Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


quinta-feira, 3 de julho de 2014

O Grupo 5.com(e) em Guimarães (III)

Não se percebe de onde vem o “dan”. Será que o proprietário praticou judo? Não são propriamente essas as artes que pratica quem vem a este “santuário”, onde o bacalhau é rei. É que a ementa apresenta nada menos que seis formas de preparar o que em tempos era apelidado de prato dos pobres e hoje é iguaria de ricos.
Com o Mota a salivar, mandamos vir 4 doses de bacalhau à Zé do Pipo, tendo o Bernardino optado por carne, que
considerou excelente. O fiel amigo estava com a salga no ponto e o sabor a despertar cócegas no palato. Só pecava pela dimensão das doses que, de tão generosas, permitiriam poupar uma dose em 4, sem qualquer prejuízo para comensais normais. Mas comeu-se tudo, pois, como diz um amigo meu, é preferível fazer mal do que deixar para o gato.
Nos aperitivos tínhamos prescindido de alheira com grelos, reduzindo a degustação às vulgares azeitonas e presunto. Nos vinhos deu-se preferência ao verde da casa, da Quinta Donegas, com o Jorge a permanecer fiel à água. Com tanta fidelidade ainda vai acabar a trabalhar para uma companhia de seguros. Nas sobremesas a opção maioritária foi para o pudim, que dizem que estava excelente, pois eu optei por uma laranja descascada, para desfazer o sabor do azeite.
A conta não ofereceu surpresas: 24 euros por cabeça, com 4 a pagar a refeição de 5.

Motoqueiros brasileiros
A sala estava muito composta, praticamente cheia. Tudo “cotas” e “cacos”, sem conotações pejorativas. Dentro do contexto, um bom ambiente, com indícios de estarmos perante um universo onde se vê que o dinheiro não é problema do dia-a-dia.
Ao nosso lado “estacionou” um grupo de motoqueiros brasileiros, já entradotes, que chegaram em reluzentes motas BMW’s, alugadas na Hertz. Depois de umas generosas e variadas entradas mandaram vir comida que dava para o dobro dos comensais, apesar de aparentarem ser bons garfos. Quem sabe se não tinham acabado de chegar do Algarve ou de Lisboa, cheios de larica, e ainda sem perceberam que o Norte é particularmente generoso quando toca a encher o prato. E não só. Mas metade da dose terá ficado na travessa, pois poucos heróis haverá capazes de vencer estes persistentes costumes nortenhos. 

Regresso à cidade
Após uma retemperadora sesta nos jardins do restaurante, era altura de regressar á cidade, não sem antes o Alexandre ter ido acariciar (na face) uma risonha estátua postada no jardim, enquanto o resto do grupo se refastelava nos sofás.
A viagem de regresso começou com um imprevisto: o Jorge antecipou-se a entrar na cabine do teleférico, pelo que teve de fazer uma viagem solitária, enquanto os restantes ficaram a resolver o problema do “nosso motorista”, que perdeu o bilhete, vai-se lá saber como. Valeu-lhe a simpatia da portageira, que acreditou na história (verdadeira) que lhe foi vendida pelo Bernardino, com inegável capacidade de persuasão.
O início da viagem foi turbulento, com os primeiros metros a uma velocidade vertiginosa (em termos relativos, comparada com o resto do percurso, tranquilo e em ritmo de passeio para a terceira idade).
Voltamos ao centro da cidade com o Rogério como protagonista de um episódio recambolesco: parado e de costas voltadas a quem vinha em sentido inverso, o Rogério volta-se de repente e, inadvertidamente (só pode, mas quem sou eu para o acusar ou ilibar) lançou o braço em direcção aos peitos desprotegidas de uma donzela que vinha a descer a rua. “Parecia uma mola” confessou mais tarde o Rogério. “Deve ser maluco”, disse a rapariga ao passar por nós, mas sem disfarçar um olhar sorridente, vá-se lá saber porquê.
A conselho do Jorge fomos comprar “brisas de Guimarães”, uma especialidade em doçaria, uma forma barata e inteligente de compensar as nossas mulheres do “inconveniente” (muito conveniente) de não terem vindo connosco.
Passamos junto a uma pitoresca ruela (uma de muitas) onde fica o Cantinho dos Cacos, sem vestígios de “cacos” de oitenta e muitos, que abundavam pelas ruas.
No Toural cruzamo-nos com um grupo de vimaranenses, todos homens (parece que Guimarães não tem mulheres, pelo menos na rua e de papo para o ar), todos com aspeto de quem está vestido para ir à missa, idades entre os 60 e 70 anos, em amena cavaqueira, de quem dispõe de todo o tempo do mundo.

Não há coincidências.
Tínhamos de regressar a casa, a tempo de assistir ao Espanha-Chile.
No mesmo dia em que o rei Juan Carlos abdicou do trono, exatamente no mesmo dia a selecção espanhola abdicou do título de campeã mundial. É caso para dizer que um azar nunca vem só. Mau agoiro para a seleção portuguesa, que acabou por se portar à altura do campeão do mundo. Em 2018 há mais.
Valadares, 18 de Junho de 2014
O secretário/cronista
Alexandre Ribeiro

E agora o vídeo!!!... Que resume a viagem e ilustra a crónica superiormente escrita pelo nosso secretário/cronista de serviço  :-) 


terça-feira, 1 de julho de 2014

O Grupo 5.com(e) em Guimarães (II)

Velhos são os cacos
A verdade é que a esta hora e nesta época os estudantes universitários, que
transformaram a noite de Guimarães numa movida a pedir meças aos grandes centros, devem estar ainda na cama, ou já regressaram às suas terras de origem após conclusão do ano escolar. E é a terceira idade, estrangeira, que dá animação à cidade. Pelo ar trata-se de gente oriunda do centro da Europa, com algum poder de compra, com preocupações culturais, procurando conhecer terras novas, em ambiente de descontração. Tratando-se de gente da classe média do centro da Europa, e tendo em conta os preços aqui praticados na hotelaria e restauração, o salário de um único dia de trabalho nos seus países de origem permite-lhes vir passar 2, 3 ou 4 dias a uma cidade como Guimarães. Ah, quem dera aos portugueses da classe média poderem fazer o mesmo em Paris, Londres ou Munique! Por aqui se vê como ainda estamos longe dessa Europa.

O Vitória
Ninguém pergunte a um vimaranense se é adepto do “Guimarães”, pois estará a confrontá-lo com um triplo insulto. Primeiro: o clube da cidade não é o “Guimarães”, é o “Vitória”, nome pronunciado com indisfarçável orgulho; segundo: é evidente que todo o vimaranense é vitoriano, isso nem se discute e aqui não há traidores, como é frequente nas grandes cidades; terceiro: ser vitoriano significa amar o clube com paixão, viver as suas actividades com enorme fervor clubístico a raiar a insanidade, que pode levar a apedrejamentos de camionetas de adeptos de clubes adversários que ousem “fazer mal” ao sei Vitória.
Ninguém duvide que o Vitória é especial. Em nenhuma outra cidade portuguesa há tal simbiose entre o clube e os seus adeptos, tal unanimidade, tal paixão e amor ao clube.

Restauração
Guimarães é uma cidade com uma muito eclética oferta gastronómica. Não havendo propriamente um prato que individualize a cidade e lhe sirva de referência, Guimarães especializou-se em fazer bem os mais conhecidos e apreciados pratos da região, dando-lhe um toque local e praticando uma gama de preços acessível a todas as bolsas.
O Rogério e o Mota vinham filados no bacalhau, num restaurante na Penha. O Jorge ainda levou o grupo ao “Histórico”, no centro histórico da cidade, um restaurante com um espaço exterior muito agradável (onde à noite costuma haver animação variada, inclusive com fados de Coimbra). Apesar da ementa convidativa e de um nível de preços que a carteira agradece, o Mota e o Rogério não embarcaram na cantiga, pois são persistentes nas suas opções e nesta matéria nunca nada os demove. 

A Penha
Não estando propriamente no programa, quando surgiu a ideia de se ir à Penha usando o teleférico houve um coro de aprovações, de onde o Mota destoou, não se sabe bem porquê. Pensamos ir comprar umas fraldas, ideia que se veio a revelar exagerada, pois o Mota acabou por se comportar muito bem.
Compramos bilhete de ida e volta, por 4,5 euros. Mas aqui se revelou que também somos um país que (às vezes) protege a terceira idade. Ser “caco” (alguns anos mais velho que um “cota”), valeu um desconto de 2,2 euros, de que beneficiaram o Mota e o Rogério.
Iniciamos a viagem na cabine 33 (ehehehe), e lá subimos o monte, de onde se desfruta uma paisagem a perder de vista, de uma beleza calma e tranquila.
Chegados ao cimo do monte sentimo-nos orgulhosos. A Penha é uma sala de visitas que nos orgulha de ser portugueses e poder proporcionar a quem nos procura esta paisagem tão diferente, num ambiente onde à beleza encantadora do local se aliam hoje interessantes opções de restauração. A informação aos turistas, lacuna grave em muitos outros locais deste país, está aqui bem colmatada por um folheto completo e elucidativo. E não escapa a possibilidade de visitar o local num trem turístico.
Para além da grandiosidade das rochas, encavalitadas umas em cima das outras por mãos gigantes, multiplicam-se os recantos, criando pequenas grutas naturais. É pena que destes locais inale um cheiro que nada tem de campestre nem floral. Provavelmente trata-se de locais discretos e eficientes para actividades ou prazeres, solitários ou não. Que o diga o Mota, que encontrou os sanitários masculinos encerrados. É pena ver esta nódoa numa sala de visitas tão linda.

(Continua...)

domingo, 29 de junho de 2014

O Grupo 5.com(e) em Guimarães (I)

Crónica de
Alexandre Ribeiro
Passeio Turístico-Gastronómico - 18 de Junho de 2014
O Grupo 5.com(e) escolheu esta data para se deslocar a Guimarães, berço da nossa nacionalidade, após renhida disputa com outras graciosas terras portuguesas. Em boa hora escolhemos Guimarães.
O dia estava maravilhoso, a antever um verão quente, que aguarda confirmação. Não houve concentração, como de costume, mas antes uma recolha ao domicílio, que o Bernardino, o motorista de serviço neste dia, iniciou com todo o garbo, fardado a preceito com o seu característico boné. O primeiro a ser apanhado (literalmente) foi o Alexandre, que ao descer à rua deu de caras com o Bernardino com o “kodac” na mão, iniciando aí a sua habitual reportagem fotográfica. Dali seguimos para casa do Rogério,
que já nos esperava à porta. Seguimos a apanhar o Jorge, até que finalmente fizemos a última paragem em Gaia. O Mota já estava à porta, impaciente como de costume, brindando o resto do grupo com um “já estais atrasados”, esquecendo que o horário de partida foi escrupulosamente cumprido, como sempre, mas o serviço de “recolha de clientes ao domicílio” demora necessariamente o seu tempo.
(Dê um clique nas fotos para as visualizar melhor)
Bernardino - um verdadeiro cavalheiro
Logo no primeiro semáforo, ainda em plena cidade de Gaia, ao entrar na Rua Sá da Bandeira, surge um semáforo com o sinal verde. Mas o Bernardino, verdadeiro cavalheiro, vendo no passeio três senhoras com vontade de atravessar rapidamente a rua, instintivamente cedeu-lhes a prioridade. Para calar as más-línguas, que nestes casos e com este cavalheiro costumam ser viperinas, deve esclarecer-se que se tratava de senhoras sem especiais predicados, incapazes de fazer soltar um assobio a um trolha em cima de uma prancha.  

Paragem na área de serviço de S. Tirso
A primeira paragem foi na área de serviço de Santo Tirso para tomar café. Secretamente, esperávamos voltar a encontrar as “clientes especiais” com quem nos deparamos na última passagem por esta área de serviço, transformada em local de engate ou, pelo menos, ponto de encontro para viagens à margem da auto-estrada. Nem sombras. Será que até este negócio entrou em declínio?

Guimarães
Guimarães, o berço da nossa nacionalidade, é uma belíssima cidade, cada vez mais procurada por estrangeiro ávidos de história, belas paisagens, boa gastronomia, preços convidativos e espaços citadinos com vida. Guimarães tem tudo isso para oferecer. É certo que o dia estava convidativo, a cheirar a verão, mas com uma temperatura agradabilíssima nos locais com sombras, em que a cidade é pródiga.
Guimarães tem um rosto, que é o seu vetusto castelo; tem um pulmão comercial que é o Largo doToural; tem um cofre onde guarda os seus tesouros, que é o palácio dos Duques de Bragança, a par de algumas caixinhas cheias de preciosidades como o museu Alberto Sampaio ou a igreja de S. Gualter. E tem na Penha uma ímpar sala de visitas. Mas o verdadeiro coração da cidade, onde pulsa a sua alma com um vigor que poucos igualam (para quem pensa que fora de Lisboa só existe paisagem) é o largo da Senhora da Oliveira.
Às onze horas e trinta minutos de uma quarta-feira encontramos o largo a fervilhar de vida, com as esplanadas cheias de gente, com ar calmo, de quem desfruta o que de bom a vida tem para oferecer.
(Continua...)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Quando os filhos partem...

Agora que estou aposentado e com mais disponibilidade de tempo para partilhar com os meus filhos é quando eles, seguindo o seu percurso natural de vida, “abandonaram” o lar paterno para construírem o seu próprio ninho.
Em consequência, sobra-me o tempo para fazer balanços e reflexões sobre tudo e mais alguma coisa, nomeadamente o meu papel de pai.
Não tenho como saber se aquilo que eles são hoje é o resultado do nosso bom desempenho enquanto pais, se são o que são exclusivamente pelo seu trabalho e esforço ou pelo conjunto de todos esses factores conjugados com a informação genética contida no seu ADN. Mas isto também é o menos importante.
Um dos aspectos que mais me tocam particularmente é a minha necessidade permanente de os proteger. Mesmo agora que já são adultos, saudáveis, competentes, trabalhadores e autónomos dou comigo a pensar que tenho de continuar a protege-los, mesmo sabendo que é impossível proteger alguém para sempre, sobretudo quando esse alguém não quer ser protegido.
Esta pulsão é independente da minha vontade pois bem sei (em teoria) que a dependência tem sempre custos e que podem ser demasiado elevados para ambos os lados:
- Para quem protege, quando a responsabilidade pesa... na sua própria incapacidade. 
- Para quem é protegido, porque deixa por vezes de ter capacidade de definir livremente o seu próprio caminho e principalmente de ter oportunidade de aprender com os tombos naturais que se vão dando no processo de aprendizagem a caminhar sozinho.
Por tudo isso tenho de lutar comigo próprio para os deixar ir e estar livremente. Tenho consciência disso mas… não consigo deixar de continuar a ser cuidadoso com eles, procurando gerar-lhes a confiança necessária para serem sempre e em qualquer circunstância eles próprios, felizes e... autónomos.
É assim nesta relação diária e permanente entre pais e filhos que devia ser sempre. Um envolvimento permanente mas distanciado e não intrusivo.
Se não o conseguirmos fazer é porque também não temos a capacidade de nos protegermos de nós próprios e de não nos aceitarmos sem a presença deles. E, sobretudo, sem a necessidade de nos sentirmos necessários a quem já não necessita de nós. É complicado, não é?
O processo natural é (ou seria), portanto, aceitarmos que eles (os nossos filhos) vão aprendendo a proteger-se por si. Quer queiramos quer não a nossa protecção vai desaparecendo à medida que eles crescem, de modo que a nossa única opção é aceitar e ir tentando ensiná-los (na idade e nos momentos próprios) a protegerem-se e transmitir-lhes a ideia de que os erros fazem parte de nós, fazem-nos até mais humanos e ajudam-nos a crescer. Que devem ter sempre esperança num futuro melhor, e – sobretudo - de que o amor é a principal razão pela qual nos devemos manter bem vivos e atentos.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Passadiço, não quero ser teu prisioneiro...

Da minha necessidade de te percorrer todos os dias, persiste, por vezes, a disparidade imensa que existe entre nós e que nenhuma vontade (ou atitude) é suficiente para alterar. 
O tempo, sempre o tempo, vai-se fazendo na distância que percorro em ti… suspenso neste movimento cadenciado, constante e permanente sempre em transparência de mim para mim e de travessa em travessa. Ao mesmo tempo que absorvo a brisa que vem do mar vou mudando na distância que o tempo me permite num esforço e ardor cada vez maior…
Por isso te digo, passadiço: Não quero ser teu prisioneiro, nem da minha idade e muito menos do tempo, ouviste bem?
Provavelmente irei insistir nestes devaneios estéreis e neste piso escorregadio e fastidioso da minha vida modesta ao mesmo tempo que percorrerei em ti tempos e distâncias, ao mesmo tempo que continuarei a tentar afastar os meus fantasmas…
Sem ter certezas de nada que a vida me venha a dar ou a tirar, rasgarei as minhas dúvidas, cortando as amarras e o vento, procurando ser sempre eu e fugindo do pensamento que me diz que continuarei a ser sempre o espelho do que jamais serei…

terça-feira, 17 de junho de 2014

Olá, Guardador de Rebanhos

"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"
"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"
"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."
"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."


Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa)

sábado, 14 de junho de 2014

Vila Flor, a terra que me acolheu...

Embora não sendo natural de Vila Flor é desta Vila que eu me sinto natural. De facto, poucos anos vivi na pequena aldeia onde nasci no Concelho de Carrazeda de Ansiães. A terra que me acolheu foi Vila Flor. Aí vivi o resto da infância, toda a adolescência e os primeiros anos já adulto. Depois saí para estudar e cumprir o serviço militar. Entretanto regressei e aí vivi anos a fio de forma feliz e tranquila rodeado das pessoas que mais amava e dos amigos mais próximos. Os meus dias, meses e anos foram aí passados entre o Bairro da Serração, o Largo da Fonte Romana, a Portela, o Rossio, a Praça e a Avenida.
Em meados da década de 90, por imperativos da vida e de índole familiar vim viver para Valadares, Vila Nova de Gaia. O desmame da Vila foi lento e às vezes doloroso. Actualmente ainda dou por mim a ter saudades e mesmo a pensar em regressar.
De facto, a região onde vivo, que nessa época era calma e tranquila, com pinhais fantásticos, pequenos riachos e locais aprazíveis à beira-mar, está agora transformada numa mistura de cimento, betão e alcatrão. Pelo meio os centros comerciais.
É natural portanto, tendo em conta a minha situação de recém-aposentado, que me sinta por vezes afectado por recordações e nostalgias por essa Vila onde fui tão feliz.
Mas… infelizmente quando lá vou fico sempre muito triste por constactar que não encontro ninguém. A desertificação foi quase absoluta. Pelo menos dos meus amigos de infância e da adolescência. E penso neles que, sabe-se lá onde, estarão, tal como eu, acantonados e empilhados em dormitórios deprimentes ou luxuosos, mas que partilham esta visão paranoide que invadiu a nossa sociedade.

Por tudo isso sinto-me dividido entre a tristeza de ver Vila Flor cada vez mais vazia de vida e triste, e Valadares cada vez mais cheia de gente e igualmente triste.
A vontade de voltar um dia para Vila Flor já foi maior. As relações humanas (mesmo as familiares) mudaram. Os problemas surgiram e aumentaram exponencialmente. Hoje em dia já não se convive na Praça, na Avenida ou na Fonte Romana. As pessoas sumiram-se para outros espaços e acantonaram-se... tentando sobreviver. 
É raro lá ir mas quando vou... chegam e ficam as saudades. 
Nem imaginam as saudades que eu tenho das pessoas e dos cheiros que já só guardo na memória. Das frutas, dos aromas do entardecer de cada uma das estações, dos cheiros intensos e da existência do dia-a-dia. Já nada disso existe.

Com as novas tecnologias é possível, hoje em dia, aproximar (virtualmente) alguns dos amigos que estão longe. Por outro lado têm o grande defeito de afastar (realmente) aqueles que estão mais próximos e que não têm culpa nenhuma destes nossos dilemas e lutas interiores. 

E... sendo interiores, não podem ser totalmente aqui expostas...

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Rosas que inebriam e vozes que encantam...

Sintamos a natureza, as coisas simples da vida e duas lindas vozes a entrar dentro de nós e, seguramente, sentiremos os seus benefícios no nosso estado de alma...


segunda-feira, 9 de junho de 2014

As lombrigas de Zeferino...

No meu primeiro ano de trabalho, no laboratório de Ciências da Escola Secundária de Monção, fiz uma experiência com os meus alunos do 8º ano: colocámos três lombrigas em três tubos de ensaio separados. A primeira lombriga em álcool, a segunda em fumo de cigarro, a terceira em terra natural. 
No dia seguinte, os alunos analisaram o resultado: a primeira lombriga, em álcool, estava morta; a segunda, no fumo do cigarro, estava morta; a terceira, em terra natural, estava viva. 
E fiz a seguinte pergunta à turma: 
- O que podemos aprender desta experiência? 
Responde imediatamente o Zeferino: 
- Temos de beber e fumar em abundância para não termos lombrigas!

sábado, 7 de junho de 2014

Habría que saberlo - Patxi Andion

Naqueles momentos em que nos sentimos com menos energia anímica convém ouvir esta fantástica canção de intervenção, deixar que nos acerte no “alvo” e preencha a alma.
Depois é só afagar a barba, o bigode, o nariz, ou o que estiver mais à mão e ouvirmos esta melodia, se possível de olhos fechados.
A memória encarregar-se-á de nos trazer aquela frase batida dos anos 70: "Habría que saberlo ..."! 
É bom recordar também o que disse um dia Ary dos Santos acerca das canções de Patxi Andion: "Ao ouvi-las é impossível dissociarmo-nos da imagem do homem novo ibérico que, com os pés assentes na terra e os olhos virados à esperança, canta, sem dó nem piedade, o seu próprio destino".
Ele foi uma das grandes referências da minha juventude. Quer como músico quer pelo seu exemplo enquanto cidadão livre e sempre pronto a lutar por causas.



quinta-feira, 5 de junho de 2014

“Malévola”, a versão moderna do filme “A Bela Adormecida”...

No Domingo passado perdi mais uma missa! O padre (qual Tribunal Constitucional) vai com certeza aplicar-me uma penitência qualquer! 
A Barbra Streisand é outra música e também muito bárbara, no bom sentido. O seu timbre de voz sempre me fascinou. 
Mas não resisto ao tema das missas do primeiro parágrafo, porque, lá diz o povo, na sua sabedoria, que “missa e pimento, são fraco alimento”. Sou pouco de missas, mas já de pimentos gosto deles assados com batatas e sardinhas, por exemplo. Missa para mim, nem mesmo breve. Só lá vou mesmo em cerimónias que tenho o dever ou a obrigação de assistir.
Mas há muita “gente” para missas. Por exemplo penso que o governo, antes de apresentar um orçamento, podia ir à missa, enfim mal não lhe fazia, talvez ajudasse pedir ajuda divina, pois com tanto chumbo no lastro governativo é difícil manter-se à tona de água. E o chumbo, tal como o mercúrio, faz mal à saúde. O Tribunal Constitucional deve ser o seu maior pesadelo.
Ah!!! Lá está! Vislumbro lá longe outro que gosta de missas. O Durão que de Bruxelas ainda manda uns "bitaites" a Portugal que nem o nosso saudoso brigantino Hernâni Gonçalves desdenharia. Mas isto não lhe anda a correr lá muito bem, belisca-lhe a sua imagem. Talvez ajude ir à missa, mas não pode ser uma missa breve, tem de ser longa e com todos os sacramentos, para que lá do Altíssimo, surja uma lufada de ar fresco ou uma mudança de ares, que ele queria que fosse para o Palácio de Belém. 
Por falar em Palácio de Belém. Quem também anda num "sono" profundo é o "paspalho". Quando digo "paspalho" poderia dizer Presidente da República que anda mais entretido nas selfies com os jogadores da selecção nacional e a condecorar uns "amiguitos" da política e da banca, em vez de fazer o que a sua função exigiria que é o de "cumprir e fazer cumprir" a Constituição da República Portuguesa.  Enquanto assim dorme, qual Angelina Jolie, que faz de bruxa em “Malévola” na versão moderna do filme A Bela Adormecida, vai sonhando que a chumbaria deixe de soprar pelos canos de caçadeira dos acórdãos do Tribunal Constitucional, como quem abate Coelhos a saltar no monte, ali para os lados das Capelinhas de Vila Flor, no caminho antigo para Roios. Do sono profundo passa a pesadelo e é quando se dá conta de que os juízes tomaram-lhe o gosto e agora, quando sai um orçamento, carregam chumbo grosso e entoam assim, em voz de cântico de igreja: um coelho, dois coelhos, três coelhos a saltar, um é meu, o outro é teu, e no terceiro vamos atirar e… bumm... já está, lá foi mais um! E, tal como no filme, é neste preciso momento que o paspalho acorda.

Com este já são oito, que grande caçada! Diria o meu avô Alfredo que era um excelente caçador.
E agora o que resta ao governo? 
Bem, virar Costa(s) é perigoso, melhor será jogar pelo Seguro, daí a “boca” do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa quando antevê o Portas de bigode, barba e óculos escuros a votar no Seguro como simpatizante do PS, nas “eleições abertas”. 

A política tem piada! Pelo menos de vez em quando. Ou quando não podem cortar nas nossas reformas nem no vencimento dos funcionários públicos.

Mas... regressemos ao segundo parágrafo, mais concretamente à música e ouçamos a Barbra Streisand, em Woman in Love. Ela não tem nada a ver com isto mas é bem melhor e bem mais relaxante. 
Pessoalmente bem preciso de a ouvir antes de ir, mais logo, ao urologista :-(


terça-feira, 3 de junho de 2014

Resumo de uma viagem terapêutica...

Aqui neste espaço medieval que nos envolve sinto o teu cheiro, aquele cheiro que me recorda o ano de 1978, mesmo antes de te ver bem de frente.
Com os raios de sol a baterem nos telhados das casas de xisto, abrilhantando em simultâneo a tua existência com essa temperatura aprazível do fim do mês de Maio, a minha imaginação devaneia pelas lembranças dos nossos primeiros encontros. Consigo reviver cada expressão do teu olhar e cada sorriso que transmitias nesse tempo e que despertava em mim sentimentos de pertença e de bem-estar até aí nunca alcançados. Junto a ti, consegui sentir o “cheiro” da felicidade e a alegria aqui tão perto de mim. A mágoa afastava-se ao mesmo tempo que me aproximava de ti naqueles momentos que passámos no Café Galeto, no Snack bar Mira Espanha e na Praça Deu-la-Deu Martins, em Monção.

Aqui, nestes dias passados à descoberta da natureza no interior das Serras do Açor e da Lousã, ao mesmo tempo que percorremos as pedras de xisto das aldeias de Piódão e do Talasnal, o tédio e a pasmaceira dos dias de chuva e de vento desta Primavera longa e triste de 2014 parecem ir desaparecendo de dentro de mim, pedindo para sair e viajar para esses dias amenos e já distantes de Novembro de 1978.
Voando assim no espaço e no tempo lembrei-me dos nossos planos, das promessas, das ilusões e do riso fácil e espontâneo que ambos exibíamos. Lembrei-me dos momentos de perfeição, aqueles que eram só nossos. Lembrei-me da viagem a Lisboa em Fevereiro de 1979 onde nos perdemos e achámos um no outro.
Nesta viagem feita ao passado, deixei-me “ir” sem pensar nos males do presente. 

E… ao som do bater da minha respiração, interiorizei a perfeição da nossa relação e a forma como nos completamos um ao outro.

domingo, 1 de junho de 2014

Piódão - o Tesouro que o Açor guarda...

Percorrer a Serra do Açor e deixarmo-nos encantar pelo aspecto majestoso e pela pureza da paisagem é deixar que a paz e a tranquilidade invadam a nossa alma.
Foi isso que fizemos nos últimos dias do mês de Maio de 2014 e que, provavelmente, já deveríamos ter feito há mais tempo para nada ficarmos a dever a nós próprios e a este maravilhoso País que é o nosso.
Descobrir esta aldeia escondida naquele espaço geográfico e algures perdida num outro tempo em que a arquitectura se adaptou harmoniosamente a um meio desabrigado, desprotegido e longe de tudo e de todos foi uma das melhores experiências de lazer que tivemos a oportunidade de usufruir e desfrutar ultimamente.

Deixo aqui uma pequena amostra. Deve clicar na imagem para a ampliar e ver melhor.
     

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Reflexões matutinas…

Hoje de manhã (mas não muito cedo) estava a fazer a barba e enquanto me olhava ao espelho - com todo o cuidado para não me cortar - dei comigo a pensar na “porca” da vida.
E pensava: desde há uns meses que acordo dorido dos diferentes músculos do corpo (diz a Amélia que essas dores são provocadas pela Sinvastatina que ando a tomar para baixar os valores do colesterol) e angustiado com este mal-estar causado por otites permanentes aqui neste ouvido esquerdo que também tem a membrana do tímpano perfurada. Enfim… chateado com a vida e ainda por cima agastado com este meu mau feitio que frequentemente me provoca insónias. 
E continuei a pensar: como se muda tanto com o tempo! Hoje pensa-se duma forma e amanhã de outra. Mas, caramba, não temos que ser amorfos e neutros. Não temos que ser (ou parecer) velhos e ainda por cima parvos. Ou que, pelo menos, não o sejamos enquanto ainda conscientes.
Tudo “isto” a propósito das eleições que decorreram no último Domingo e da minha posição inicial que era a de votar em X, anulando o meu voto. Não resisti, mudei de opinião e tive de votar em consciência com os meus princípios.
Mas aquilo que mais me incomodava, hoje de manhã, ao fazer a barba, não era só isso. Era sobretudo ao pensar na opinião hipócrita e contraditória da maioria dos “nossos” políticos ao analisarem os resultados.
Os políticos dos partidos da coligação do nosso descontentamento lá vão singrando e sangrando desta derrota que interpretam quase como uma das suas conquistas.
Oh valha-me Deus! Então não perderam as eleições!?
Os políticos do Partido Socialista nomeadamente o seu Secretário-geral, António José Seguro, vêm afirmar - com toda a convicção - que os 31% de votos que o PS obteve lhes confere uma retumbante vitória.
Ao ouvir isto chego à conclusão que vou ter de reaprender Português pois pelos vistos não sei o significado de algumas palavras.
Então não foram apenas quatro pontos percentuais de diferença para esta coligação que nos tem (des)governado?
E depois temos a esquerda que está estilhaçada. Constata-se mais uma vez a sua fragmentação e, sobretudo, a queda do Bloco de Esquerda. Que me entristece. Felizmente conseguiram manter Marisa Matias, uma excelente deputada, presumo.
Gostei no entanto do resultado do PCP. Merecido, pela combatividade, pela genuinidade, pela coerência.
Quem ganhou foi a abstenção.
Isso revolta-me porque Passos e Portas conseguem (mesmo perdendo) levar a água ao seu moinho porque há muita gente que vai (ou foi) na cantiga. Isto pode ser uma visão simplista porque é um facto que o Partido Socialista não é alternativa nenhuma. Ficou demonstrado.
Olha-se para aquele António José Seguro e percebe-se porque ficamos inSeguros.

E pronto. Acabo de me barbear e de pensar furiosamente. Mas que fico a  sofrer e a remoer com o rescaldo destas tristes eleições, lá isso fico... 

terça-feira, 20 de maio de 2014

Hitler reage à venda dos Mirós


Descobri este vídeo no youtube. 
É uma bela caricatura da situação política que se vive actualmente em Portugal. Por isso resolvi "surripiá-lo" e postá-lo aqui, sobretudo porque demonstra que (apesar de se dizer que vivemos em democracia e num estado de direito) o governo age, em determinadas situações, de forma idêntica a uma ditadura. Ou, no mínimo, aplica o: "eu quero, posso e mando", independentemente do que diz a lei e a Constituição da República.
De facto, e apesar do governo português saber que cometeu uma ilegalidade ao autorizar a saída dos 85 quadros Miró sem a permissão da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), entidade competente nessa matéria, continua a querer levar em diante essa mesma ilegalidade.

sábado, 17 de maio de 2014

A idade, o tempo e a vida...

Parece-me que ainda o outro dia olhava para os meus pais sem me preocupar minimamente com a idade deles. Pareciam-me eternos. Vivia a fase em que, quando me perguntavam quantos anos tinha me apetecia sempre acrescentar um ou dois anos à idade real. Ou então, sem mentir, dizia: tenho quase 12, ou tenho quase 14 anos. E fazia-o com a facilidade de quem tinha pressa de ser adulto, convencido de que, com uma simples data, adquiria (por decreto) um estatuto superior… ou um nível acima. Que afinal me ocuparia tantos anos a subir, pensava eu.
De repente, tirei a carta de condução, tirei o meu curso, cumpri o serviço militar obrigatório, comecei a trabalhar, casei e fui pai de dois maravilhosos filhos.
Simultaneamente, passei a assumir com naturalidade, mas com mais cautela, a minha idade real… mas agora querendo fazê-la durar todo o tempo a que sentia ter direito e sem pressas.
Depois passei rapidamente por aquela idade em que ainda tinha o privilégio de olhar para cima  e ver o meu pai vivo mas a necessitar de uma atenção especial devido à sua doença e à sua idade… e para baixo, para os meus filhos que tendo já entrado na sua idade adulta não deixaram de me trazer as naturais preocupações de um pai sempre presente. Foi aquela idade em que me senti entalado e a correr entre os filhos e os pais, na ânsia de chegar e de estar para todos com a mesma intensidade.
Foi talvez a idade mais difícil para mim, aquela em que ajudamos uns a crescer e outros a morrer... 
Este balanço entre duas realidades tão opostas deveria remeter-nos para a brevidade da nossa existência e relativizar as nossas prioridades.
Sempre ouvi dizer que: “quem de novo não morre de velho não escapa”! Mas… caramba, não gosto mesmo nada de me ver a envelhecer e não aprovo nada a ideia de morrer já. Que dilema! 
Depois vem este chato do José Saramago no seu livro "As Intermitências da Morte", que tentei ler até ao fim mas, mais uma vez, não consegui. Mesmo assim ainda deu para me aperceber que ele vai divagando sobre a morte, a vida, o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência. Para ele (e neste aspecto concordo) a morte é não só uma inevitabilidade da vida como irrevogável, a bem do equilíbrio. Aqui o termo irrevogável não tem nada a ver com o conceito trazido por Paulo Portas :-).

Cheguei assim a este ponto da minha idade em que passei a considerar que o ideal seria viver cada dia como se fosse o último e com a convicção de que não teremos o dia seguinte para corrigirmos o que hoje fizermos de errado. Até por que a idade (como alguém disse) é: “algo tão fugaz na vida de cada um de nós que o melhor é chamar-lhe presente e acreditar que tem a duração do instante que passa…”

terça-feira, 13 de maio de 2014

A balança que falava…

Nota introdutória: 
Hoje reproduzo aqui uma velha estória que me foi narrada no início da década de 70 pelo meu primo Alexandre, filho do meu Tio/Avô Marcelino, que veio, ainda na sua juventude, viver e trabalhar para a cidade do Porto.

Ele contou-me que havia uma Farmácia - a Farmácia Estácio - que ficava mesmo ao lado do 
Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e que era famosa, naquela época, sobretudo por ter uma balança que falava e que, rapidamente, se tornou um ex-libris da baixa portuense, chegando mesmo a formar-se filas de pessoas à sua porta.
Dizia-me ele com todo o entusiasmo: “Ainda me recordo da primeira vez em que me fui lá pesar! Foi um momento fantástico… depois de esperar a minha vez na fila, subi para a sua base redonda, o ponteiro movimentou-se no mostrador apontando para o meu peso e, ao mesmo tempo, uma voz metálica saiu da balança, informando: Vossa Excelência pesa 64 quilos e 700 gramas"!...
E continuou: “Tu imaginas lá!!!… naquela altura... deixa cá ver... decorria o Mundial em que o Eusébio marcou 4 dos cinco golos à Coreia, pois... foi em 1966 e, naturalmente, ainda não estávamos habituados a estas novas tecnologias e muito pouca gente sabia explicar este fenómeno! Pessoalmente, só percebi a “coisa” mais tarde quando o Porfírio, que fazia a manutenção da balança falante, me explicou o seu funcionamento. A balança, colocada na entrada da farmácia, nunca mudava de lugar. Nem podia!... Estava presa ao chão por parafusos. E na cave, precisamente por baixo da balança, havia um balcão de madeira sobre o qual se encontrava outro mostrador ligado por um veio ao tecto... precisamente à base (ou prato) da balança que estava na loja! Esse balcão era o local de trabalho da Srª Hermínia, a funcionária que empacotava comprimidos e rotulava xaropes, enquanto esperava que um cliente se fosse pesar. Quando tal sucedia, o mostrador da cave apontava o mesmo peso que o cliente comprovava visualmente, ao mesmo tempo que acendia uma lâmpada vermelha, chamando a atenção da funcionária. Esta, tinha um microfone e um botão para o ligar ao mesmo tempo que dizia o peso que via no mostrador que tinha à sua frente, e que o cliente ouvia na saída do som por detrás do painel do ponteiro!
O meu primo concluiu, deixando-me um pequeno aviso: “Quando fores lá experimentar e se a balança te parecer avariada... se, por exemplo, te mostrar o peso, mas não falar, não te preocupes. Isso acontece normalmente quando a funcionária da cave foi fazer as suas necessidades fisiológicas... fazer xixi… ou...  eh eh eh eh!!!”   

Nota final: 
Em 1975, um incêndio de grandes proporções na Rua Sá da Bandeira, atingiu a Farmácia Estácio e destruiu grande parte do seu interior, incluindo a célebre balança. 

sábado, 3 de maio de 2014

A mula Berta...

Era uma mula velha e mansa, com umas enormes pestanas, que o meu avô Alfredo se lembrou de baptizar de “Berta”. Era o resultado de um cruzamento (portanto filha) de um jumento do meu tio/avô Marcelino e da égua do Senhor Simplício.
Desde as minhas primeiras lembranças da minha infância a Berta esteve sempre presente. Recordo os dias em que acompanhava o meu avô que a levava ao lameiro nos “Cerejais” lá longe na aldeia onde nasci, em Pinhal do Douro.
Num belo dia do verão de 1959, ainda não tinha completado seis anos de vida, atrevi-me a ir, sozinho visitar a Berta a esse lameiro. Interrompi a sua refeição, peguei nas rédeas e encostei-a a um muro de pedras soltas mais ou menos da sua altura e, qual cavaleiro experimentado, saltei para o seu dorso de pelo liso, suave e brilhante. Quando bati com os meus pés no sua barriga larga e escorregadia ela acelerou de repente o seu passo de forma tão surpreendente que, quando dei por mim, estava no chão a rebolar na erva macia mas que não impediu que eu me sentisse durante alguns momentos com uma grande falta de ar.
Este episódio aparentemente negativo não impediu novas e excitantes experiências deste género. Pelo contrário, serviu-me de motivação e deu-me um sentido de superação que passou a fazer parte das nossas tardes, talvez durante três semanas, não mais. E quando digo nós, englobo também os meus primos. O Toninho, filho da minha segunda prima Adozinda, que montava o macho da família que levava para um lameiro limítrofe ao nosso lá nos cerejais. E também o meu primo Acácio que levava um cavalo já idoso, mas muito grande e elegante, que era da sua avó.  Mas três semanas, naquela altura, naquela idade, naquele verão, era imenso tempo.
Um dia, no balanço diário que normalmente se fazia ao jantar lá em casa, acabei por referir, embora meio excitado por me atrever a contá-lo, que: “dei uma queda da Berta, nos Cerejais”. Tive receio de que o meu avô me viesse a proibir de voltar a montar a Berta. Mas ele sorriu, achou graça à minha imaginação e coragem e incentivou-me a voltar a fazê-lo com a condição de que até ao fim desse verão seria eu a levar a Berta para o lameiro. 
Tornou-se assim habitual ao jantar toda a família perguntar-me: “e a Berta, hoje que tal se portou?”, e eu lá ia contando os últimos episódios. E depois eles entreolhavam-se, sorrindo. E lá fui desembrulhando a história, todos os dias um pouco. E todos os dias eles ficavam a saber um pouco mais da mula Berta. Sabiam que nas corridas com o macho montado pelo Toninho e com o cavalo montado pelo Acácio, a Berta não gostava nada de perder e para não ficar atrás levava-me a velocidades que me pareciam supersónicas por caminhos de terra batida até à Fonte de Baixo que era por nós considerada a meta final.
Naquele verão, todas as tardes lá íamos buscar a mula Berta, o macho e o cavalo dos meus primos, e com eles passávamos aquelas horas que se estendiam até à hora da ceia. 
A Berta seguia-me, já naturalmente, dando as mesmas voltas, ficando-se quieta e tranquila quando nós nos sentávamos em algum dos muros do caminho, seguindo as nossas brincadeiras com os seus olhos e pestanas enormes, e por ali ficava no ócio connosco, com aquele olhar meigo, tendo-nos como companheiros. 
Depois vinha a noite, e por obrigação lá a ia deixar na loja, já com saudades, inquieto pelo dia seguinte.
Uma noite viram-me tristonho, e já na sobremesa questionaram-me. “Foi a Berta dizia-lhes, já lá não está. Tenho medo que tenha morrido”. E eles entreolharam-se, inquietos e um deles disse-me: “deixa estar, olha porque não passas a brincar com o Farrusco (que era o cão de caça do meu avô) vais ver que é um belo bicho”. Nunca mais voltei a ver a Berta, aquela mula velha e meiga, e as conversas ao serão acabaram por deixar de a trazer e eu de perguntar por ela pois fiquei magoado quando soube que o meu avô a tinha vendido a um cigano que vivia no Vilarinho da Castanheira.

Ainda hoje me lembro dos seus olhos tristonhos, aquelas pestanas enormes, a mansidão com que me matava as horas da tarde. E ouvia os meus pais contarem aos amigos, ou aos meus tios, do entusiasmo com que eu durante dias a fio, trouxe a Berta para as conversas do jantar. 

Nunca os contradisse, nem mesmo em adulto. Afinal, que importância teria?

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Donos de Portugal

Donos de Portugal é um pequeno vídeo baseado no livro homónimo de Jorge Costa, Cecília Honório, Luís Fazenda, Francisco Louça e Fernando Rosas, editado em 2011 pela Afrontamento. 
O filme retrata a protecção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza.
Mello, Champalimaud, Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. 
Os novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base.