que pedir desculpa por isso.
- Bom, como não tenho a noite toda para aturar a tua teimosia e má educação, sai já daqui! Imediatamente! Vai para a rua e espera lá pelo teu pai enquanto decido quantos dias vais ficar de castigo.
- Mas isso é uma injustiça! Eu tenho que ir às aulas! O meu pai paga as propinas para eu frequentar aquele colégio e o que aconteceu nada se relaciona com os meus estudos. Não tem o direito de aplicar esse castigo. Respondeu furioso Zeferino, saindo sem olhar para trás, e espumando de raiva e de revolta. Foi directamente para casa e contou a sua mãe o que se tinha passado. Esta respondeu-lhe que deveria ter pedido desculpa pois o padre ainda podia vir a prejudicar seu pai.
Passados alguns minutos lá chegou o pai, de chapéu na mão, com a sentença do Padre: três dias de suspensão das actividades lectivas!
- O quê? O que tem a ver a criada do padre com os meus estudos?
- Deixa lá filho não digas nada. Ele pode fazer com que eu perca o emprego.

Foi assim, a pensar no castigo que cumpria precisamente nessa primeira semana do terceiro período, que Zeferino adormeceu...
(continua...)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Antes e depois das eleições...

ANTES DA ELEIÇÃO:
O nosso partido cumpre o que promete
só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção
porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais
para alcançar os nossos ideais
mostraremos que é uma grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre
asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo da nossa acção
apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política
quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas
não permitiremos de nenhum modo que
as nossas crianças morram de fome
cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem
exerceremos o poder até que
compreendam que
somos a nova política


DEPOIS DA POSSE:
Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA

Nota: Este texto é de um autor qualquer desconhecido, mas... muito esclarecido!!! 
          :-)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXXII)

Ao atravessar a porta de entrada da estação de caminhos-de-ferro de Irun, Zeferino, caminhava lentamente, pelo peso da enorme mochila que levava às costas e também porque se encontrava toda encharcada de água que lhe escorria pela coluna abaixo. 
O desconforto, para além de físico, era sobretudo moral e psicológico. 
Sentia, de facto, um enorme desconsolo pela sensação de que a viagem entrava já no seu declínio e que aquela sugestão de aventura e de magia do desconhecido da viagem imaginada toda ela à boleia até Vila Flor se desvanecia à medida que entrava naquele enorme hangar. Por outro lado, sentia-se algo frustrado porque não gostava de ver os seus planos assim alterados por factores externos à sua vontade. Ele gostava de planear. Dava-lhe gozo aquele trabalho de cálculo mental que o levava a julgar e a ponderar as hipóteses... de ver e rever possíveis ou prováveis soluções... fazia parte da sua personalidade “arrumadinha” e “desarrumadinha” ao mesmo tempo. Ele era assim mesmo... um falso desorganizado ou um organizado pontualmente desarrumado. 
Essa chuva persistente tinha estragado toda a sua estratégia todavia proporcionara-lhe aqueles momentos deliciosos... 
Esperanza acompanhava-o e tinha sido a seu conselho que decidira fazer de comboio uma grande parte do resto da viagem.
- É impossível, com estas condições climatéricas, meteres-te na estrada à boleia. Vais de comboio e eu pago-te a viagem até Portugal. Dissera-lhe ela ao entrarem em Irun. 
- Nem penses nisso! Quero fazer a viagem à boleia pela aventura em si e não propriamente por questões de ordem financeira. Respondeu-lhe de imediato Zeferino, que pensou ainda para si mesmo que só o facto de a ter conhecido e de ter vivido tudo aquilo que com ela viveu já justificava plenamente a opção tomada. 
- Sim, sim, então não pago mas... vais na mesma de comboio. Insistiu ela, convencendo-o de vez.
Ao despedir-se de Zeferino, ao mesmo tempo que lhe metia uma caixa de preservativos no bolso (ele tinha-lhe confessado que nunca os havia utilizado anteriormente), deu-lhe um abraço bem forte enquanto lhe sussurrava ao ouvido: - Aqui está uma coisa que eu nunca dou aos meus clientes: um abraço de despedida. Quando algum deles me quer abraçar eu respondo-lhe que os abraços dão-se quando existe amizade, ternura ou amor.
Depois desprendeu-se lentamente, virou-se e partiu...

Zeferino ficou a vê-la afastar-se, a contornar as pessoas que iam e vinham dentro do enorme hall de entrada da estação e, lentamente, a diluir-se no horizonte. Para sempre.

Depois de ter adquirido o bilhete sentou-se num banco corrido de madeira da enorme sala de espera da estação enquanto aguardava pela hora de partida do comboio que o haveria de levar até Barca d´Alva. Puxou então pelo seu bloco de notas, que era uma espécie de diário, e escreveu: 
- Que dia, meu Deus!... ainda estou completamente inebriado... desfrutei hoje, dia 21 de Abril de 1971, de uma das mais extraordinárias e deslumbrantes experiências da minha vida (…) tudo aconteceu de forma inesperada e onde contava encontrar frieza, recebi ternura; (...) imaginei alguma fraqueza, pela minha inexperiência face a uma profissional, e encontrei inspiração e ardor; (...) estava à espera de indiferença e senti um enorme e empolgante entusiasmo partilhado; (...) aquilo que em princípio era para mim apenas uma relação fortuita  ou um desvario, foi, no meu corpo e na minha mente, uma revelação agradável de uma faceta desconhecida da minha natureza… enfim, o que em princípio deveria ter sido apenas um divertimento acidental e imprevisto foi, sem qualquer dúvida, um esplêndido encontro que me irá marcar indelevelmente e do qual nunca me irei esquecer…
(continua...)