Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


domingo, 27 de abril de 2014

A felicidade (im)perfeita...

No Domingo passado fui um dos muitos portugueses benfiquistas que se associou aos festejos a propósito da conquista do galardão máximo do futebol nacional por parte do Sport Lisboa e Benfica.
Não deixei, no entanto, quando percorri a Avenida da Liberdade e, sobretudo, enquanto permaneci na Praça do Marquês de Pombal, de ficar perplexo com a enorme expressão atingida pelos festejos.
Reconheço que tais celebrações se enquadram dentro daquilo que é a maneira de ser e de estar dos povos latinos e provavelmente foram semelhantes ao que acontece nas vitórias desportivas de outros clubes, nomeadamente do Futebol Clube do Porto, que ultimamente o têm feito com mais regularidade na Avenida dos Aliados, no Porto.
Mas… lá está! Há sempre um "mas" em tudo aquilo que fazemos! Dei por mim a interrogar-me se, ao entrar e aderir a este tipo de manifestações populares, não estaria eu também (sem querer) a contribuir para o aproveitamento político que este Governo iria fazer de tudo isto, desviando a atenção dos reais problemas que efectivamente preocupam, e com toda a razão, os portugueses em geral, numa lógica em tudo idêntica à que era feita no tempo da ditadura, em que se usavam os tais três efes (Fátima, futebol e fado) para anestesiar e alienar o povo.

Acabei por serenar, cair em mim e pensar que hoje em dia o povo é mais alfabetizado e não se deixa manipular com a mesma facilidade de antigamente. Por outro lado, enquanto extravasava também a minha alegria e a manifestava dessa forma tão efusiva e invulgar, convenci-me de que estava apenas a desfrutar de um prazer da vida que também contribui para dar cor e sentido à minha condição de simples mortal.

E pronto! Dentro dos meus 60 anos dei por mim a gritar como uma criança e com a multidão: Benfica, Benfica, Benfica. O campeão voltou, o campeão voltou… 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de Abril – Dia da liberdade

Nesta liberdade descobri lugares
Livre de correntes e de receios
Abri a minha alma sem grandes anseios
No passadiço gritei ao mar e ao céu 
Senti-me pequeno, mas livre 
Caminhei e corri com vigor
Como alguém que procura o sonho
Senti o pulsar da minha alma
Senti o rasgar da pele
Senti em mim sangue novo

Voltei a ser eu!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Joan Baez, Diamonds and Rust - Live, 1975

Ao ouvir esta música sou levado no tempo que ficou lá longe há muitos anos atrás na lindíssima Vila de Monção. Aí, num pequeno quarto da Residencial que dava para a Praça Deu-la-Deu Martins, ouvia - sozinho - esta canção a pensar em ti, no quanto te queria e te amava e no quanto gostava da tua maneira séria de ser e de estar na vida.
Fecho os olhos, "viajo" para esse tempo e sinto bem presente as boas sensações ao ouvir cantar Joan Baez no velho reprodutor de cassetes (Hitashi) que o meu avô Alfredo me oferecera e que comprou no Grand Magasin Printemps, em Paris. 
Era uma das formas que eu utilizava para relaxar e... esquecer como o meu mundo e a minha vida nesse tempo eram débeis e inseguros.
Diamonds and Rust-Live é, para mim e sem qualquer dúvida, uma das melhores canções de todos os tempos e proporcionou-me momentos de grande prazer e de bem-estar só comparáveis aqueles em que estava contigo e tinha os meus lábios nos teus...



segunda-feira, 21 de abril de 2014

Acontecem coisas "estranhas" no dia em que me apetece dizer: Diga 33!

No dia-a-dia de cada um de nós acontecem coisas aparentemente estranhas que, por vezes, nos parecem normais de suceder. Nenhuma dessas coisas é igual a outra, mas quase nunca damos por elas, ou não as valorizamos de forma conveniente, porque provavelmente acontecem frequentemente. É isso que as torna iguais, apesar de diferentes. Ultimamente, não é tão raro assim, dar-me conta de pequenas coisas que me tocam profundamente sobretudo com pequenos rasgos de afecto que surgem do nada, assim como um viajante desconhecido que sai do comboio numa estação qualquer à procura de aventura.
Numa paragem de autocarro em Sto Amaro, Lisboa, muito próximo do Museu da Carris  e perto do Hotel Opera Vyla Galé, onde me encontrava hospedado, o céu assemelhava-se a uma cinzenta aguarela com nuvens de diversas formas e vários tons de cinza sobrepostos em diferentes camadas e deixava cair pequenas gotículas a que normalmente chamam de “chuva de molha-tolos”. De repente, uma mulher, vendo-me assim desprotegido e com a careca exposta encostou-se discretamente a mim e dividiu o seu guarda-chuva comigo. Ficou ali a segurá-lo, protegendo-me da morrinha que ia caindo, como se isso fosse a coisa mais normal deste mundo. Mas não era. A normalidade também depende da estatística e eu não via mais ninguém a dividir o guarda-chuva com um desconhecido qualquer. Esse dia foi ontem, 20 de Abril de 2014 – dia de Páscoa e deslocava-me para o estádio da Luz na expectativa de ver o Benfica sagrar-se Campeão nacional de futebol, em jogo a disputar com o Olhanense.
Ela não disse nada. Nem sequer uma palavra. Eu, no fim, só disse uma. Obrigado. Depois vi-a sair perto da estação de Campolide e continuei no autocarro a acompanhar o seu percurso enquanto ela se dirigia a passos largos para não perder o comboio, que se dirigia para o Sul. 
Peguei no bloco de notas e escrevi estas linhas para não me esquecer destes pormenores. Veio-me, entretanto, ao pensamento um acontecimento análogo que visionei na minha última viagem de comboio que fiz de Valadares para a estação de São Bento, no Porto. Depois de me sentar confortavelmente no meu lugar reparei que no banco da frente seguiam duas pessoas. Pareciam mesmo um casal. Ele dormia com a cabeça pousada no ombro dela, enquanto ela olhava pela janela como se analisasse ao pormenor uma pintura qualquer. 
Ela acabou por sair numa das paragens mais próximas, mais precisamente na estação das Devesas-Gaia. Não sem antes lhe ter afastado cuidadosamente a cabeça e pousado para trás, como se estivesse a mudar de sítio uma frágil peça de louça de porcelana. Depois levantou-se e saiu em silêncio enquanto ele lhe pediu desculpa, ainda estremunhado. Afinal não eram um casal. Não se conheciam de lado nenhum, mas ele adormecera no ombro dela e ela deixara-se estar ali, tão quieta como uma mãe leoa que protege a sua cria.
Acontecem coisas estranhas nos dias normais.
Normais? Interroguei-me.
Penso assim por ser dia de Páscoa? Ou porque o Benfica se sagrará provavelmente campeão nacional neste dia?
Mas, de facto, é um dia que também tem as 24 horas do costume. Portanto é um dia normal.
Uma das coisas mais estranhas que me acontece a mim é quase nunca dar pelas coisas estranhas que acontecem em dias normais.
Ou das coisas normais que acontecem em dias estranhos. 

Uma coisa é certa. Se eu fosse capaz de reparar todos os dias nas mulheres que têm a coragem de salvar o dia de um homem, tenho a certeza que os meus dias seriam diferentes. Mais estranhos e mais normais. Certamente melhores.

Nota: Este dia “normal” acabou bem e, estranhamente, dei por mim no Marquês de Pombal, em Lisboa, a celebrar o 33º título de campeão nacional de futebol que o Benfica acabara de conquistar .

Por tudo isso apetece-me dizer: diga 33!


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cá se vai andando...

A chuva deu tréguas e o sol começa a aquecer os nossos corpos. Umas corridinhas no passadiço, umas idas (escassas) ao cinema, fugas diárias ao hipermercado porque a casa ninguém traz nada, xadrez on line, manter o blogue activo, ler, ouvir música e tentar tenazmente não perder o contacto. Eis aqui, assim em síntese, o que tem sido a vida deste alegre cidadão, neste início de Primavera de 2014.
E... logo agora que podia dar asas à imaginação e martelar no teclado até os dedos sumirem na palma das mãos evaporaram-se todos os conteúdos que fervilhavam nesta "carola" ansiosos por se verem derramados no ecrã do monitor.

Resta-me "viajar" no tempo e relaxar ao som deste magnífico som até que a inspiração reapareça  :-)


terça-feira, 15 de abril de 2014

Pedro Abrunhosa - "Voámos Em Contramão" (Videoclip)


Este gajo é feio e parece que arrota em vez de cantar mas consegue cativar-nos pela música.

Eu gosto...

domingo, 13 de abril de 2014

O professor de Religião e Moral e a cor dos olhos da Natureza...

Externato de Santa Luzia, Vila Flor. Novembro de 1969.
Nesse dia chovia a cântaros e os alunos da turma A do (antigo) 5º ano viam-na cair, através das enormes janelas da sala de aulas situada do 2º piso do novo edifício, enquanto ouviam, distraidamente, o professor de Religião e Moral a discorrer sobre Deus. 
A páginas tantas ele quis que, todos nós, reflectíssemos sobre o tema. A mim, pessoalmente, não me apetecia nada falar de uma entidade tão abstracta. Apetecia-me pensar e discutir sobre coisas mais concretas como a fome, a guerra colonial ou a injustiça dos homens. Sobre a dor daqueles que sofrem. Sobre futebol. Sobre as diferenças entre a educação dos rapazes e das raparigas que nessa época ainda era muito acentuada, etc, etc.
De religião e de Deus não me apetecia falar. Pronto.
Mas - nem de propósito - o Professor, parecendo adivinhar os meus pensamentos, resolveu interrompe-los perguntando-me: - E tu, Bernardino, acreditas em Deus?
- Eu!? Respondi atarantado.
- Sim, tu mesmo.
- Para ser sincero não acredito- respondi agora com toda a convicção.
- Ai não!? Então como explicas a existência da terra, dos animais, das plantas, do céu e dos oceanos? Acreditas em quê, afinal?
- Acredito na natureza e na sua força para criar e transformar tudo isso - respondi simplesmente.
- Na natureza!? E quem criou a natureza?
- E quem criou Deus? – Retorqui já bastante nervoso
-Já que tens resposta para tudo, diz-me lá qual a cor dos olhos da natureza? - Perguntou-me o professor agora algo irritado mas com o seu sorriso mais irónico.
- Não sei! Mas talvez fique a saber quando o Sr. Padre me disser qual a cor dos olhos de Deus - respondi-lhe de pronto, enquanto ouvia as fortes gargalhadas dos meus colegas de turma.
Já não me recordo se, dessa vez, o professor me expulsou da sala de aulas. O que sei é que hoje, passados cerca de 45 anos após esta pequena discussão existencial, não tenho tantas “certezas” como tinha nessa época.       
O que me parece é que cada um à sua maneira o invoca ou o renega, de acordo com a sua imagem.
Muitas vezes, e perante determinados acontecimentos trágicos que se passam por perto penso que se Deus existisse tinha que ser muito grande, mas não do tamanho que os crentes imaginam que ele seja. Por outro lado, também penso que seria muito estranho que um ser tão grande, tão omnipresente e omnipotente, enfim, tão supremo, fosse tão facilmente perceptível por seres tão mesquinhos como os da nossa espécie. Desde logo por alguns daqueles que representam a própria Igreja.
Muitos falam em nome de Deus. Uns a favor, outros contra. Mas Deus não é futebol, nem política.
Felizmente, hoje em dia, somos tão livres que podemos ter opiniões tão discordantes. Tão "livres" que em alguns países existem fundamentalistas tão radicais que, em seu nome, matam, destroem e cometem as maiores atrocidades. Tão livres que muitos de nós vêm na nossa liberdade a prova da sua inexistência. Tão livres que muitos desejam um Deus que os apoie, principalmente quando se sentem comovidos por situações que os transcendem. Outros desejam um Deus que seja mais que um pai.
Para mim se Deus existisse não teria apenas o papel de perdoar e limpar os disparates e as crueldades que o Homem faz todos os dias em qualquer canto do globo terrestre.

Com toda a certeza que ele não daria a importância que qualquer um de nós imagina que ele daria a um texto como este. Acho que ele não estaria para aturar merdas destas...

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A Lua

Tenho dias em que ando na Lua  e... a Lua tem o direito de ter as suas fases!!!


sábado, 5 de abril de 2014

Desabafo num dia de chuva...

Hoje, dia 4 de Abril de 2014, choveu! De manhã, à tarde e à noite!
Qual a novidade? Tem sido assim o Inverno todo! E este início de Primavera também! Então, por que razão estou eu aqui a protestar, outra vez, contra a chuva? É uma boa pergunta à qual, por agora, não sei responder. Mas… que me apetece promover um movimento BASTA contra a chuva, tal como o presidente do Sporting fez contra os árbitros de futebol, lá isso apetece.
Enquanto assim penso, e me interrogo desta forma rabugenta, estou encostado à porta do escritório que dá acesso à varanda de onde vejo lá baixo na rua e no Largo de Eiróz os carros a passar com os limpa para-brisas a funcionar incessantemente a as pessoas a caminhar também elas apressadas debaixo dos guarda-chuvas e, provavelmente, regressando a casa depois de mais um dia de trabalho. Em certos locais da rua o asfalto torna-se mais irregular e formam-se pequenas poças de água que brilham com a luz artificial dos candeeiros.
Aqui permaneço, neste meu refúgio (ou porto de abrigo) que é o escritório cá de casa e que me serve também de farol luminoso para o exterior. Gosto de ver o movimento dos carros e das pessoas que se encaminham para os seus destinos certos. De ver também os reclames luminosos e coloridos de algumas casas comerciais; as luzes ainda acesas e a brilhar que anunciam a Cerâmica de Valadares, embora já falida e extinta; as gaivotas que se refugiam do mar bravo esvoaçando e pousando nos candeeiros mesmo em frente à varanda; a Lua em certas noites e as nuvens a fugir empurradas pelo vento.  
Quando era rapaz e vivia lá longe em Vila Flor também gostava de me refugiar na varanda da casa dos meus pais e, de forma similar, apreciar o movimento das pessoas na Rua e no Largo da Fonte. Nesse tempo, as pessoas que passavam, isoladas normalmente, pareciam-me indolentes, tristes e mal sorriam. As que passavam acompanhadas normalmente faziam-no em silêncio ou a discutir entre si. Eram pessoas que iam e vinham frequentemente dos campos dos arredores da Vila. Agricultores que levavam os animais, cavalos ou burros, carregados com cestos ou canastras devidamente colocadas nas albardas.
Hoje, recordo-me dessas pessoas que se deslocavam na rua da casa da minha juventude e que iam normalmente acabrunhados naquela rotina que me parecia trágica. As imagens vão desfilando e há inúmeras delas que sempre me acompanharam. As vozes e os rostos é que já se perderam, e tenho pena.
Por que “carga d´água” me lembrei delas?

Regressando ao presente. A Amélia aproxima-se e, vendo-me assim meditativo, encosta-se a mim e diz: - "Não te atormentes tanto. As coisas mudam e nem sempre isto será assim. Para a semana já vem o Sol."
Pois! A verdade é que me sinto realmente muito aborrecido. Com o tempo, com o São Pedro e com a Primavera que nunca mais chega. Com os nossos governantes e, sobretudo, com o seu discurso já gasto. De facto, as palavras destes políticos, agora, de tão debochadas e gastas, já nem sequer agitam nem estimulam a minha indignação. Porém, tenho de continuar a fazê-lo, quanto mais não seja através de palavras. Palavras que digo e que escrevo. Tenho de continuar a trabalhá-las, a proferi-las e a escrevê-las com firmeza e ânimo. Por muito que me custe sinto que tenho de o fazer pois acho que essa é uma das minhas obrigações cívicas.
Há muitos anos um dos meus filhos perguntou-me: "Ó pai, escrever custa muito?" E eu: -não dói nada, mas… custa, custa muito… mas, no fim, vale a pena quando conseguimos exprimir o nosso pensamento com as palavras certas. Agora certamente acrescentaria: não as palavras destes políticos “jotinhas” aldrabões, que as não respeitam e que as despejam com futilidade, ignorância e menosprezo.

Mas... hoje já não me apetece (mais) escrever sobre estes políticos manguelas que nunca fizeram nada de jeito na vida a não ser enganar, manipular e mentir. Eles enojam-me. Por isso viro-me para dentro de mim e para o interior do escritório. Olho para as estantes carregadas de livros, para uma ou outra fotografia e para as medalhas e taças que fui conquistando nos diferentes torneios de Xadrez em que participei e que ajudaram a marcar a minha vida e o meu destino. Reavivam-me também algumas memórias dos meus amigos mais antigos e companheiros de brincadeiras, de jogos, de causas e de lutas. Tantos que já foram. O que demonstra que estou a ficar velho. Sento-me na cadeira da secretária e escrevo. Penso… 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Idade...











A cada ano que passa, cada vez mais e melhor o compreendo meu caro amigo professor Agostinho da Silva!!!

terça-feira, 1 de abril de 2014

O "Mata-Frades" de Coimbra...

Quando fui estudar para Coimbra, na primeira metade da década de 70, fiquei instalado primeiro nas águas furtadas desta casa da Rua da Sota, nas traseiras do Hotel Astória.
Depois mudei-me, como também já aqui referi em posts anteriores, para o nº 9 da Rua Ferreira Borges.
Quer a Rua da Sota, quer a Rua Ferreira Borges, vão desembocar no Largo da Portagem. Este local foi, em consequência e nessa época, um dos meus pontos de referência da cidade.
Certo dia, enquanto tomava café e lia o Jornal "A Bola", na esplanada da Tabacaria da Portagem, um senhor já de muita idade e com "ar" de intelectual sentado na mesa mesmo ao lado da minha  meteu conversa comigo. 
A páginas tantas perguntou-me se eu sabia de quem era a estátua que se encontrava mesmo à nossa frente e bem no centro da Praça da Portagem.
Eu lá lhe respondi (por ter lido na placa respectiva) que era um monumento dedicado a Joaquim António de Aguiar.
- Pois! Mas quem foi Joaquim António de Aguiar? E sabes qual a razão por que lhe chamavam o Mata-Frades?
- Não, confesso que não sei. – lá lhe respondi já um pouco incomodado pelo interrogatório e, sobretudo, por ter de lhe expor a minha ignorância.
- Então eu vou dizer-te – respondeu ele com toda a convicção. E, durante a hora seguinte, lá discorreu sobre o célebre Mata-Frades e a sua importância para a história de Portugal ainda durante o tempo da Monarquia. Finalizou o seu discurso, que mais me pareceu uma aula de história, dizendo-me: - Repara bem na estátua... vê que ele tem na sua mão esquerda uma folha de papel e na sua mão direita uma pena. Não sabes para quê, pois não? Então eu digo-te: - Dizem que é para anotar os nomes das jovens estudantes que chegam a Coimbra virgens e saem de cá ainda virgens... e juro-te que ainda ninguém o viu mexer a sua mão direita! Eh, eh, eh.

Parece-me que ainda estou a ouvir  a sua sonora gargalhada quando acabou de contar esta história. E sorrio...

Nota 1: se derem um "clique" em cima de cada fotografia poderão ver melhor os seus pormenores.
Nota 2: Apesar de hoje ser o dia das mentiras (1 de Abril) a história é verdadeira :-)

domingo, 30 de março de 2014

Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (V)

Como vem sendo frequente - nem de propósito - estava numa mesa próxima um grupo de 5 (exactamente 5) jovens da nossa geração, com idades entre os 50 e os 55. 
Esclareça-se, porque a palavra “jovens” é ambígua, que se tratava de elementos do sexo feminino. Ficamos à distância estrategicamente conveniente: não demasiado próximos, para não nos inibir de falar à vontade; nem excessivamente longe para não se quebrar a corrente de interesse nem esbater o perfume do romantismo serôdio que nestas circunstâncias se estabelece. Pelo nosso traquejado faro concluímos que se tratava de um grupo de professoras. Provavelmente a conversa recaia sobre os testes a aplicar aos alunos ou sobre a má criação, tão em voga nos dias de hoje. Certamente já não se lembram das asneiras que faziam quando eram da idade deles. Ou falariam antes sobre as malfeitorias do governo, com alvo particular na vilipendiada classe dos professores?
Nisto aproximou-se alguém que tanto poderia ser o director da escola, como o homem das fotocópias. Mas a sua presença de pouco nos interessava, pelo que nem demos pela sua ausência, passado pouco tempo. Parece ter saído à sucapa, para não perturbar a nossa etérea contemplação.
O Bernardino ainda disse que noutros tempos não teria qualquer pejo em procurar uma aproximação, atrevendo-se temerariamente a meter conversa, confiante no sucesso da investida. Mas agora nem sequer ousou. Ficamo-nos por isso naquele tipo de conversa de velhos jarretas, como a raposa que, ao saber que não pode chegar às uvas, sabiamente limita-se a proferir o célebre: “não prestam. Estão verdes”.
Entretanto faziam-se horas para regressar a penates. Mas como o almoço tinha sido sóbrio e regrado, só o Rogério teve necessidade de procurar um “Toni” em Vale de Cambra, mas para uma visita rápida e descomprometida.

Adeus até ao meu regresso
Este grupo é mesmo muito organizado. Já está prometido e alinhavado com pormenores mais uma ida a Trás-os-Montes, logo que mude a hora. Quase só falta acertar a data. Mas mais, enquanto esse longínquo e ansiado dia não chega, não podemos perder tempo. Tratou-se já da próxima viagem, tendo-se mesmo fixado a data e seleccionado o local e a ementa: será em 7 de maio, novamente no Mira Freita, para voltarmos a saborear o cabrito serrano. Não é só pelo gosto de repetir: desejamos compartilhar estes inolvidáveis e saborosos momentos com as nossas consortes (com sorte), que sabemos estarem ansiosas por esse dia, há muito prometido e mais que por uma vez adiado.
“Uma vez sem exemplo”, ouvi eu no carro. E, como cronista fiel, não posso deixar de registar com precisão o que ouvi com estes que a terra há-de comer, mesmo que a expressão não traduza o verdadeiro sentimento de quem proferiu tão oportuna quão assertiva e assassina frase, embora sem lhe medir as consequências (obviamente, isto não pode sair daqui. Todos os cuidados são poucos e nestas coisas elas não perdoam).
Como não podia deixar de ser, o Mota ditou sábia sentença: “entretanto, e como o 7 de maio ainda vem longe, podemos no meio organizar um novo almoço só para nós, para desenferrujar a língua e não perder o ritmo” (a tradução é livre, pois a memória não registou a frase sic).
E sem mais nada de especial digno de registo acabamos por chegar a Valadares. Aí nos despedimos com um até já, já com saudades do futuro encontro no Mira Freita.

O secretário/cronista
Alexandre Ribeiro

Nota final: O vídeo já nem era necessário mas... "o prometido é devido"! Aqui fica, portanto. Vejam em ecrã inteiro para verem melhor.


sexta-feira, 28 de março de 2014

Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (IV)

Finalmente
Depois de uma descida até ao sopé da serra finalmente chegamos ao Mira Freita, em Felgueira, o ponto mais almejado desde a nossa saída, local onde iríamos confortar o estômago e proporcionar uma onda de requintados prazeres ao palato. Faltavam ainda 5 minutos para a hora marcada. O Mota programou a coisa com todo o rigor.
O restaurante é enorme, com espaço para quase 200 comensais, com amesendação simpática, a não merecer qualquer reparo. Como era meio da semana a afluência era escassa, deixando-nos à vontade para uma conversa descontraída, mesmo que porventura viesse a descambar para o desbragamento (o que obviamente não aconteceu, como é apanágio deste grupo).
Pelas bandeiras portuguesa e suíça ostentadas em frente ao edifício, que a brisa fazia ondular nos mastros em suaves movimentos, concluímos que o restaurante pertenceria a um português provavelmente ex-emigrante na Suíça que, soubemos, agora produzia vinho numa quinta em Sever do Vouga.
Comodamente instalados, passamos ao que interessa. Abrimos as hostilidades começando
por uns tradicionais rojões de porco conservados no pingue, à antiga (que deixaram o Mota a calcorrear com nostalgia os caminhos e sabores da infância) acolitados por saborosa morcela tradicional caseira.
Para melhor aconchego mandamos vir um verde tinto da “Quinta do Patrão”, leve e saboroso, servido em pequenas canecas, o que obrigou o empregado a ter de proceder ao reabastecimento vezes sucessivas.
E veio então o cabrito, servido em assadeira de barro, com honras de verdadeiro campeão, profusamente ladeado de folhas de louro. Um cabritinho daqueles que não enganam: carne tenríssima, nacos suculentos, assadura no ponto, tempero com sapidez milimétrica. A quantidade - 3 doses para 5 galfarros - foi exactamente quanto baste: deu para ficar plenamente satisfeito, embora se mais viesse não iria sobrar nada, com os inconvenientes que se conhecem. Como acompanhamento veio um arroz malandrinho de carqueja, com as flores
da dita a boiar à superfície. Em complemento ou alternativa havia legumes, batata cozida e nabos.
A lista de sobremesas, não sendo extensa, era suficiente. Quantidades generosas, sabor agradável. Para culminar esta refeição de príncipes da idade média, o serviço foi concluído com os inevitáveis cafés e umas reconfortantes aguardentes para os apreciadores.
A conta não ofereceu surpresas: 20 euros por bico, englobando já uma algo pífia gratificação ao garçon, sempre prestimoso, amável, discreto e eficiente.

Como "sobremesa" extra assistiu-se, na varanda voltada a sul, a um animadíssimo despique em matraquilhos, que opôs uma equipa mista Porto/Benfica (Rogério e Bernardino) aos declarados portistas Jorge e Alexandre. Depois de um robusto 5-1 na primeira partida, favorável aos portistas Jorge/Alexandre, os adversários acabaram por ganhar terreno, nas três restantes partidas, sempre renhidas e disputadas até ao fim, registando-se um empate e dois resultados tangenciais favoráveis à dupla mista Rogério/Bernardino.

Vale de Cambra
Terminado o repasto havia que queimar os últimos cartuchos, antes de regressar a casa.
O que é bom acaba sempre depressa. Para não falar em outros exemplos (porventura de sabor mais intenso e excitante), recordo apenas a saudade dos adeptos de Mary Quant, quando diziam o mesmo: “o que é bom acaba depressa. Por isso é que a moda da minissaia durou tão pouco tempo”.
Descemos, assim, até Vale de Cambra, calmamente, para não apressar o tempo.
Aí preenchemos o habitual euromilhões, sempre com a expectativa e a promessa de que a próxima viagem seja de helicóptero, para saborear de forma condigna o jackpot que um dia, fatalmente, se atravessará no nosso caminho.
Ficamos numa acolhedora esplanada a conversar um pouco, enquanto ajudávamos a digestão com as águas da praxe.
(Continua...)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (III)

Local das pedras parideiras
Avançamos talvez uns dois quilómetros, a caminho do local das famosas pedras parideiras, passando ao lado de uma pitoresca aldeia chamada Albergaria da Serra.
Mais para meter conversa que para pedir informação (a placa não deixava dúvidas), interpelamos um habitante local que nos apareceu ao caminho e que nos confirmou: Vão bem. As pedras parideiras são já ali. Mas nesta época não estão a parir nada.
Tal como a maior parte dos consultores de empresas, este aldeão não nos disse nada que já não soubéssemos. Mas é sempre reconfortante encontrar alguém que nos garanta que estamos no caminho certo e que sabemos como são as coisas. E lá fomos nós, agora muito mais serenos e confiantes, a caminho do sítio das pedras parideiras.
Daqui observa-se, sob outro ângulo, a frecha da Mizarela em toda a sua plenitude e imponência, em plácida e exuberante nudez da fenda e das rochas (granito e xisto) que a marginam. As águas revoltas deslizam em tropel imparável, descendo em turbilhão pelas descarnadas rochas da fenda, (ou pela fenda das rochas?) apressadas e ofegantes, ansiosas por chegar ao êxtase e à calmaria, no sopé do monte, onde, enfim, podem repousar e retemperar energias após tão alucinante viagem (que é que isto me faz lembrar?).
Voltemos às pedras parideiras, que são um fenómeno geológico raríssimo. No caso da serra da Freita são mesmo um caso único no mundo no que respeita a este tipo de granito. 
Cientificamente o fenómeno é assim:trata-se de uns afloramentos rochosos onde os
componentes da rocha se agrupam em vez de se distribuírem de forma mais ou menos uniforme por toda a rocha, formando nódulos que se destacam claramente pela sua cor escura. Ao fim de milhares (ou milhões) de anos a erosão, as condições de tempo (diferença térmicas e humidade) fazem estalar a rocha, que larga os seus rebentos. Daí a designação de pedras parideiras. O período de gestação é muito longo, o parto é muito demorado.
Por aqui os paparazzi são muitos, embora não se escondam atrás das árvores, nem precisem de binóculos para ver ao longe, nem de escadas para se sobreporem às sebes. Tal como os outros, estão sempre na expectativa de ver a rocha parir (os outros ficam à espera que a vedeta tire o soutien e deixe à mostra os seios nus, momento ansiado e que justifica tantas solitárias e desesperantes horas de espera, mas que afinal é a fonte dos seus proventos). Mas ninguém pode apressar este parto e transformá-lo num acontecimento social, com direito a fotos e filmes que certamente iriam receber muitos likes no facebook.
Mesmo à face da estrada vemos os afloramentos graníticos (não estou a inventar nem a fazer literatura. É assim que reza o panfleto), prenhes de pedras parideiras, na maior parte
dos casos com os partos concluídos e com os filhotes já muito longe da casa paterna. Mas ainda há pedras com a gestação incompleta e sem data marcada para o parto, apesar dos meios tecnológicos de que hoje se dispõe para avaliar a data destes eventos. Neste aspecto, como em muitos outros, a natureza não se compadece com a pressa ou com os desejos dos homens. Há-de ser quando Deus quiser, dirão os crentes.
Mas para outras coisas (como a larica) a natureza pode apressar o “parto”. E para nos lembrar as regras lá estava o co-piloto Mota, novamente a carregar a fundo no “acelerador”: “Temos de nos despachar. É quase uma hora e já devíamos estar a chegar ao restaurante.”
“Ok Mota. Espera um pouco que já vamos”. E, sem pressas, ainda nos demoramos o tempo suficiente para comprovar que o Centro de Interpretação – Casa das Pedras Parideiras é
uma estrutura muito bem organizada e dotada em meios técnicos e humanos, merecedora de todo o apoio e da gratidão de quem gosta de conhecer estes interessantes fenómenos com o máximo de rigor e cientificidade. Aliás, as próprias rochas podem ser visitadas em excelentes condições de conforto, seguindo por uma passerelle tipo passadiço, em madeira, que circunda a principal afloração e permite ver e tocar directamente as rochas. Mas posso garantir que será infrutífera qualquer tentativa de provocar um parto. 
As entidades locais e a Arouca Geopark merecem os parabéns.
(Continua...)

segunda-feira, 24 de março de 2014

Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (II)

Santuário da Senhora da Laje
Já em plena serra da Freita, perto do lugar de Merujal, ao passar no recinto da Senhora da Laje, uma construção do ano 1680, descemos ao adro para tirar umas fotos para a posteridade. Mas o local era ermo, sem vivalma e sem qualquer casa num raio de muitas centenas de metros. Só uma igrejinha, carinhosamente intitulada “santuário”, com um típico coreto e um minúsculo cemitério mesmo ao lado, a lembrar o Portugal dos Pequenitos. Sendo, por isso, um local mal frequentado e pouco recomendável, optamos por dar meia volta e voltamos a subir à estrada.Aí, num largo terreiro rodeado de cruzeiros, o Bernardino fez o gosto ao dedo, premindo o gatilho a torto e a direito. 

Nem o Mota escapou ao seu zeloso profissionalismo, mesmo quando estava meio escondido atrás de um contentor de lixo a dar vazão, com inquestionável satisfação, às suas mais prementes e básicas necessidades fisiológicas.
Assistimos então a um momento mágico, de arte pura e sublime. Para a posteridade posou o Jorge, servindo de modelo para uma soberba foto que pode ser apreciada na magnífica reportagem fotográfica do Bernardino, que regista para sempre (agora no digital e não já no celulóide) os fugazes mas inolvidáveis momentos destas visitas turístico-gastronómicas.
Recuando 1981 anos, o Jorge assumiu com todo o rigor a pose do Cristo na cruz, com as mãos estendidas na horizontal cravados na travessa, cabeça pendida em conformada resignação, com a perna direita artisticamente flectida, e com os pés sobrepostos para puderem ser fixados à base da cruz com um único cravo.
Como 1981 anos? Perguntarão os mais distraídos. Pois se estamos em 2014 e Ele morreu com 33 anos, é só fazer as contas e ver se não tenho razão! 

Frecha da Mizarela
Daqui em diante o caminho da serra estava desbravado. E lá fomos sem problemas desembocar (salvo seja) na frecha da Mizarela.
Frecha de Quem? perguntará qualquer inocente e incauto desconhecedor da enorme riqueza do património natural de Portugal, que só merece o nosso mais desdenhoso e reprovador olhar.
A frecha da Mizarela é um geossítio (quem não souber o que quer dizer este palavrão consulte o dicionário ou o roteiro turístico editado pela Arouca Geopark) que é tão somente a mais alta queda de água em todo o território continental português.
Apresenta um desnível superior a 70 metros, praticamente na vertical, com um caudal de vários milhares de litros por minuto (contas feitas de cabeça, em menos de um minuto).
Apreciada a frecha, mirada e fotografada pelo Bernardino em vários ângulos, de modo a não deixar dúvidas nem mistérios por descobrir, entra em acção o co-piloto Mota, carregando agora no “acelerador” do relógio: “Temos de nos despachar. O almoço está marcado para a uma hora e ainda temos de passar nas pedras parideiras.”
A Mizarela é um belíssimo lugar, com meia dúzia de casas serranas de muito bom aspecto, circundadas de “relvados” magníficos. Os telhados de colmo já desapareceram de cena, substituídos pela moderna telha-sanduíche. Ar puro, silêncio apenas cortado pelo fragor das águas da cascata. Mas tudo fechado, sem ninguém à vista desarmada. Até o restaurante tinha as portas trancadas. E no que respeita a cafés, nem sombras. 
Tem paciência, Jorge. Ainda não é agora. “Aguenta, aguenta”, como diria o Ulrich. Se fosse outra coisa seria bem mais doloroso. 
(Continua...)

sábado, 22 de março de 2014

Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (I)

Nota Prévia:
Esta é mais uma crónica de Alexandre Ribeiro.

Ele deixa aqui  (para memória futura) uma descrição "fotográfica" e humorística 
de mais um passeio turístico, científico e gastronómico. Desta vez à Serra da Freita.

No último episódio desta crónica será publicado (como também é habitual) o vídeo da viagem. 

19 de Março de 2014 – Dia do Pai
Por uma feliz coincidência o Grupo 5.com(e) escolheu esta data marcante para se deslocar à serra da Freita, preenchendo a cheio mais um espaço no seu já interessantíssimo roteiro turístico, em visita de desfrute ao nosso riquíssimo património geológico e, sobretudo, gastronómico.
O dia apresentou um sol radioso, com temperatura amena, feliz prenúncio da ansiada primavera, parecendo feito de encomenda para ir ao encontro dos nossos objectivos. A concentração foi em Valadares, no Penedo, onde à hora marcada compareceram o Jorge, o Bernardino e o Alexandre. O Mota, como vai sendo habitual, apareceu de “véspera” e já há muito esperava, impaciente, na pastelaria.
O Rogério juntou-se depois ao grupo. E lá arrancamos, tendo como destino a Serra da Freita. E o restaurante Mira Freita, porra! Não podemos lembrar o acessório e esquecer o essencial.
O percurso e o papel importante do co-piloto
O Alexandre era o condutor, mas contava com a preciosa e exigente cooperação de “experiente” co-piloto, o Mota: “Nada de pressa. Não precisamos de ir a mais de 80”.
O Mota passava o tempo a accionar o “travão de boca”: “Cuidado nessa curva. Aqui não podemos ir a mais de 60”.
A certa altura, em plena auto-estrada e numa descida, o Rogério perguntou se o motor ia desligado para poupar combustível: “Não, mas vamos a 110 kms/hora, com o piloto automático ligado. Por isso é que parece que estamos parados”.
“Vamos assim muito bem”, atalha logo o Mota, que só se chateou por o Alexandre não ter saído em S. João da Madeira. “Vamos ter de fazer muito mais quilómetros. Devíamos ter saído onde eu disse. Eu bem avisei (a quem é que eu já ouvi isto?). Agora já não dá para ir para trás. Não me quiseste dar ouvidos! Eu é que conheço esta zona. Trabalhei aqui muitos anos”.
Afinal a saída da auto-estrada em Vale de Cambra ficava mesmo a 2 passos do ponto onde teríamos de passar. Ainda poupamos 10 a 15 minutos.
E, não foi preciso ligar a porcaria do GPS do Rogério (que, para variar, não funcionava direito) para se chegar à Freita sem problemas. Aliás, nada nos garantia que com aquele GPS e com aquele técnico não fôssemos antes encaminhados para Aveiro ou para o Porto (já não era a primeira vez que algo de semelhante nos acontecia).
O caminho estava bem sinalizado e fomos directos ao destino sem quaisquer problemas.
Mas nem 5 pares de olhos nem o GPS nos indicaram qualquer café à face da estrada, onde o Jorge pudesse matar a traça, que desde a auto-estrada lhe vinha corroendo as entranhas. Vícios.
(Continua...)

quinta-feira, 20 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (VI)

Ao acabar de ler o longo texto fiquei muito mais tranquilo mas verifiquei, com espanto, que alguns dos meus colegas tinham os olhos cheios de lágrimas. As colegas das primeiras carteiras olhavam-me com admiração e com um olhar meigo e terno… pelo menos eu senti-o dessa forma.
Nessa altura compreendi também uma coisa muito importante: gosto de escrever e posso fazê-lo. Felizmente é um gosto que não exige senão tempo, uma caneta ou um lápis e papel. Ora, felizmente, eu tinha tudo isso. Portanto tinha a sorte de gostar do que gostava e daquilo que tinha! Senti-me feliz e por isso pensei: que me importa aquilo que o Padre Cassiano pensa? Até lhe estou agradecido por me ter dado a oportunidade de me dar conta de tudo isso.

Agora, e assim à distância de 45 anos, até o desculpo e reconheço que nessa época os professores ainda não tinham a preocupação e o interesse pela melhoria da auto-estima e do auto-conceito como forma de estimular o sucesso escolar dos seus alunos. De facto, o estudo da auto-estima em contexto escolar, sobretudo na sua interligação com o aproveitamento dos alunos com capacidades cognitivas só assume particular importância muitos anos mais tarde.
O professor, embora Padre de profissão e (talvez) vocação, não podia ter - nessa época - conhecimentos de psicologia do desenvolvimento e educação de crianças e jovens adolescentes para saber que a estabilidade emocional e o auto-conceito dos alunos contribuem decisivamente para a melhoria da sua qualidade de vida. De facto, são os alunos que recebem estímulos afectivos positivos a esse nível, em casa e nas salas de aula, que apresentam níveis de rendimento escolar mais elevados, quando comparados com alunos que não recebem qualquer estímulo ou com aqueles que, por qualquer motivo, recebem estímulos contrários e que lhes baixam a auto-estima como aconteceu comigo nesta situação concreta e mesmo noutras que agora não vêm ao caso.

Nesse dia, e nessa aula de Português, o melhor estímulo afectivo positivo que obtive foi captado de mim para mim, cá do fundo do meu interior, ao dar-me conta de que também era capaz de fazer algo positivo e competente. E... incrivelmente também vindo do exterior, mas não do professor como seria suposto e desejável mas sim das lágrimas que vi em algumas das minhas colegas e, sobretudo, do meu colega e amigo Tino Navarro, quando da sua carteira lá do fundo sala se levantou e disse alto e bom som: Senhor Padre Cassiano eu também ouvi o “marancha” contar esta história aos meus irmãos mais velhos!!!

Nota final: Este texto, tão polémico na altura, foi escrito por mim na sala de estudo do Externato de Santa Luzia, em Vila Flor. Essa sala de estudo era controlada e vigiada pela nossa professora de Moral a quem chamávamos a "Casqueiro", por ter um trato muito austero e rigoroso. Escrevi-o enquanto ela se colocava estrategicamente mesmo a meu lado por forma a impedir, com o seu corpo enorme, o meu olhar na direcção da minha primeira namorada que tinha 13 anos e, por incrível que possa parecer, se chamava: Helena.
      

terça-feira, 18 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (V)

"- Queridos pais - começava assim a carta.
Espero que esteja tudo bem e que esta carta os vá encontrar de boa saúde.
Estou contentíssimo. Foi antecipado o calendário do nosso batalhão e daqui a quinze dias vou gozar a minha primeira licença de uma semana. Anseio tanto por vos ver, por estar convosco…
Por aqui as coisas têm estado mais ou menos difíceis, os “tugas” avançam em força mas estamos aguentando e em breve iremos receber reforços.
O nosso comandante falou ontem às tropas e disse que nos estávamos a defender muito bem e com muita bravura. As nossas forças estão a preparar um contra golpe, que nos fará progredir em todas as frentes e que a guerra tenderá a acabar com o empenho de todos. Que iremos sair vitoriosos.
Já lhes disse na carta anterior que o posto onde estou agora é relativamente sossegado e seguro, por isso nada de preocupações.
Eu estou bem graças a Deus, embora cheio de saudades de todos. 
Digam à Helena que não fique em cuidados por não lhe escrever desta vez, pois daqui a dias estaremos juntos se Deus quiser.
Digam-lhe que a amo muito e que anseio por ela e pelo dia do nosso casamento.
Beijos a todos e renovadas saudades.
Vosso filho que vos adora".

Dobrei a carta e voltei a colocá-la no envelope. Um sentimento de sacrilégio tomou-me todos os sentidos, e chorei como há muito o não fazia.

Helena... A namorada dele também se chamava Helena!

Cumpri as rotinas: certifiquei-me da sua identificação. Ao verificar-lhe os bolsos retirei vários objectos mas o que mais me prendeu a atenção foi uma fotografia. A fotografia da sua Helena: um sorriso lindo e luminoso, cabelos encarapinhados e olhos escuros como os seus. Senti o coração parar com o sentimento de arrependimento que tomou conta de mim.

Mas... foi ao fazer a operação de segurança da arma que fiquei no estado de destroçado, desprezível até, em que me encontro agora: o carregador não tinha já munições, a câmara estava vazia.

A arma... a arma estava descarregada... meu Deus...

(Continua...)

sábado, 15 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (IV)

Há casos como este que nos levam a pensar como seria bom termos o poder e a capacidade de alterar os rumos dos acontecimentos. Como seria bom podermos inverter tudo isso mas naquele instante de tensão em que um momento toma proporções enormes e a dimensão do universo é totalmente impossível.
É o nosso instinto de sobrevivência a pressentir e a antecipar que um milionésimo de segundo nos separa a vida da morte e acabamos por constactar que, de facto, quem vence é a besta que em nós existe. Toda a subtileza dum pensamento, toda a beleza dum poema, apenas o é se o eternizarmos no nosso conhecimento contínuo. Pelo contrário um momento destes, vivido assim desta forma tão intensa e extrema em termos emocionais fica, sem qualquer esforço ou intenção, para sempre impresso na nossa consciência mais profunda, na memória de tudo e de nós mesmos e será recordado e vivido em todos os instantes do resto da nossa vida; o único conforto é quando pensamos: sobrevivemos...
De modo que dei por mim a premir instintivamente o indicador. O estrondo soou e a bala atingindo-o em cheio no peito empurrou-o de encontro à árvore pela qual escorregou caindo depois para um dos lados. Corri para ele aflito, desorientado e surpreendido comigo próprio.
Apoiei-lhe a cabeça contra mim enquanto, sem saber porquê, lhe dei um pouco da água do meu cantil que apenas molharam os seus lábios grossos e ensanguentados.
Em combate já tinha abatido inimigos, já tinha visto morrer camaradas mesmo ao meu lado, eu próprio apresentava umas cicatrizes de estilhaços mal e porcamente curadas nas trincheiras à base de penicilina, mas nunca tinha passado um episódio que me tivesse chocado e mexido tanto comigo.

Vi como ele chorava e chorei também encostando a sua cabeça ao meu peito. Numa voz quase sussurrada disse-me: - Só não queria ser capturado... daqui a quinze dias... daqui a quinze dias... vou de licença... Vou ver os meus pais, os meus avós... a minha namorada...
Falava lentamente com pausas para tentar respirar, o que fazia com pequenos movimentos entrecortados em que apenas um dos lados do corpo se movia.

Calou-se. No seu peito, uma mancha escura e quente alastrava e arrefecia lentamente empapando-lhe o corpo. Senti como a vida lhe escapava a cada instante.

Olhou para mim. Os seus olhos escuros não me olhavam com ódio, apenas pareciam assustados e com pena do que lhe estava a acontecer.
De repente lembrei-me de Helena, a quem não via há tantos meses... e quase num murmúrio ele deixou escapar um pedido que apenas entendi pelo gesto de tirar a custo um envelope de dentro do blusão e que me entregou. Morreu em seguida.

Retirei, com as mãos a tremer e empapadas de sangue, do envelope uma carta dirigida aos pais e à namorada.


(Continua...)