Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


segunda-feira, 24 de março de 2014

Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (II)

Santuário da Senhora da Laje
Já em plena serra da Freita, perto do lugar de Merujal, ao passar no recinto da Senhora da Laje, uma construção do ano 1680, descemos ao adro para tirar umas fotos para a posteridade. Mas o local era ermo, sem vivalma e sem qualquer casa num raio de muitas centenas de metros. Só uma igrejinha, carinhosamente intitulada “santuário”, com um típico coreto e um minúsculo cemitério mesmo ao lado, a lembrar o Portugal dos Pequenitos. Sendo, por isso, um local mal frequentado e pouco recomendável, optamos por dar meia volta e voltamos a subir à estrada.Aí, num largo terreiro rodeado de cruzeiros, o Bernardino fez o gosto ao dedo, premindo o gatilho a torto e a direito. 

Nem o Mota escapou ao seu zeloso profissionalismo, mesmo quando estava meio escondido atrás de um contentor de lixo a dar vazão, com inquestionável satisfação, às suas mais prementes e básicas necessidades fisiológicas.
Assistimos então a um momento mágico, de arte pura e sublime. Para a posteridade posou o Jorge, servindo de modelo para uma soberba foto que pode ser apreciada na magnífica reportagem fotográfica do Bernardino, que regista para sempre (agora no digital e não já no celulóide) os fugazes mas inolvidáveis momentos destas visitas turístico-gastronómicas.
Recuando 1981 anos, o Jorge assumiu com todo o rigor a pose do Cristo na cruz, com as mãos estendidas na horizontal cravados na travessa, cabeça pendida em conformada resignação, com a perna direita artisticamente flectida, e com os pés sobrepostos para puderem ser fixados à base da cruz com um único cravo.
Como 1981 anos? Perguntarão os mais distraídos. Pois se estamos em 2014 e Ele morreu com 33 anos, é só fazer as contas e ver se não tenho razão! 

Frecha da Mizarela
Daqui em diante o caminho da serra estava desbravado. E lá fomos sem problemas desembocar (salvo seja) na frecha da Mizarela.
Frecha de Quem? perguntará qualquer inocente e incauto desconhecedor da enorme riqueza do património natural de Portugal, que só merece o nosso mais desdenhoso e reprovador olhar.
A frecha da Mizarela é um geossítio (quem não souber o que quer dizer este palavrão consulte o dicionário ou o roteiro turístico editado pela Arouca Geopark) que é tão somente a mais alta queda de água em todo o território continental português.
Apresenta um desnível superior a 70 metros, praticamente na vertical, com um caudal de vários milhares de litros por minuto (contas feitas de cabeça, em menos de um minuto).
Apreciada a frecha, mirada e fotografada pelo Bernardino em vários ângulos, de modo a não deixar dúvidas nem mistérios por descobrir, entra em acção o co-piloto Mota, carregando agora no “acelerador” do relógio: “Temos de nos despachar. O almoço está marcado para a uma hora e ainda temos de passar nas pedras parideiras.”
A Mizarela é um belíssimo lugar, com meia dúzia de casas serranas de muito bom aspecto, circundadas de “relvados” magníficos. Os telhados de colmo já desapareceram de cena, substituídos pela moderna telha-sanduíche. Ar puro, silêncio apenas cortado pelo fragor das águas da cascata. Mas tudo fechado, sem ninguém à vista desarmada. Até o restaurante tinha as portas trancadas. E no que respeita a cafés, nem sombras. 
Tem paciência, Jorge. Ainda não é agora. “Aguenta, aguenta”, como diria o Ulrich. Se fosse outra coisa seria bem mais doloroso. 
(Continua...)

sábado, 22 de março de 2014

Passeio do Grupo 5.com(e) à Serra da Freita (I)

Nota Prévia:
Esta é mais uma crónica de Alexandre Ribeiro.

Ele deixa aqui  (para memória futura) uma descrição "fotográfica" e humorística 
de mais um passeio turístico, científico e gastronómico. Desta vez à Serra da Freita.

No último episódio desta crónica será publicado (como também é habitual) o vídeo da viagem. 

19 de Março de 2014 – Dia do Pai
Por uma feliz coincidência o Grupo 5.com(e) escolheu esta data marcante para se deslocar à serra da Freita, preenchendo a cheio mais um espaço no seu já interessantíssimo roteiro turístico, em visita de desfrute ao nosso riquíssimo património geológico e, sobretudo, gastronómico.
O dia apresentou um sol radioso, com temperatura amena, feliz prenúncio da ansiada primavera, parecendo feito de encomenda para ir ao encontro dos nossos objectivos. A concentração foi em Valadares, no Penedo, onde à hora marcada compareceram o Jorge, o Bernardino e o Alexandre. O Mota, como vai sendo habitual, apareceu de “véspera” e já há muito esperava, impaciente, na pastelaria.
O Rogério juntou-se depois ao grupo. E lá arrancamos, tendo como destino a Serra da Freita. E o restaurante Mira Freita, porra! Não podemos lembrar o acessório e esquecer o essencial.
O percurso e o papel importante do co-piloto
O Alexandre era o condutor, mas contava com a preciosa e exigente cooperação de “experiente” co-piloto, o Mota: “Nada de pressa. Não precisamos de ir a mais de 80”.
O Mota passava o tempo a accionar o “travão de boca”: “Cuidado nessa curva. Aqui não podemos ir a mais de 60”.
A certa altura, em plena auto-estrada e numa descida, o Rogério perguntou se o motor ia desligado para poupar combustível: “Não, mas vamos a 110 kms/hora, com o piloto automático ligado. Por isso é que parece que estamos parados”.
“Vamos assim muito bem”, atalha logo o Mota, que só se chateou por o Alexandre não ter saído em S. João da Madeira. “Vamos ter de fazer muito mais quilómetros. Devíamos ter saído onde eu disse. Eu bem avisei (a quem é que eu já ouvi isto?). Agora já não dá para ir para trás. Não me quiseste dar ouvidos! Eu é que conheço esta zona. Trabalhei aqui muitos anos”.
Afinal a saída da auto-estrada em Vale de Cambra ficava mesmo a 2 passos do ponto onde teríamos de passar. Ainda poupamos 10 a 15 minutos.
E, não foi preciso ligar a porcaria do GPS do Rogério (que, para variar, não funcionava direito) para se chegar à Freita sem problemas. Aliás, nada nos garantia que com aquele GPS e com aquele técnico não fôssemos antes encaminhados para Aveiro ou para o Porto (já não era a primeira vez que algo de semelhante nos acontecia).
O caminho estava bem sinalizado e fomos directos ao destino sem quaisquer problemas.
Mas nem 5 pares de olhos nem o GPS nos indicaram qualquer café à face da estrada, onde o Jorge pudesse matar a traça, que desde a auto-estrada lhe vinha corroendo as entranhas. Vícios.
(Continua...)

quinta-feira, 20 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (VI)

Ao acabar de ler o longo texto fiquei muito mais tranquilo mas verifiquei, com espanto, que alguns dos meus colegas tinham os olhos cheios de lágrimas. As colegas das primeiras carteiras olhavam-me com admiração e com um olhar meigo e terno… pelo menos eu senti-o dessa forma.
Nessa altura compreendi também uma coisa muito importante: gosto de escrever e posso fazê-lo. Felizmente é um gosto que não exige senão tempo, uma caneta ou um lápis e papel. Ora, felizmente, eu tinha tudo isso. Portanto tinha a sorte de gostar do que gostava e daquilo que tinha! Senti-me feliz e por isso pensei: que me importa aquilo que o Padre Cassiano pensa? Até lhe estou agradecido por me ter dado a oportunidade de me dar conta de tudo isso.

Agora, e assim à distância de 45 anos, até o desculpo e reconheço que nessa época os professores ainda não tinham a preocupação e o interesse pela melhoria da auto-estima e do auto-conceito como forma de estimular o sucesso escolar dos seus alunos. De facto, o estudo da auto-estima em contexto escolar, sobretudo na sua interligação com o aproveitamento dos alunos com capacidades cognitivas só assume particular importância muitos anos mais tarde.
O professor, embora Padre de profissão e (talvez) vocação, não podia ter - nessa época - conhecimentos de psicologia do desenvolvimento e educação de crianças e jovens adolescentes para saber que a estabilidade emocional e o auto-conceito dos alunos contribuem decisivamente para a melhoria da sua qualidade de vida. De facto, são os alunos que recebem estímulos afectivos positivos a esse nível, em casa e nas salas de aula, que apresentam níveis de rendimento escolar mais elevados, quando comparados com alunos que não recebem qualquer estímulo ou com aqueles que, por qualquer motivo, recebem estímulos contrários e que lhes baixam a auto-estima como aconteceu comigo nesta situação concreta e mesmo noutras que agora não vêm ao caso.

Nesse dia, e nessa aula de Português, o melhor estímulo afectivo positivo que obtive foi captado de mim para mim, cá do fundo do meu interior, ao dar-me conta de que também era capaz de fazer algo positivo e competente. E... incrivelmente também vindo do exterior, mas não do professor como seria suposto e desejável mas sim das lágrimas que vi em algumas das minhas colegas e, sobretudo, do meu colega e amigo Tino Navarro, quando da sua carteira lá do fundo sala se levantou e disse alto e bom som: Senhor Padre Cassiano eu também ouvi o “marancha” contar esta história aos meus irmãos mais velhos!!!

Nota final: Este texto, tão polémico na altura, foi escrito por mim na sala de estudo do Externato de Santa Luzia, em Vila Flor. Essa sala de estudo era controlada e vigiada pela nossa professora de Moral a quem chamávamos a "Casqueiro", por ter um trato muito austero e rigoroso. Escrevi-o enquanto ela se colocava estrategicamente mesmo a meu lado por forma a impedir, com o seu corpo enorme, o meu olhar na direcção da minha primeira namorada que tinha 13 anos e, por incrível que possa parecer, se chamava: Helena.
      

terça-feira, 18 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (V)

"- Queridos pais - começava assim a carta.
Espero que esteja tudo bem e que esta carta os vá encontrar de boa saúde.
Estou contentíssimo. Foi antecipado o calendário do nosso batalhão e daqui a quinze dias vou gozar a minha primeira licença de uma semana. Anseio tanto por vos ver, por estar convosco…
Por aqui as coisas têm estado mais ou menos difíceis, os “tugas” avançam em força mas estamos aguentando e em breve iremos receber reforços.
O nosso comandante falou ontem às tropas e disse que nos estávamos a defender muito bem e com muita bravura. As nossas forças estão a preparar um contra golpe, que nos fará progredir em todas as frentes e que a guerra tenderá a acabar com o empenho de todos. Que iremos sair vitoriosos.
Já lhes disse na carta anterior que o posto onde estou agora é relativamente sossegado e seguro, por isso nada de preocupações.
Eu estou bem graças a Deus, embora cheio de saudades de todos. 
Digam à Helena que não fique em cuidados por não lhe escrever desta vez, pois daqui a dias estaremos juntos se Deus quiser.
Digam-lhe que a amo muito e que anseio por ela e pelo dia do nosso casamento.
Beijos a todos e renovadas saudades.
Vosso filho que vos adora".

Dobrei a carta e voltei a colocá-la no envelope. Um sentimento de sacrilégio tomou-me todos os sentidos, e chorei como há muito o não fazia.

Helena... A namorada dele também se chamava Helena!

Cumpri as rotinas: certifiquei-me da sua identificação. Ao verificar-lhe os bolsos retirei vários objectos mas o que mais me prendeu a atenção foi uma fotografia. A fotografia da sua Helena: um sorriso lindo e luminoso, cabelos encarapinhados e olhos escuros como os seus. Senti o coração parar com o sentimento de arrependimento que tomou conta de mim.

Mas... foi ao fazer a operação de segurança da arma que fiquei no estado de destroçado, desprezível até, em que me encontro agora: o carregador não tinha já munições, a câmara estava vazia.

A arma... a arma estava descarregada... meu Deus...

(Continua...)

sábado, 15 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (IV)

Há casos como este que nos levam a pensar como seria bom termos o poder e a capacidade de alterar os rumos dos acontecimentos. Como seria bom podermos inverter tudo isso mas naquele instante de tensão em que um momento toma proporções enormes e a dimensão do universo é totalmente impossível.
É o nosso instinto de sobrevivência a pressentir e a antecipar que um milionésimo de segundo nos separa a vida da morte e acabamos por constactar que, de facto, quem vence é a besta que em nós existe. Toda a subtileza dum pensamento, toda a beleza dum poema, apenas o é se o eternizarmos no nosso conhecimento contínuo. Pelo contrário um momento destes, vivido assim desta forma tão intensa e extrema em termos emocionais fica, sem qualquer esforço ou intenção, para sempre impresso na nossa consciência mais profunda, na memória de tudo e de nós mesmos e será recordado e vivido em todos os instantes do resto da nossa vida; o único conforto é quando pensamos: sobrevivemos...
De modo que dei por mim a premir instintivamente o indicador. O estrondo soou e a bala atingindo-o em cheio no peito empurrou-o de encontro à árvore pela qual escorregou caindo depois para um dos lados. Corri para ele aflito, desorientado e surpreendido comigo próprio.
Apoiei-lhe a cabeça contra mim enquanto, sem saber porquê, lhe dei um pouco da água do meu cantil que apenas molharam os seus lábios grossos e ensanguentados.
Em combate já tinha abatido inimigos, já tinha visto morrer camaradas mesmo ao meu lado, eu próprio apresentava umas cicatrizes de estilhaços mal e porcamente curadas nas trincheiras à base de penicilina, mas nunca tinha passado um episódio que me tivesse chocado e mexido tanto comigo.

Vi como ele chorava e chorei também encostando a sua cabeça ao meu peito. Numa voz quase sussurrada disse-me: - Só não queria ser capturado... daqui a quinze dias... daqui a quinze dias... vou de licença... Vou ver os meus pais, os meus avós... a minha namorada...
Falava lentamente com pausas para tentar respirar, o que fazia com pequenos movimentos entrecortados em que apenas um dos lados do corpo se movia.

Calou-se. No seu peito, uma mancha escura e quente alastrava e arrefecia lentamente empapando-lhe o corpo. Senti como a vida lhe escapava a cada instante.

Olhou para mim. Os seus olhos escuros não me olhavam com ódio, apenas pareciam assustados e com pena do que lhe estava a acontecer.
De repente lembrei-me de Helena, a quem não via há tantos meses... e quase num murmúrio ele deixou escapar um pedido que apenas entendi pelo gesto de tirar a custo um envelope de dentro do blusão e que me entregou. Morreu em seguida.

Retirei, com as mãos a tremer e empapadas de sangue, do envelope uma carta dirigida aos pais e à namorada.


(Continua...)


quinta-feira, 13 de março de 2014

Há dias em que me sinto um passarinho!

Sócrates, Relvas, Portas, Coelhos e outros animais desta selva...


Há dias em que (mesmo que queiras) não os esqueces! 
Nem as promessas destes jotinhas tão "ternurentos" 
que fazem ao eleitorado tantas preces...

E... no “poleiro” do poder logo esquecem
esse ardor da campanha no baú dos esquecimentos. 

Passam enfim a olhar para ti com desdém
na vida passas a ser um empecilho…
porque será que a vida tem 
tantos filhos da (…) mãe,
a quem a mãe chama filho?

terça-feira, 11 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (III)

No ninho, formado por um pequeno desaterro escavado até à altura de um homem de estatura média, tinham sido colocados sacos de pedras e de areia. Havia três caixas de munições empilhadas a um canto, duas peças pesadas caídas assim como algumas ligaduras espalhadas pelo chão. Num dos lados estava um corpo de um soldado inimigo ainda agarrado a um dos morteiros, que tinha sido atingido quase em cheio. Os sacos desse lado do ninho estavam deslocados e rebentados com o conteúdo espalhado à sua volta.

Ainda no decorrer da operação do dia anterior não pude deixar de reparar também como, no chão mole devido à chuva miudinha que caíra na noite anterior, umas pegadas de botas levavam a direcção do bosque na encosta que agora ficava por trás das nossas linhas. Segui as marcas no solo e, ainda antes de entrar no arvoredo, umas manchas de sangue num arbusto certificaram-me de que estava por ali alguém ferido. Talvez devido a estilhaços aquando da queda do morteiro que atingira o seu camarada. Digo eu, não sei. Ou talvez ainda antes, atingido por uma bala e na iminência da sorte do combate lhe ser desfavorável, tivessem feito com que ele se retirasse na esperança de atingir um local onde se sentisse mais seguro.
Fui avançando devagarinho, com extremo cuidado e todas as cautelas, a adrenalina a ferver nas veias, abrigando-me em cada árvore e em cada arbusto. Foi quando inesperadamente o vi… Quase de caras!
Senti o sangue gelar!
Imóvel e encostado a um tronco, a sangrar, debilitado, estava como que esperando por mim. Nem dera quase por ele, poderia perfeitamente ter-me abatido, mas não...
Por detrás duma expressão assustada, de olhos escuros e a parte branca enorme e a brilhar, estava o que era ainda um jovem. Deve ter uns 16 ou 17 anos! - pensei. Apresentava um ar de cansaço e segurava a arma apontada na minha direcção com as duas mãos junto à cintura e a coronha apoiada na árvore onde se encostara. 
Ordenou-me num português bantu para largar a minha. 
Respondi-lhe que estava detido, que as nossas forças tinham tomado as suas posições e que agora era meu prisioneiro.
Umas lágrimas espreitaram-lhe aos olhos ao mesmo tempo que denunciava na respiração ofegante o tremor que lhe tomava o corpo. Eu estava numa ansiedade enorme e em grande tensão mas consegui dizer-lhe para ter calma e que não lhe íamos fazer mal. Que iria ser respeitado, alimentado e protegido como prisioneiro de guerra. Por um momento senti um alívio da tensão quando ele baixou a metralhadora e o olhar num gesto que me pareceu de rendição.

Avancei e foi então quando se deu o desfecho inesperado.

Dando-se conta de que me aproximava, levantou novamente a cabeça e voltou a apontar a arma, abrindo muito os olhos enquanto subia os braços para uma posição de ponto de mira e de dedo no gatilho. A boca a abrir-se como que a preparar-se para gritar muito alto…
(Continua...)

domingo, 9 de março de 2014

Ontem fui correr!

Ah… que bom! Como me senti bem em termos anímicos a percorrer os 12 quilómetros que separam o bar Atlântico, na praia de Valadares, até ao Bico do Cabedelo! Já fisicamente não poderei dizer o mesmo tendo em conta que vinha de um longo interregno nos treinos. Não corria, nem treinava, desde dia o 15 de Dezembro quando participei na São Silvestre do Porto 2013. Nesse dia fiz os 10 Kms no tempo líquido de 57 minutos e 53 segundos, o que para um cota de 60 anos não foi nada mau.

Voltando ao treino de ontem. Normalmente enquanto corro também penso. Tenho a mania de ir pensando nisto e naquilo, no tempo, no mar que me acompanha do lado esquerdo ou do lado direito conforme o sentido em que me desloco, na política, nestes políticos jotinhas que temos, no futebol, nos amigos (a maioria doentes do FCP), na família etc. etc.  

Ontem os meus pensamentos andaram mais ou menos a navegar assim:
Já não estudo. Já não trabalho. Apenas vou dirigindo os conhecimentos e a ocupação do meu tempo. Será pouco? Talvez. Mas às vezes dá cá um trabalho do... E sorri para mim próprio. Ou de mim? 

E continuei a pensar:
Na adolescência temos a mania que sabemos tudo;
Na casa dos vinte temos a certeza absoluta que sabemos tudo;
Na dos trinta começamos a ter uma ligeira dúvida sobre se sabemos tudo (menos os jotinhas);
Na casa dos quarenta apercebemo-nos de que se calhar não sabemos tudo (menos os jotinhas);
Aos cinquenta apercebemo-nos que não sabemos nada (menos os jotinhas);
Aos sessenta começamos a aprender (menos os jotinhas) e é o que estou a fazer.
E sorri também de mim para mim.

Por isso estou “autorizado” a pensar: O ano de 2014 vai ser terrível, com estes jotinhas que nos governam não podemos esperar grande coisa... não é verdade?
De facto, diminuir o vencimento dos funcionários públicos, as pensões e aumentar a ADSE, num sistema que está fechado, é (ou deveria ser) um crime.
Aqui neste ponto do meu pensamento cruzei-me com a Carmo da farmácia que me sorriu toda simpática e com o seu olhar cúmplice pareceu dizer-me: "Força amigo! Dá cabo aí desse colesterol que, como temos visto na farmácia, anda com tendências para subir de valor...". Bom, ela de facto, não o disse mas eu interpretei pela expressão do seu olhar que era isso que ela estava a pensar. 

Retomei o pensamento anterior e pensei: a culpa, no limite, é do estado português que transferiu abusivamente os fundos de pensões para equilibrarem o défice e continua a pagar pensões milionárias a bancários e a ex-políticos que vão passando pelas empresas que vivem à custa dos negócios com o estado. E quem paga é... bom aqui parei... já pensei vezes de mais nesta merda.

Ao passar em frente ao Restaurante Casa Branca, para além de pensar que foi aqui que fizemos a boda do meu casamento há 34 anos ainda desabafei para mim: Parece que foi ontem! Mas… é muito tempo, porra! 

No regresso, e ao passar pelo Ar d´Mar-Bar Esplanada, em Canide Norte, lembrei-me do meu cunhado falecido num brutal acidente de viação e do tempo, já longínquo, em que ele abriu e inaugurou este bar. O entusiasmo e a esperança no futuro com que ele o fez!!!
Aqui apeteceu-me ficar indignado. Pois, agora tenho tempo e acho que vale a pena indignar-me com tudo isto. É injusto morrer-se aos 35 anos e deixar um filho de cinco anos.

E... como fiquei mal disposto, não me importei de regressar ao tema anterior, que continua a indignar-me, e muito. Não sou jotinha, também não sou político, graças a Deus, e não tenho soluções para o problema português mas o que me apetece é dizer (neste caso pensar) mais uma vez: este governo é o cobardolas do costume, bate nos mais fracos, e naqueles que já não se podem defender nem sequer a fazer uma grevezita. Estes cobardolas esquecem-se que as reformas nos são devidas, descontámos mensalmente para elas ao longo de toda uma carreira; não são um bónus nem um agrado que nos fazem; é a verba que todos nós poupámos para o efeito. Até dá a ideia que esses governantes de merda aplicaram as nossas poupanças de reforma na bolsa e... perderam. O que eu acho é que, com isso, nos roubam as nossas reformas. Se, porém, as aplicaram indevidamente e a coisa correu mal, então prendam quem o fez, eram dinheiros que não lhes pertenciam, não tinham nada que lhes mexer. Ouviram???

E pronto passei de novo em frente à esplanada do Bar Atlântico e cheguei finalmente ao carro, estacionado próximo daí, onde a Amélia já me esperava. Abro a porta, sento-me e desabafo. Uff, cheguei!

sexta-feira, 7 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (II)

Cheio de vergonha, e com algum embargo na voz pelo nervosismo, passei então a ler o pequeno conto que escrevi baseado em grande parte nos acontecimentos contados, como sendo verídicos, pelo soldado António Branco ("marancha") e pelos seus camaradas de pelotão que vieram assistir ao funeral de um deles morto em combate na guerra colonial: 
O meu diário
Neste preciso instante em que escrevo estas palavras, que me servem de desabafo reconfortante, corro o sério risco de sofrer um castigo militar ou, no limite, de ser abatido por um “turra” inimigo. De facto, devia era estar mais concentrado na minha missão. Escrever é uma actividade que me apaixona mas que distrai, para o bem e para o mal, os meus sentidos. Ao escrever vou desabafando para diminuir o medo e os níveis de ansiedade mas... aumento os riscos de não cumprir com rigor o desempenho da minha missão.
São cinco e um quarto da manhã e há uma hora e quinze minutos que entrei no meu turno de vigilância aos sentinelas. Infelizmente já encontrei um soldado no seu posto a dormir de pé encostado à parede de terra e abraçado à sua G3! Vou ter de elaborar o auto desta ocorrência pois com a guerra não se brinca nem se pode facilitar.
Eu é que ainda não consegui conciliar um só minuto de sono durante toda a noite, mesmo antes de entrar de serviço.
À minha frente apenas vejo uns olhos castanhos que me perseguem por todo o lado. São iguais aos de Helena, a minha querida mulher que se encontra lá longe no continente e em Vila Flor, e com quem me casei quinze dias antes de ser enviado para a frente e entrar em combate.

Enquanto penso nela faço uma pequena pausa para perscrutar as trevas que uma lua em quarto crescente por trás dum céu esfarrapado de nuvens negras mal consegue iluminar. De repente pareceu-me ter ouvido um estampido mas afinal era apenas um pássaro preto (talvez um mocho) que, após ter capturado uma presa, passou a rasar o meu capacete rumo à mata situada no morro à minha retaguarda.

Ontem, ainda no refeitório enquanto tomávamos o pequeno-almoço, recebemos ordens para avançar em direcção às trincheiras que agora ocupamos. Durante o avanço tínhamos que tomar um ninho de metralhadoras que estava instalado no cume duma pequena elevação do terreno a partir de onde se dominava todo o vale. Uma cobertura de fogo de morteiro abriu alas e permitiu o nosso avanço mais ou menos seguro. Conseguimos esta nova posição sem qualquer baixa nem feridos da nossa parte.
Após a relativamente rápida tomada deste ponto de abrigo, passámos a fustigar as trincheiras inimigas que não tiveram outro remédio senão bater em retirada, o que nos facilitou o assalto final às suas posições anteriores.
O meu pelotão ficou com a incumbência de limpar o terreno, capturando armamento, anulando elementos inimigos, detendo-os com ordens de serem abatidos em caso de resistência...

(Continua...)

quarta-feira, 5 de março de 2014

Chove. Mais uma tarde de chuva. Já é demais! – digo eu.

Olha a novidade! Então não estamos no Inverno (?) e em tempo de chuva!!??- responde, de pronto, a Amélia no seu feitio rezingão.

Para serenar leio. Estou a ler o romance “Ernestina”, de J. Rentes de Carvalho, que a minha filha me ofereceu pelo meu aniversário. Nesta espécie de autobiografia o escritor viaja por terras de Trás-os-Montes, descrevendo paisagens, lugares, localidades e, sobretudo, o carácter das gentes transmontanas. Faz assim um retrato escrito num estilo directo e por vezes irónico de lugares e de um povo que tanto me diz.
Faço um intervalo. Provavelmente inspirado por esta leitura e, imbuído por esse espírito saudosista que por vezes me trai, fui rebuscar nas minhas memórias longínquas, dias também chuvosos e frios de outrora. Recordo esses dias e dias seguidos de chuva intensa que via cair encostado à porta de entrada do “soto”, como o meu pai chamava à pequena mercearia de aldeia que abriu num dos compartimentos da casa onde todos vivíamos. Essa porta dava para a rua principal da aldeia que fazia a ligação do Largo da Lameira até ao Largo do Eitão, os pontos nevrálgicos da aldeia. O primeiro porque ficava mesmo ao lado da Igreja (e da nossa casa), o segundo porque era aí que as pessoas socializavam, quer nas tabernas, quer ao lado e em frente da casa da escola.
Chamavam-lhe a rua Larga mas, naquele ponto em frente da nossa casa, tornava-se bastante estreita e muito inclinada pelo que nestes dias de chuva intensa mais parecia um pequeno ribeiro por onde eu via passar com admiração, espanto e algum temor, arrastados pela força da corrente, paus, lama, pedras a rolar, folhas e enormes quantidades de dejectos que os animais depositavam pelos caminhos e que normalmente eram apanhados à mão para servirem de fertilizante natural.
Ao fim de muitos dias de chuva sem parar vinham invariavelmente os prejuízos. Os charcos e ribeiros que extravasavam, os valados que ruíam, as bolsas de água acumuladas no subsolo que rebentavam e arrastavam tudo por onde passasse a violenta enxurrada, árvores que caíam, calhaus enormes que se desprendiam e rolavam encosta abaixo… Era tempo de esvaziar os palheiros para alimentar os animais e de consumir os proveitos acumulados no verão.
Mas de cheias não ouvíamos falar... Lá na minha terra onde vivi até aos sete anos de idade, situada nos confins do mundo, no lugar de Pinhal do Douro, Freguesia de Vilarinho da Castanheira, Concelho de Carrazeda de Ansiães, não havia disso e as notícias não se difundiam na hora como actualmente. Mesmo assim, havia um cuidado extremo com a limpeza dos cursos de água, nalguns casos por receio da força da lei imposta pelos então existentes (e sempre presentes) Guarda-Rios, e noutros em geral porque havia o sentimento de zelo que impelia as pessoas a se prevenirem e a demonstrarem um respeito absoluto pelas forças da natureza. Era inconcebível ousar obstruir os cursos naturais da água ou opor-se ao estabelecimento de pequenas valas por onde se desviavam as águas pluviais para não danificarem os caminhos, únicas vias de comunicação que existiam na época e de vital importância para as populações.

Contudo, os tempos mudaram e, como disse o poeta, as vontades também. A memória é curta e cometem-se atropelos ambientais de bradar aos céus. São esses atropelos que provocam muitos dos malefícios que ultimamente se têm feito sentir como consequência das fortes chuvadas.
Estranho é apenas o facto de em tão pouco tempo, mesmo tendo em conta a intensidade da chuva, do vento e das marés altíssimas, ocorrerem enchentes com tanta frequência nas margens dos rios e tantos estragos na orla marítima como as que se verificaram ultimamente.

E pronto… mais uma tarde de segunda-feira, deste início de Março, assim passada entre estas quatro paredes e com esta vontade, que por vezes me assalta, de baixar a persiana, apagar a luz e mergulhar no “baú” das minhas recordações: retornar à infância cada vez mais longínqua, rever a luz do dia como uma esperança que renasce, olhar o horizonte e sentir vontade de o ultrapassar para ver que vidas existiam do outro lado, percorrer caminhos que já se apagaram, relembrar amigos nunca mais encontrados, familiares já desaparecidos, paisagens alteradas… tanta coisa que parece nada mas que era toda uma vida cheia de ilusão, de fé e de confiança…

segunda-feira, 3 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (I)

Vila Flor, Março de 1967.

Externato de Santa Luzia. Aula de Português com o Padre Cassiano Dimas Fais.
- Chega aqui Bernardino- diz ele!
Levanto-me da carteira dupla que dividia com o meu colega e amigo Amândio Tabuada Trigo, de Carvalho d´Egas, e subo o estrado colocando-me mesmo ao lado da secretária do professor que, entretanto, olhava completamente distraído para o bairro da Portela e para o Rossio que se viam perfeitamente através das rasgadas janelas daquela sala de aulas situada no segundo piso do edifício. Mantive-me assim por alguns minutos aguardando em silêncio. A cada minuto que passava o grau da minha impaciência aumentava exponencialmente. Este compasso de espera não é bom sinal - pensei para os meus botões.
Repentinamente ouço a sua voz grave e séria que me pergunta enquanto aponta com o dedo indicador para o meu caderno de capas pretas que ele tinha estado a ler: - Onde foste tu copiar esta estória? É que… não podes ter sido tu! É completamente impossível teres sido tu a escrever toda esta trama sozinho. Desde a construção das frases, ao enquadramento, ao contexto e mesmo o conteúdo do texto. Tudo está perfeito e bom de mais para um aluno cábula como tu!
Corei de vergonha e... de alegria. Sim. Fiquei completamente dividido. Mas o sentimento de revolta pela injustiça que me estava a ser praticada sobrepôs-se, naquele momento, à satisfação (e orgulho) pelo trabalho que tinha feito sozinho. Mesmo que o professor nunca acreditasse em mim e não me desse uma boa nota pelo menos ficava a satisfação interior de sentir que o trabalho que tinha efectuado com tanto prazer estava a ser avaliado desta forma tão positiva. Esta ambiguidade entre o prazer e a revolta criou em mim, naquele momento, um elevado estado de ansiedade.
- Eu pedi-vos que escrevessem uma história, um conto ou uma narrativa qualquer mas... que fossem completamente originais – continuou o professor.
- Mas o que eu escrevi é original! E meu, só meu! E escrevi-o com base nas narrativas que fui ouvindo aos soldados que regressaram do ultramar - respondi. 
- E então quando é que ouviste tudo isso?
- Sei lá... deixe cá ver... não foi só de uma vez... ouvi na Praça, na Avenida e também no velório do filho da senhora Laudomira “forneira” que mataram em Angola!
- Então (!?) e eles contaram-te tudo isso, a ti?... Assim, desta forma? - perguntou ele em tom irónico.
- Não me contaram especialmente a mim... eu fui ouvindo as conversas entre eles... partilhas de experiências de guerra vividas... uma e outra, aqui e ali, nesse dia e nos dias seguintes. Com base nessas histórias que fui ouvindo como intruso e à socapa acabei por construir e redigir todo esse enredo. Também com algumas coisas que inventei para condimentar tudo isso à minha maneira.

- Bom... bom... então lê lá o texto, que dizes ter escrito, em voz alta para os teus colegas o ouvirem bem. E virando-se para dois colegas meus que cochichavam entre si: "vocês ai atrás calem-se e ouçam com muita atenção pois irão ter de comentar no fim"!
(Continua)

sábado, 1 de março de 2014

Chove tanto! E há tanto vento!

Primeiro dia do mês de Março a fazer jus ao provérbio: "Em Março chove cada dia um pedaço". É mais uma manhã de sábado chuvosa e fria. 

Estou farto de tanta chuva. Chove tanto! 

“Vejo” os poucos cabelos que me restam ondular enquanto corro e fico preocupado. Penso continuar a correr e paro. Os pés ficam colados ao chão, enterrados na areia molhada que substitui as tábuas destruídas do passadiço e debato-me nesta luta interior. 

Tanto vento! Estou farto… 

Começo a derrapar na parte em que o piso é mais sólido mas com areia intrusa. Sinto as sapatilhas a caminhar quase de forma autónoma, primeiro devagarinho, depois a obrigar-me a deslizar, como se o passadiço fosse uma das passadeiras rolantes do Gaiashoping. Encosto-me a mim, agarro-me à linha do horizonte, seguro-me neste mar bravio e tento mentalmente contrariar esta tempestade. Os cabelos, já grisalhos e compridos lá atrás, agitam-se enquanto a testa alta, descapotável e enrugada sente o vento e a chuva a bater. O vento empurra-me o corpo para trás ao mesmo tempo que a areia e as folhas mais leves chocam e batem na cara. Esforço-me ainda mais, já me custa manter os pés na areia molhada que escorre… tudo me escapa dos pés como se o mar, que tudo destruiu por aqui, me quisesse levar também.

Chove tanto! E há tanto vento!

Na meia laranja da praia da Granja estou quase a desistir, sinto-me levado pelas escadas abaixo e arrastado pelas águas salgadas em ondas revoltas como um estudante ébrio, e em praxe, na praia do Meco.

Insisto… mas continuo a levar com água na cara e com a areia empurradas pelo vento.

Até que, num momento de maior fragilidade, desisto. Falham-me as pernas e caio de joelhos na areia molhada, como Jesus no Dragão. 

E vejo Espinho lá longe… cada vez mais longe…

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Excerto do diário de estudante.

Nota prévia:
Muitas das pessoas que gostam de escrever dizem que o fazem porque escrever é uma forma de falar sem ser interrompido ou de gritar em silêncio.
Para mim é também um pouco de tudo isso. Normalmente o que escrevo vai tomando forma a partir de momentos que sinto interiormente ou então de outros que vou registando do exterior porque prenderam a minha atenção. Alguns têm a ver directamente comigo, outros passaram, ou passam, por mim e há aqueles que fazem parte integrante de mim pertencendo ao meu passado ou ao meu presente.

Foi dentro destes pressupostos que criei o blogue raxalebre onde fiz, de forma simples e retrospectiva, uma síntese da minha vida profissional e dos contextos em que se foi desenvolvendo. Fui assim guardando memórias que, de certa forma, me ajudaram, ao procurá-las no meu passado, a reviver os factos e os incidentes que mais me marcaram e me serviram de inspiração, para, permanentemente, me tornar um ser humano cada vez melhor.
Julgo que, pelo menos em parte, a missão foi cumprida. Por isso mesmo encerrei esse blogue e segui em frente.

Durante a curta “vida” deste vyla penedo procurei (e procuro) divulgar ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considero interessante em cada momento do meu dia a dia.
Agora, já aposentado, uma das minhas principais ocupações, para além de vagabundear junto ao mar, é dar liberdade ao meu pensamento e, assim, ir alimentando este blogue com os objectivos atrás descritos ao mesmo tempo que grito em silêncio e falo sem ser interrompido :-)

Neste contexto, e num daqueles momentos de introspecção enquanto passeava à beira-mar, senti a necessidade de narrar um acontecimento que me marcou profundamente e me tem acompanhado praticamente a vida inteira. Ele ocorreu quando eu tinha apenas 14 anos de idade e ficou para sempre inscrito no meu diário de estudante. Irei aqui deixá-lo "partido" em pequenos textos para leitura mais fácil e descontraída. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

I Will Survive

Também eu vou ter que sobreviver! Hey, hey
Mas é preciso toda a força para não me deixar abater por este tempo de frio, de vento e de chuva que me impedem de correr no passadiço entretanto destruído pela força das ondas deste mar bravio e revoltado, talvez com os governantes desprezíveis que controlam e destroem este país.
Como tenho uma vida para viver... vou lendo, escrevendo e ouvindo nostalgicamente esta música que me conforta...
.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Empobrecimento...


O vídeo limita-se a retratar um processo que está a acontecer lentamente, fruto  de um plano servido a conta-gotas para minimizar eventuais reacções.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Para mim chega! Basta! Este governo, é um governo fora da lei!

Já tive a oportunidade de aqui referir que sinto o dever cívico de reclamar, desabafar e denunciar as malfeitorias com que os nossos governantes vão permanentemente presenteando o povo que supostamente deveriam defender.

Hoje vou acrescentar mais uns pozinhos... para aliviar o stress.

De facto, já me cansa ouvir os argumentos apresentados pelo chefe dos ladrões Passos Coelho e do resto do bando, bem como da corte de engraxadores e de lacaios que vão enchendo a comunicação social, com o seu estafado argumento em defesa da economia e do estado português, baseado no empobrecimento do povo, que enganaram com promessas eleitorais mentirosas, optando pela defesa das finanças da Alemanha da senhora Merkl.
De súbito, estes palhaços de feira que nos desgovernam “descobriram” que nós os portugueses honestos, trabalhadores e aposentados somos os principais responsáveis da crise e que temos de a pagar… civilizadamente,  com um elevado espírito cívico, sofrendo  e calando.

Decidiram ainda que as classes médias estavam a viver acima das suas possibilidades e, em consequência, há que despedir, cortar salários, regalias e direitos do chamado Estado Social.
A calamidade a que estão a conduzir o nosso país, que a partir de agora se poderia passar a chamar de Merkltugal, não tem argumentação possível. 

Para mim chega! Basta! 

Não mais vou ouvir este aldrabão do Coelho e de qualquer outro elemento do seu gang, esgotou-se a minha capacidade de ouvir qualquer tipo de argumentação destes canalhas.
Declaro-me a partir de hoje em desobediência civil enquanto esta gentalha se mantiver no governo. Este governo ilegítimo e ilegal, quanto mais não seja pelo facto de ser um governo fora da lei, considerando que insiste em governar contra a lei fundamental de Portugal a Constituição da República. Não devemos esquecer o que aconteceu com o orçamento de 2012, quando algumas das medidas orçamentais foram consideradas ilegais, embora tivessem sido deixadas passar, por razões que o Tribunal Constitucional considerou poderem ser aceites. Também não devemos esquecer as medidas do orçamento de estado para 2013 e, mais recentemente, para 2014 que o Tribunal Constitucional chumbou e a forma manhosa e ardilosa como este governo as contornou de forma a vir, ainda assim, roubar os poucos proveitos que a classe média ainda vinha tendo.

Este governo é assim um governo fora da lei!
Ao reincidirem no mesmo crime, estes políticos vendedores de "banha da cobra" de meia tigela deviam ser presos ou, no mínimo, expulsos e escorraçados do governo pelo Tribunal Constitucional e/ou pelo Presidente da República... se o tivéssemos realmente.

Banido em definitivo da cena política devia ser não só o boy Coelho como também o seu apêndice político o Paulinho das “feiras” (ou dos submarinos?). Este político, malabarista das feiras e hipnotizador de reformados e aposentados, para além de ter sido um dos principais responsáveis pela estranha, incompreensível e inexplicável aquisição de submarinos, não faz mais nada do que tentar passar a imagem de alguém que estando não está, assina acordos com a gentalha do governo mas finge que não gosta e aparece chorando lágrimas de crocodilo, para salvaguardar a sua posição nas eleições que se aproximam.

P.S. A propósito de submarinos, soube-se agora que a sociedade que assessorou o consórcio alemão na venda dos submarinos a Portugal, transferiu 20,2 milhões (em luvas) para contas secretas. Quem embolsou estes milhões? Quem os vai pagar? Ninguém investiga?

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Percepção estereotipada da vida...

Ainda estudava em Coimbra no início da década de 70 do Século passado.
Nessa noite, já depois do jantar, saí do meu quarto alugado nas águas furtadas, do nº 9, da Rua Ferreira Borges. Atravessei a rua e sentei-me na escadaria que dá acesso à Praça do Comércio, mesmo ao lado da Igreja de S. Tiago.

Aí fiquei sentado enquanto aguardava a chegada dum colega meu, o Carrelo, que ficou de se encontrar comigo. À minha frente estendiam-se os bonitos e característicos prédios que circundavam a Praça. Apreciei cada um deles e reparei que quase todos tinham entre cinco e seis andares, eram relativamente semelhantes na sua estrutura e pareciam alinhados em círculo para admirar a Lua cheia que surgira bem lá no alto do céu, mas que parecia estar alinhada e apontada mesmo ao centro da Praça, que iluminava. Das ruas estreitinhas, que via mesmo em frente (Rua Adelino da Veiga e Rua das Azeiteiras) e que também desembocavam na Praça, não havia quase nenhum movimento de pessoas, ao contrário daquilo que acontecia nas minhas costas por onde passavam, aos pares e em pequenos grupos, fazendo as habituais piscinas (passeio de ida e volta) na Ferreira Borges, ou se deslocavam, enquanto conversavam e viam as montras, aproveitando o bom tempo que se fazia sentir nesse mês de Maio, para a Igreja de Santa Cruz onde iam rezar e assistir ao mês de Maria.

Enquanto os prédios olhavam para a Lua, eu olhava para eles. As luzes interiores davam sinais de vida a um ritmo lento e, das janelas mais baixas, era possível ouvir alguns sons domésticos. Numa ou noutra varanda de ferro trabalhado e bordado viam-se pequenos vasos com flores de sardinheira que lhes davam um colorido diversificado e garrido. As famílias que ali moravam começavam a jantar e eu, sozinho, continuava à espera que o meu colega chegasse. Dei-me conta de que, instintivamente, imaginara a vida de todas aquelas pessoas duma forma estereotipada. Para mim, todas as famílias que ali moravam eram compostas por um casal e um ou dois filhos, com a mulher de avental e o marido a chegar a casa um pouco depois dela, já com o jantar na mesa. Todos discutiam os temas habituais do dia-a-dia, como o tempo, o electrodoméstico avariado, o trabalho e/ou os estudos dos filhos. 
O meu colega acabou por não aparecer e eu, sem perceber exactamente como, fiquei ali até os edifícios se confundirem com o céu agora já escuro e cada uma das minhas famílias estereotipadas adormecer. A verdade é que não dei pelo tempo a passar.

Na noite seguinte saí com alguns amigos e fui ao Bar nocturno Clepsidra, ou “Clep” como lhe chamávamos habitualmente e que era frequentada maioritariamente por estudantes ligados às Repúblicas e ao movimento associativo. Eu gostava muito de lá ir e hoje sei que foi uma das melhores escolas de vida que frequentei. Era um local calmo o suficiente para se poder ter uma conversa (com gente bem educada, culta e inteligente) e movimentado quanto baste para não nos sentirmos isolados. Quando me desloquei ao balcão, para pedir a segunda cerveja, uma mulher - bem mais velha do que eu - e que estava noutra mesa levantou-se e veio ter comigo. Perguntou-me se tinha sido eu a passar a noite anterior inteira sentado na escadaria de S. Tiago que dava para a janela dela. Que sim, respondi, e expliquei-lhe a história toda.

Também ela me tinha visto da mesma forma estereotipada!
Estando eu ali, toda a noite sozinho e sentado ao lado da Igreja, só podia estar apaixonado por alguém que não me ligava nenhuma. Estaria numa de sofrimento, à espera que um milagre se desse e a minha paixão viesse à janela.
- Estava só à espera dum colega que não apareceu... - disse-lhe.
Eu e a Luísa, pois era assim que se chamava, ficámos amigos. Provavelmente, e digo isto sem certezas, vivemos uma amizade tão intensa quanto incomum. Sei que sempre que entrei na casa dela pensei em como a minha percepção da vida naqueles edifícios da Praça do Comércio tinha sido errada. Agora com a visão perceptiva obtida a partir do interior de um deles...
Quanto mais não seja, a Luísa mostrou-me isso, dando-me essa oportunidade. Como eu lhe agradeço e como eu gostaria de lhe retribuir todo o bem que me fez nesse período!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Uma nova(!?) e revolucionária tecnologia!!!

Quem me conhece sabe que sou um adepto confesso das novas tecnologias embora com a aprendizagem limitada ao comum dos cidadãos. Aprendo com elas utilizando-as e pesquisando-as permanentemente para ir ultrapassando as dificuldades que vão surgindo.
No entanto, esta que deixo hoje aqui é sem dúvida uma das mais impressionantes de todas :-) 
Nunca a dispensarei!


Nota:
A propósito de livros. 
Como eu gostaria de juntar todos os livros que já li (e não sei por onde andam) aos muitos que ainda possuo actualmente e a todos aqueles que gostaria de comprar e de ler no futuro! Tê-los aqui no escritório cá de casa, bem junto de mim, à mão de semear e fazer deste espaço uma biblioteca forrada a estantes de cima a baixo. Assim, cercado e perdido encontraria, em cada um deles, momentos de prazer e felicidade.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Reflexões nestes dias de pasmaceira...

Dias e dias de chuva ininterrupta e eu aqui encurralado entre as quatro paredes do escritório. Há semanas e semanas que é assim. Vou matando o meu tempo entre leituras, pesquisa de notícias on line, xadrez no Yahoo games, un coup d'yeux pelas redes sociais e alimentando o meu blogue neste ambiente propício a grandes reflexões e a pequenas introspecções. Digo pequenas porque as sinapses dos poucos neurónios que me restam já são feitas com pouca actividade e a pequenas rotações.
No entanto, desde que me aposentei em Julho do ano passado, estou mais dado a estes momentos de auto-análise e com a necessidade de procurar incessantemente por um objectivo que abrande este isolamento que me oprime de mansinho e que dê um sentido para o resto da minha vida. Não há nada pior do que sentir-me desnecessário, descartável ou um inútil.
Agora, só saio de casa para ir ao supermercado ou para comprar jornais e acabo por passar sempre pelos mesmos sítios, ver as mesmas pessoas, um olá e pouco mais e instintivamente regresso à minha toca, onde ninguém me enfada nem aborrece com palavras de circunstância ou com conversas banais. Felizmente, e para amenizar um pouco tudo isto, tenho um grupo de amigos com quem tomo café às quartas-feiras e vou, de vez em quando, dando umas passeatas gastronómicas por todo o Norte e Centro de Portugal.
Voltando ao tempo. Este tempo de chuva e vento. Já é demais! Não vejo o dia em que possa regressar às minhas corridinhas no passadiço à beira-mar, ou dar umas voltas de bicicleta, sem pressa, a apreciar a paisagem, os sons e os aromas da natureza, parar num local mais elevado e ficar em êxtase com o olhar perdido no infinito ou na linha que separa o mar do céu, enquanto as gaivotas esvoaçam à minha volta.
Tenho saudades de chegar ao fim do dia cansado mas feliz e com a cabeça limpa de tanta bagunça que aqui se acumula nestes dias de pasmaceira.

Assim, não há outro remédio que não seja aguentar e aguardar melhores dias, mesmo com as negras perspectivas de ver a magra pensão ainda mais esbulhada por essa cambada de biltres que outra coisa não faz senão ir ao bolso daqueles que, como eu, não têm  fuga possível.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Feira do Fumeiro de Vinhais 2014

Aqui está uma excelente iniciativa da Câmara Municipal de Vinhais que organiza a famosa feira do fumeiro a decorrer já a partir de amanhã e até Domingo.
É uma diligência duplamente feliz. Para além de promover a edição deste ano da Feira dá também a oportunidade a um grupo de jovens naturais da vila de Vinhais de demonstrarem todo o seu talento e criatividade.
O grupo aproveitou (e brilhou) com a realização deste vídeo que ficou muito divertido e actual, pois recria o recente tema "Wrecking Ball", da cantora Miley Cyrus. 

Ora vejam… 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A selecção que derrotou Portugal!

.... e ainda faltam os suplentes !!!

(Clique na imagem se os quer ver melhor )

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Germana Tânger diz "Aniversário", de Fernando Pessoa

A propósito de uma troca de mensagens com um velho amigo de Santa Comba da Vilariça e numa das partilhas com que ele me distinguiu no meu mural do facebook, lembrei-me de como é efémera esta nossa vida. 
Ao ver-me (ainda com cabelo :-) e com o fulgor e as ilusões dos meus 34 anos de idade) no vídeo que ele me enviou, respondi-lhe: “Aqui (neste tempo) ainda estávamos na primeira metade da vida e passávamos o tempo a desejar a segunda! Agora que já estamos no fim da segunda, passamos o tempo a recordar a primeira, com receio da terceira que está à porta!”.
Aproveitei ainda para citar Gabriel Garcia Marquez: “Recordar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração”.

Voltando a este tema, aqui e agora, dou comigo a pensar que muitas vezes lutamos entre o recordar e o sobreviver ao presente. Muitas vezes vivemos entre a saudade dos abraços daqueles que já não regressam… entre as saudades dos abraços que tardam e daqueles que esperamos no virar do dia… das saudades do abraço que demos e, sobretudo, saudades daqueles que ainda temos para dar aos que vivem na memória e àqueles que vivem no nosso coração…

Aqui a Germana Tânger dá um toque especial em tudo isto.