Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


quinta-feira, 13 de março de 2014

Há dias em que me sinto um passarinho!

Sócrates, Relvas, Portas, Coelhos e outros animais desta selva...


Há dias em que (mesmo que queiras) não os esqueces! 
Nem as promessas destes jotinhas tão "ternurentos" 
que fazem ao eleitorado tantas preces...

E... no “poleiro” do poder logo esquecem
esse ardor da campanha no baú dos esquecimentos. 

Passam enfim a olhar para ti com desdém
na vida passas a ser um empecilho…
porque será que a vida tem 
tantos filhos da (…) mãe,
a quem a mãe chama filho?

terça-feira, 11 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (III)

No ninho, formado por um pequeno desaterro escavado até à altura de um homem de estatura média, tinham sido colocados sacos de pedras e de areia. Havia três caixas de munições empilhadas a um canto, duas peças pesadas caídas assim como algumas ligaduras espalhadas pelo chão. Num dos lados estava um corpo de um soldado inimigo ainda agarrado a um dos morteiros, que tinha sido atingido quase em cheio. Os sacos desse lado do ninho estavam deslocados e rebentados com o conteúdo espalhado à sua volta.

Ainda no decorrer da operação do dia anterior não pude deixar de reparar também como, no chão mole devido à chuva miudinha que caíra na noite anterior, umas pegadas de botas levavam a direcção do bosque na encosta que agora ficava por trás das nossas linhas. Segui as marcas no solo e, ainda antes de entrar no arvoredo, umas manchas de sangue num arbusto certificaram-me de que estava por ali alguém ferido. Talvez devido a estilhaços aquando da queda do morteiro que atingira o seu camarada. Digo eu, não sei. Ou talvez ainda antes, atingido por uma bala e na iminência da sorte do combate lhe ser desfavorável, tivessem feito com que ele se retirasse na esperança de atingir um local onde se sentisse mais seguro.
Fui avançando devagarinho, com extremo cuidado e todas as cautelas, a adrenalina a ferver nas veias, abrigando-me em cada árvore e em cada arbusto. Foi quando inesperadamente o vi… Quase de caras!
Senti o sangue gelar!
Imóvel e encostado a um tronco, a sangrar, debilitado, estava como que esperando por mim. Nem dera quase por ele, poderia perfeitamente ter-me abatido, mas não...
Por detrás duma expressão assustada, de olhos escuros e a parte branca enorme e a brilhar, estava o que era ainda um jovem. Deve ter uns 16 ou 17 anos! - pensei. Apresentava um ar de cansaço e segurava a arma apontada na minha direcção com as duas mãos junto à cintura e a coronha apoiada na árvore onde se encostara. 
Ordenou-me num português bantu para largar a minha. 
Respondi-lhe que estava detido, que as nossas forças tinham tomado as suas posições e que agora era meu prisioneiro.
Umas lágrimas espreitaram-lhe aos olhos ao mesmo tempo que denunciava na respiração ofegante o tremor que lhe tomava o corpo. Eu estava numa ansiedade enorme e em grande tensão mas consegui dizer-lhe para ter calma e que não lhe íamos fazer mal. Que iria ser respeitado, alimentado e protegido como prisioneiro de guerra. Por um momento senti um alívio da tensão quando ele baixou a metralhadora e o olhar num gesto que me pareceu de rendição.

Avancei e foi então quando se deu o desfecho inesperado.

Dando-se conta de que me aproximava, levantou novamente a cabeça e voltou a apontar a arma, abrindo muito os olhos enquanto subia os braços para uma posição de ponto de mira e de dedo no gatilho. A boca a abrir-se como que a preparar-se para gritar muito alto…
(Continua...)

domingo, 9 de março de 2014

Ontem fui correr!

Ah… que bom! Como me senti bem em termos anímicos a percorrer os 12 quilómetros que separam o bar Atlântico, na praia de Valadares, até ao Bico do Cabedelo! Já fisicamente não poderei dizer o mesmo tendo em conta que vinha de um longo interregno nos treinos. Não corria, nem treinava, desde dia o 15 de Dezembro quando participei na São Silvestre do Porto 2013. Nesse dia fiz os 10 Kms no tempo líquido de 57 minutos e 53 segundos, o que para um cota de 60 anos não foi nada mau.

Voltando ao treino de ontem. Normalmente enquanto corro também penso. Tenho a mania de ir pensando nisto e naquilo, no tempo, no mar que me acompanha do lado esquerdo ou do lado direito conforme o sentido em que me desloco, na política, nestes políticos jotinhas que temos, no futebol, nos amigos (a maioria doentes do FCP), na família etc. etc.  

Ontem os meus pensamentos andaram mais ou menos a navegar assim:
Já não estudo. Já não trabalho. Apenas vou dirigindo os conhecimentos e a ocupação do meu tempo. Será pouco? Talvez. Mas às vezes dá cá um trabalho do... E sorri para mim próprio. Ou de mim? 

E continuei a pensar:
Na adolescência temos a mania que sabemos tudo;
Na casa dos vinte temos a certeza absoluta que sabemos tudo;
Na dos trinta começamos a ter uma ligeira dúvida sobre se sabemos tudo (menos os jotinhas);
Na casa dos quarenta apercebemo-nos de que se calhar não sabemos tudo (menos os jotinhas);
Aos cinquenta apercebemo-nos que não sabemos nada (menos os jotinhas);
Aos sessenta começamos a aprender (menos os jotinhas) e é o que estou a fazer.
E sorri também de mim para mim.

Por isso estou “autorizado” a pensar: O ano de 2014 vai ser terrível, com estes jotinhas que nos governam não podemos esperar grande coisa... não é verdade?
De facto, diminuir o vencimento dos funcionários públicos, as pensões e aumentar a ADSE, num sistema que está fechado, é (ou deveria ser) um crime.
Aqui neste ponto do meu pensamento cruzei-me com a Carmo da farmácia que me sorriu toda simpática e com o seu olhar cúmplice pareceu dizer-me: "Força amigo! Dá cabo aí desse colesterol que, como temos visto na farmácia, anda com tendências para subir de valor...". Bom, ela de facto, não o disse mas eu interpretei pela expressão do seu olhar que era isso que ela estava a pensar. 

Retomei o pensamento anterior e pensei: a culpa, no limite, é do estado português que transferiu abusivamente os fundos de pensões para equilibrarem o défice e continua a pagar pensões milionárias a bancários e a ex-políticos que vão passando pelas empresas que vivem à custa dos negócios com o estado. E quem paga é... bom aqui parei... já pensei vezes de mais nesta merda.

Ao passar em frente ao Restaurante Casa Branca, para além de pensar que foi aqui que fizemos a boda do meu casamento há 34 anos ainda desabafei para mim: Parece que foi ontem! Mas… é muito tempo, porra! 

No regresso, e ao passar pelo Ar d´Mar-Bar Esplanada, em Canide Norte, lembrei-me do meu cunhado falecido num brutal acidente de viação e do tempo, já longínquo, em que ele abriu e inaugurou este bar. O entusiasmo e a esperança no futuro com que ele o fez!!!
Aqui apeteceu-me ficar indignado. Pois, agora tenho tempo e acho que vale a pena indignar-me com tudo isto. É injusto morrer-se aos 35 anos e deixar um filho de cinco anos.

E... como fiquei mal disposto, não me importei de regressar ao tema anterior, que continua a indignar-me, e muito. Não sou jotinha, também não sou político, graças a Deus, e não tenho soluções para o problema português mas o que me apetece é dizer (neste caso pensar) mais uma vez: este governo é o cobardolas do costume, bate nos mais fracos, e naqueles que já não se podem defender nem sequer a fazer uma grevezita. Estes cobardolas esquecem-se que as reformas nos são devidas, descontámos mensalmente para elas ao longo de toda uma carreira; não são um bónus nem um agrado que nos fazem; é a verba que todos nós poupámos para o efeito. Até dá a ideia que esses governantes de merda aplicaram as nossas poupanças de reforma na bolsa e... perderam. O que eu acho é que, com isso, nos roubam as nossas reformas. Se, porém, as aplicaram indevidamente e a coisa correu mal, então prendam quem o fez, eram dinheiros que não lhes pertenciam, não tinham nada que lhes mexer. Ouviram???

E pronto passei de novo em frente à esplanada do Bar Atlântico e cheguei finalmente ao carro, estacionado próximo daí, onde a Amélia já me esperava. Abro a porta, sento-me e desabafo. Uff, cheguei!

sexta-feira, 7 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (II)

Cheio de vergonha, e com algum embargo na voz pelo nervosismo, passei então a ler o pequeno conto que escrevi baseado em grande parte nos acontecimentos contados, como sendo verídicos, pelo soldado António Branco ("marancha") e pelos seus camaradas de pelotão que vieram assistir ao funeral de um deles morto em combate na guerra colonial: 
O meu diário
Neste preciso instante em que escrevo estas palavras, que me servem de desabafo reconfortante, corro o sério risco de sofrer um castigo militar ou, no limite, de ser abatido por um “turra” inimigo. De facto, devia era estar mais concentrado na minha missão. Escrever é uma actividade que me apaixona mas que distrai, para o bem e para o mal, os meus sentidos. Ao escrever vou desabafando para diminuir o medo e os níveis de ansiedade mas... aumento os riscos de não cumprir com rigor o desempenho da minha missão.
São cinco e um quarto da manhã e há uma hora e quinze minutos que entrei no meu turno de vigilância aos sentinelas. Infelizmente já encontrei um soldado no seu posto a dormir de pé encostado à parede de terra e abraçado à sua G3! Vou ter de elaborar o auto desta ocorrência pois com a guerra não se brinca nem se pode facilitar.
Eu é que ainda não consegui conciliar um só minuto de sono durante toda a noite, mesmo antes de entrar de serviço.
À minha frente apenas vejo uns olhos castanhos que me perseguem por todo o lado. São iguais aos de Helena, a minha querida mulher que se encontra lá longe no continente e em Vila Flor, e com quem me casei quinze dias antes de ser enviado para a frente e entrar em combate.

Enquanto penso nela faço uma pequena pausa para perscrutar as trevas que uma lua em quarto crescente por trás dum céu esfarrapado de nuvens negras mal consegue iluminar. De repente pareceu-me ter ouvido um estampido mas afinal era apenas um pássaro preto (talvez um mocho) que, após ter capturado uma presa, passou a rasar o meu capacete rumo à mata situada no morro à minha retaguarda.

Ontem, ainda no refeitório enquanto tomávamos o pequeno-almoço, recebemos ordens para avançar em direcção às trincheiras que agora ocupamos. Durante o avanço tínhamos que tomar um ninho de metralhadoras que estava instalado no cume duma pequena elevação do terreno a partir de onde se dominava todo o vale. Uma cobertura de fogo de morteiro abriu alas e permitiu o nosso avanço mais ou menos seguro. Conseguimos esta nova posição sem qualquer baixa nem feridos da nossa parte.
Após a relativamente rápida tomada deste ponto de abrigo, passámos a fustigar as trincheiras inimigas que não tiveram outro remédio senão bater em retirada, o que nos facilitou o assalto final às suas posições anteriores.
O meu pelotão ficou com a incumbência de limpar o terreno, capturando armamento, anulando elementos inimigos, detendo-os com ordens de serem abatidos em caso de resistência...

(Continua...)

quarta-feira, 5 de março de 2014

Chove. Mais uma tarde de chuva. Já é demais! – digo eu.

Olha a novidade! Então não estamos no Inverno (?) e em tempo de chuva!!??- responde, de pronto, a Amélia no seu feitio rezingão.

Para serenar leio. Estou a ler o romance “Ernestina”, de J. Rentes de Carvalho, que a minha filha me ofereceu pelo meu aniversário. Nesta espécie de autobiografia o escritor viaja por terras de Trás-os-Montes, descrevendo paisagens, lugares, localidades e, sobretudo, o carácter das gentes transmontanas. Faz assim um retrato escrito num estilo directo e por vezes irónico de lugares e de um povo que tanto me diz.
Faço um intervalo. Provavelmente inspirado por esta leitura e, imbuído por esse espírito saudosista que por vezes me trai, fui rebuscar nas minhas memórias longínquas, dias também chuvosos e frios de outrora. Recordo esses dias e dias seguidos de chuva intensa que via cair encostado à porta de entrada do “soto”, como o meu pai chamava à pequena mercearia de aldeia que abriu num dos compartimentos da casa onde todos vivíamos. Essa porta dava para a rua principal da aldeia que fazia a ligação do Largo da Lameira até ao Largo do Eitão, os pontos nevrálgicos da aldeia. O primeiro porque ficava mesmo ao lado da Igreja (e da nossa casa), o segundo porque era aí que as pessoas socializavam, quer nas tabernas, quer ao lado e em frente da casa da escola.
Chamavam-lhe a rua Larga mas, naquele ponto em frente da nossa casa, tornava-se bastante estreita e muito inclinada pelo que nestes dias de chuva intensa mais parecia um pequeno ribeiro por onde eu via passar com admiração, espanto e algum temor, arrastados pela força da corrente, paus, lama, pedras a rolar, folhas e enormes quantidades de dejectos que os animais depositavam pelos caminhos e que normalmente eram apanhados à mão para servirem de fertilizante natural.
Ao fim de muitos dias de chuva sem parar vinham invariavelmente os prejuízos. Os charcos e ribeiros que extravasavam, os valados que ruíam, as bolsas de água acumuladas no subsolo que rebentavam e arrastavam tudo por onde passasse a violenta enxurrada, árvores que caíam, calhaus enormes que se desprendiam e rolavam encosta abaixo… Era tempo de esvaziar os palheiros para alimentar os animais e de consumir os proveitos acumulados no verão.
Mas de cheias não ouvíamos falar... Lá na minha terra onde vivi até aos sete anos de idade, situada nos confins do mundo, no lugar de Pinhal do Douro, Freguesia de Vilarinho da Castanheira, Concelho de Carrazeda de Ansiães, não havia disso e as notícias não se difundiam na hora como actualmente. Mesmo assim, havia um cuidado extremo com a limpeza dos cursos de água, nalguns casos por receio da força da lei imposta pelos então existentes (e sempre presentes) Guarda-Rios, e noutros em geral porque havia o sentimento de zelo que impelia as pessoas a se prevenirem e a demonstrarem um respeito absoluto pelas forças da natureza. Era inconcebível ousar obstruir os cursos naturais da água ou opor-se ao estabelecimento de pequenas valas por onde se desviavam as águas pluviais para não danificarem os caminhos, únicas vias de comunicação que existiam na época e de vital importância para as populações.

Contudo, os tempos mudaram e, como disse o poeta, as vontades também. A memória é curta e cometem-se atropelos ambientais de bradar aos céus. São esses atropelos que provocam muitos dos malefícios que ultimamente se têm feito sentir como consequência das fortes chuvadas.
Estranho é apenas o facto de em tão pouco tempo, mesmo tendo em conta a intensidade da chuva, do vento e das marés altíssimas, ocorrerem enchentes com tanta frequência nas margens dos rios e tantos estragos na orla marítima como as que se verificaram ultimamente.

E pronto… mais uma tarde de segunda-feira, deste início de Março, assim passada entre estas quatro paredes e com esta vontade, que por vezes me assalta, de baixar a persiana, apagar a luz e mergulhar no “baú” das minhas recordações: retornar à infância cada vez mais longínqua, rever a luz do dia como uma esperança que renasce, olhar o horizonte e sentir vontade de o ultrapassar para ver que vidas existiam do outro lado, percorrer caminhos que já se apagaram, relembrar amigos nunca mais encontrados, familiares já desaparecidos, paisagens alteradas… tanta coisa que parece nada mas que era toda uma vida cheia de ilusão, de fé e de confiança…

segunda-feira, 3 de março de 2014

Excerto do diário de estudante (I)

Vila Flor, Março de 1967.

Externato de Santa Luzia. Aula de Português com o Padre Cassiano Dimas Fais.
- Chega aqui Bernardino- diz ele!
Levanto-me da carteira dupla que dividia com o meu colega e amigo Amândio Tabuada Trigo, de Carvalho d´Egas, e subo o estrado colocando-me mesmo ao lado da secretária do professor que, entretanto, olhava completamente distraído para o bairro da Portela e para o Rossio que se viam perfeitamente através das rasgadas janelas daquela sala de aulas situada no segundo piso do edifício. Mantive-me assim por alguns minutos aguardando em silêncio. A cada minuto que passava o grau da minha impaciência aumentava exponencialmente. Este compasso de espera não é bom sinal - pensei para os meus botões.
Repentinamente ouço a sua voz grave e séria que me pergunta enquanto aponta com o dedo indicador para o meu caderno de capas pretas que ele tinha estado a ler: - Onde foste tu copiar esta estória? É que… não podes ter sido tu! É completamente impossível teres sido tu a escrever toda esta trama sozinho. Desde a construção das frases, ao enquadramento, ao contexto e mesmo o conteúdo do texto. Tudo está perfeito e bom de mais para um aluno cábula como tu!
Corei de vergonha e... de alegria. Sim. Fiquei completamente dividido. Mas o sentimento de revolta pela injustiça que me estava a ser praticada sobrepôs-se, naquele momento, à satisfação (e orgulho) pelo trabalho que tinha feito sozinho. Mesmo que o professor nunca acreditasse em mim e não me desse uma boa nota pelo menos ficava a satisfação interior de sentir que o trabalho que tinha efectuado com tanto prazer estava a ser avaliado desta forma tão positiva. Esta ambiguidade entre o prazer e a revolta criou em mim, naquele momento, um elevado estado de ansiedade.
- Eu pedi-vos que escrevessem uma história, um conto ou uma narrativa qualquer mas... que fossem completamente originais – continuou o professor.
- Mas o que eu escrevi é original! E meu, só meu! E escrevi-o com base nas narrativas que fui ouvindo aos soldados que regressaram do ultramar - respondi. 
- E então quando é que ouviste tudo isso?
- Sei lá... deixe cá ver... não foi só de uma vez... ouvi na Praça, na Avenida e também no velório do filho da senhora Laudomira “forneira” que mataram em Angola!
- Então (!?) e eles contaram-te tudo isso, a ti?... Assim, desta forma? - perguntou ele em tom irónico.
- Não me contaram especialmente a mim... eu fui ouvindo as conversas entre eles... partilhas de experiências de guerra vividas... uma e outra, aqui e ali, nesse dia e nos dias seguintes. Com base nessas histórias que fui ouvindo como intruso e à socapa acabei por construir e redigir todo esse enredo. Também com algumas coisas que inventei para condimentar tudo isso à minha maneira.

- Bom... bom... então lê lá o texto, que dizes ter escrito, em voz alta para os teus colegas o ouvirem bem. E virando-se para dois colegas meus que cochichavam entre si: "vocês ai atrás calem-se e ouçam com muita atenção pois irão ter de comentar no fim"!
(Continua)

sábado, 1 de março de 2014

Chove tanto! E há tanto vento!

Primeiro dia do mês de Março a fazer jus ao provérbio: "Em Março chove cada dia um pedaço". É mais uma manhã de sábado chuvosa e fria. 

Estou farto de tanta chuva. Chove tanto! 

“Vejo” os poucos cabelos que me restam ondular enquanto corro e fico preocupado. Penso continuar a correr e paro. Os pés ficam colados ao chão, enterrados na areia molhada que substitui as tábuas destruídas do passadiço e debato-me nesta luta interior. 

Tanto vento! Estou farto… 

Começo a derrapar na parte em que o piso é mais sólido mas com areia intrusa. Sinto as sapatilhas a caminhar quase de forma autónoma, primeiro devagarinho, depois a obrigar-me a deslizar, como se o passadiço fosse uma das passadeiras rolantes do Gaiashoping. Encosto-me a mim, agarro-me à linha do horizonte, seguro-me neste mar bravio e tento mentalmente contrariar esta tempestade. Os cabelos, já grisalhos e compridos lá atrás, agitam-se enquanto a testa alta, descapotável e enrugada sente o vento e a chuva a bater. O vento empurra-me o corpo para trás ao mesmo tempo que a areia e as folhas mais leves chocam e batem na cara. Esforço-me ainda mais, já me custa manter os pés na areia molhada que escorre… tudo me escapa dos pés como se o mar, que tudo destruiu por aqui, me quisesse levar também.

Chove tanto! E há tanto vento!

Na meia laranja da praia da Granja estou quase a desistir, sinto-me levado pelas escadas abaixo e arrastado pelas águas salgadas em ondas revoltas como um estudante ébrio, e em praxe, na praia do Meco.

Insisto… mas continuo a levar com água na cara e com a areia empurradas pelo vento.

Até que, num momento de maior fragilidade, desisto. Falham-me as pernas e caio de joelhos na areia molhada, como Jesus no Dragão. 

E vejo Espinho lá longe… cada vez mais longe…

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Excerto do diário de estudante.

Nota prévia:
Muitas das pessoas que gostam de escrever dizem que o fazem porque escrever é uma forma de falar sem ser interrompido ou de gritar em silêncio.
Para mim é também um pouco de tudo isso. Normalmente o que escrevo vai tomando forma a partir de momentos que sinto interiormente ou então de outros que vou registando do exterior porque prenderam a minha atenção. Alguns têm a ver directamente comigo, outros passaram, ou passam, por mim e há aqueles que fazem parte integrante de mim pertencendo ao meu passado ou ao meu presente.

Foi dentro destes pressupostos que criei o blogue raxalebre onde fiz, de forma simples e retrospectiva, uma síntese da minha vida profissional e dos contextos em que se foi desenvolvendo. Fui assim guardando memórias que, de certa forma, me ajudaram, ao procurá-las no meu passado, a reviver os factos e os incidentes que mais me marcaram e me serviram de inspiração, para, permanentemente, me tornar um ser humano cada vez melhor.
Julgo que, pelo menos em parte, a missão foi cumprida. Por isso mesmo encerrei esse blogue e segui em frente.

Durante a curta “vida” deste vyla penedo procurei (e procuro) divulgar ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considero interessante em cada momento do meu dia a dia.
Agora, já aposentado, uma das minhas principais ocupações, para além de vagabundear junto ao mar, é dar liberdade ao meu pensamento e, assim, ir alimentando este blogue com os objectivos atrás descritos ao mesmo tempo que grito em silêncio e falo sem ser interrompido :-)

Neste contexto, e num daqueles momentos de introspecção enquanto passeava à beira-mar, senti a necessidade de narrar um acontecimento que me marcou profundamente e me tem acompanhado praticamente a vida inteira. Ele ocorreu quando eu tinha apenas 14 anos de idade e ficou para sempre inscrito no meu diário de estudante. Irei aqui deixá-lo "partido" em pequenos textos para leitura mais fácil e descontraída. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

I Will Survive

Também eu vou ter que sobreviver! Hey, hey
Mas é preciso toda a força para não me deixar abater por este tempo de frio, de vento e de chuva que me impedem de correr no passadiço entretanto destruído pela força das ondas deste mar bravio e revoltado, talvez com os governantes desprezíveis que controlam e destroem este país.
Como tenho uma vida para viver... vou lendo, escrevendo e ouvindo nostalgicamente esta música que me conforta...
.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Empobrecimento...


O vídeo limita-se a retratar um processo que está a acontecer lentamente, fruto  de um plano servido a conta-gotas para minimizar eventuais reacções.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Para mim chega! Basta! Este governo, é um governo fora da lei!

Já tive a oportunidade de aqui referir que sinto o dever cívico de reclamar, desabafar e denunciar as malfeitorias com que os nossos governantes vão permanentemente presenteando o povo que supostamente deveriam defender.

Hoje vou acrescentar mais uns pozinhos... para aliviar o stress.

De facto, já me cansa ouvir os argumentos apresentados pelo chefe dos ladrões Passos Coelho e do resto do bando, bem como da corte de engraxadores e de lacaios que vão enchendo a comunicação social, com o seu estafado argumento em defesa da economia e do estado português, baseado no empobrecimento do povo, que enganaram com promessas eleitorais mentirosas, optando pela defesa das finanças da Alemanha da senhora Merkl.
De súbito, estes palhaços de feira que nos desgovernam “descobriram” que nós os portugueses honestos, trabalhadores e aposentados somos os principais responsáveis da crise e que temos de a pagar… civilizadamente,  com um elevado espírito cívico, sofrendo  e calando.

Decidiram ainda que as classes médias estavam a viver acima das suas possibilidades e, em consequência, há que despedir, cortar salários, regalias e direitos do chamado Estado Social.
A calamidade a que estão a conduzir o nosso país, que a partir de agora se poderia passar a chamar de Merkltugal, não tem argumentação possível. 

Para mim chega! Basta! 

Não mais vou ouvir este aldrabão do Coelho e de qualquer outro elemento do seu gang, esgotou-se a minha capacidade de ouvir qualquer tipo de argumentação destes canalhas.
Declaro-me a partir de hoje em desobediência civil enquanto esta gentalha se mantiver no governo. Este governo ilegítimo e ilegal, quanto mais não seja pelo facto de ser um governo fora da lei, considerando que insiste em governar contra a lei fundamental de Portugal a Constituição da República. Não devemos esquecer o que aconteceu com o orçamento de 2012, quando algumas das medidas orçamentais foram consideradas ilegais, embora tivessem sido deixadas passar, por razões que o Tribunal Constitucional considerou poderem ser aceites. Também não devemos esquecer as medidas do orçamento de estado para 2013 e, mais recentemente, para 2014 que o Tribunal Constitucional chumbou e a forma manhosa e ardilosa como este governo as contornou de forma a vir, ainda assim, roubar os poucos proveitos que a classe média ainda vinha tendo.

Este governo é assim um governo fora da lei!
Ao reincidirem no mesmo crime, estes políticos vendedores de "banha da cobra" de meia tigela deviam ser presos ou, no mínimo, expulsos e escorraçados do governo pelo Tribunal Constitucional e/ou pelo Presidente da República... se o tivéssemos realmente.

Banido em definitivo da cena política devia ser não só o boy Coelho como também o seu apêndice político o Paulinho das “feiras” (ou dos submarinos?). Este político, malabarista das feiras e hipnotizador de reformados e aposentados, para além de ter sido um dos principais responsáveis pela estranha, incompreensível e inexplicável aquisição de submarinos, não faz mais nada do que tentar passar a imagem de alguém que estando não está, assina acordos com a gentalha do governo mas finge que não gosta e aparece chorando lágrimas de crocodilo, para salvaguardar a sua posição nas eleições que se aproximam.

P.S. A propósito de submarinos, soube-se agora que a sociedade que assessorou o consórcio alemão na venda dos submarinos a Portugal, transferiu 20,2 milhões (em luvas) para contas secretas. Quem embolsou estes milhões? Quem os vai pagar? Ninguém investiga?

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Percepção estereotipada da vida...

Ainda estudava em Coimbra no início da década de 70 do Século passado.
Nessa noite, já depois do jantar, saí do meu quarto alugado nas águas furtadas, do nº 9, da Rua Ferreira Borges. Atravessei a rua e sentei-me na escadaria que dá acesso à Praça do Comércio, mesmo ao lado da Igreja de S. Tiago.

Aí fiquei sentado enquanto aguardava a chegada dum colega meu, o Carrelo, que ficou de se encontrar comigo. À minha frente estendiam-se os bonitos e característicos prédios que circundavam a Praça. Apreciei cada um deles e reparei que quase todos tinham entre cinco e seis andares, eram relativamente semelhantes na sua estrutura e pareciam alinhados em círculo para admirar a Lua cheia que surgira bem lá no alto do céu, mas que parecia estar alinhada e apontada mesmo ao centro da Praça, que iluminava. Das ruas estreitinhas, que via mesmo em frente (Rua Adelino da Veiga e Rua das Azeiteiras) e que também desembocavam na Praça, não havia quase nenhum movimento de pessoas, ao contrário daquilo que acontecia nas minhas costas por onde passavam, aos pares e em pequenos grupos, fazendo as habituais piscinas (passeio de ida e volta) na Ferreira Borges, ou se deslocavam, enquanto conversavam e viam as montras, aproveitando o bom tempo que se fazia sentir nesse mês de Maio, para a Igreja de Santa Cruz onde iam rezar e assistir ao mês de Maria.

Enquanto os prédios olhavam para a Lua, eu olhava para eles. As luzes interiores davam sinais de vida a um ritmo lento e, das janelas mais baixas, era possível ouvir alguns sons domésticos. Numa ou noutra varanda de ferro trabalhado e bordado viam-se pequenos vasos com flores de sardinheira que lhes davam um colorido diversificado e garrido. As famílias que ali moravam começavam a jantar e eu, sozinho, continuava à espera que o meu colega chegasse. Dei-me conta de que, instintivamente, imaginara a vida de todas aquelas pessoas duma forma estereotipada. Para mim, todas as famílias que ali moravam eram compostas por um casal e um ou dois filhos, com a mulher de avental e o marido a chegar a casa um pouco depois dela, já com o jantar na mesa. Todos discutiam os temas habituais do dia-a-dia, como o tempo, o electrodoméstico avariado, o trabalho e/ou os estudos dos filhos. 
O meu colega acabou por não aparecer e eu, sem perceber exactamente como, fiquei ali até os edifícios se confundirem com o céu agora já escuro e cada uma das minhas famílias estereotipadas adormecer. A verdade é que não dei pelo tempo a passar.

Na noite seguinte saí com alguns amigos e fui ao Bar nocturno Clepsidra, ou “Clep” como lhe chamávamos habitualmente e que era frequentada maioritariamente por estudantes ligados às Repúblicas e ao movimento associativo. Eu gostava muito de lá ir e hoje sei que foi uma das melhores escolas de vida que frequentei. Era um local calmo o suficiente para se poder ter uma conversa (com gente bem educada, culta e inteligente) e movimentado quanto baste para não nos sentirmos isolados. Quando me desloquei ao balcão, para pedir a segunda cerveja, uma mulher - bem mais velha do que eu - e que estava noutra mesa levantou-se e veio ter comigo. Perguntou-me se tinha sido eu a passar a noite anterior inteira sentado na escadaria de S. Tiago que dava para a janela dela. Que sim, respondi, e expliquei-lhe a história toda.

Também ela me tinha visto da mesma forma estereotipada!
Estando eu ali, toda a noite sozinho e sentado ao lado da Igreja, só podia estar apaixonado por alguém que não me ligava nenhuma. Estaria numa de sofrimento, à espera que um milagre se desse e a minha paixão viesse à janela.
- Estava só à espera dum colega que não apareceu... - disse-lhe.
Eu e a Luísa, pois era assim que se chamava, ficámos amigos. Provavelmente, e digo isto sem certezas, vivemos uma amizade tão intensa quanto incomum. Sei que sempre que entrei na casa dela pensei em como a minha percepção da vida naqueles edifícios da Praça do Comércio tinha sido errada. Agora com a visão perceptiva obtida a partir do interior de um deles...
Quanto mais não seja, a Luísa mostrou-me isso, dando-me essa oportunidade. Como eu lhe agradeço e como eu gostaria de lhe retribuir todo o bem que me fez nesse período!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Uma nova(!?) e revolucionária tecnologia!!!

Quem me conhece sabe que sou um adepto confesso das novas tecnologias embora com a aprendizagem limitada ao comum dos cidadãos. Aprendo com elas utilizando-as e pesquisando-as permanentemente para ir ultrapassando as dificuldades que vão surgindo.
No entanto, esta que deixo hoje aqui é sem dúvida uma das mais impressionantes de todas :-) 
Nunca a dispensarei!


Nota:
A propósito de livros. 
Como eu gostaria de juntar todos os livros que já li (e não sei por onde andam) aos muitos que ainda possuo actualmente e a todos aqueles que gostaria de comprar e de ler no futuro! Tê-los aqui no escritório cá de casa, bem junto de mim, à mão de semear e fazer deste espaço uma biblioteca forrada a estantes de cima a baixo. Assim, cercado e perdido encontraria, em cada um deles, momentos de prazer e felicidade.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Reflexões nestes dias de pasmaceira...

Dias e dias de chuva ininterrupta e eu aqui encurralado entre as quatro paredes do escritório. Há semanas e semanas que é assim. Vou matando o meu tempo entre leituras, pesquisa de notícias on line, xadrez no Yahoo games, un coup d'yeux pelas redes sociais e alimentando o meu blogue neste ambiente propício a grandes reflexões e a pequenas introspecções. Digo pequenas porque as sinapses dos poucos neurónios que me restam já são feitas com pouca actividade e a pequenas rotações.
No entanto, desde que me aposentei em Julho do ano passado, estou mais dado a estes momentos de auto-análise e com a necessidade de procurar incessantemente por um objectivo que abrande este isolamento que me oprime de mansinho e que dê um sentido para o resto da minha vida. Não há nada pior do que sentir-me desnecessário, descartável ou um inútil.
Agora, só saio de casa para ir ao supermercado ou para comprar jornais e acabo por passar sempre pelos mesmos sítios, ver as mesmas pessoas, um olá e pouco mais e instintivamente regresso à minha toca, onde ninguém me enfada nem aborrece com palavras de circunstância ou com conversas banais. Felizmente, e para amenizar um pouco tudo isto, tenho um grupo de amigos com quem tomo café às quartas-feiras e vou, de vez em quando, dando umas passeatas gastronómicas por todo o Norte e Centro de Portugal.
Voltando ao tempo. Este tempo de chuva e vento. Já é demais! Não vejo o dia em que possa regressar às minhas corridinhas no passadiço à beira-mar, ou dar umas voltas de bicicleta, sem pressa, a apreciar a paisagem, os sons e os aromas da natureza, parar num local mais elevado e ficar em êxtase com o olhar perdido no infinito ou na linha que separa o mar do céu, enquanto as gaivotas esvoaçam à minha volta.
Tenho saudades de chegar ao fim do dia cansado mas feliz e com a cabeça limpa de tanta bagunça que aqui se acumula nestes dias de pasmaceira.

Assim, não há outro remédio que não seja aguentar e aguardar melhores dias, mesmo com as negras perspectivas de ver a magra pensão ainda mais esbulhada por essa cambada de biltres que outra coisa não faz senão ir ao bolso daqueles que, como eu, não têm  fuga possível.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Feira do Fumeiro de Vinhais 2014

Aqui está uma excelente iniciativa da Câmara Municipal de Vinhais que organiza a famosa feira do fumeiro a decorrer já a partir de amanhã e até Domingo.
É uma diligência duplamente feliz. Para além de promover a edição deste ano da Feira dá também a oportunidade a um grupo de jovens naturais da vila de Vinhais de demonstrarem todo o seu talento e criatividade.
O grupo aproveitou (e brilhou) com a realização deste vídeo que ficou muito divertido e actual, pois recria o recente tema "Wrecking Ball", da cantora Miley Cyrus. 

Ora vejam… 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A selecção que derrotou Portugal!

.... e ainda faltam os suplentes !!!

(Clique na imagem se os quer ver melhor )

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Germana Tânger diz "Aniversário", de Fernando Pessoa

A propósito de uma troca de mensagens com um velho amigo de Santa Comba da Vilariça e numa das partilhas com que ele me distinguiu no meu mural do facebook, lembrei-me de como é efémera esta nossa vida. 
Ao ver-me (ainda com cabelo :-) e com o fulgor e as ilusões dos meus 34 anos de idade) no vídeo que ele me enviou, respondi-lhe: “Aqui (neste tempo) ainda estávamos na primeira metade da vida e passávamos o tempo a desejar a segunda! Agora que já estamos no fim da segunda, passamos o tempo a recordar a primeira, com receio da terceira que está à porta!”.
Aproveitei ainda para citar Gabriel Garcia Marquez: “Recordar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração”.

Voltando a este tema, aqui e agora, dou comigo a pensar que muitas vezes lutamos entre o recordar e o sobreviver ao presente. Muitas vezes vivemos entre a saudade dos abraços daqueles que já não regressam… entre as saudades dos abraços que tardam e daqueles que esperamos no virar do dia… das saudades do abraço que demos e, sobretudo, saudades daqueles que ainda temos para dar aos que vivem na memória e àqueles que vivem no nosso coração…

Aqui a Germana Tânger dá um toque especial em tudo isto.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Lagos Algarve

Passadiço (Aguda-Espinho-Aguda) - VII


Não sei porque em ti corro 
e te percorro…
Talvez pela beleza que te envolve
e alimenta os meus sonhos…
Ou se é por aqui queimar as calorias
que me abrasam as entranhas…
Sei que a chama que aqui vibra nos meus olhos
me ilumina este caminho alucinante…

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no momento por que luto
nasço
Mia Couto
Setembro 1977

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Cogitações à beira-mar...

Há cerca de um mês que não fazia a minha habitual corridinha de 10 km (Aguda-Espinho-Aguda). Sentia-me algo perdido dentro de mim e com sentimentos de culpa.

Depois de deixar a Amélia Joaquina no ginásio, fui sentar-me num dos dois bancos que se encontram encostados à parede da lota virada para o molhe da Aguda. O Sol, aquela hora, descia rapidamente pousando nas águas lá na linha do horizonte. Não havia vento. Quase não havia brisa. As redes, que os pescadores arranjavam, ondulavam devagarinho e as gaivotas levantavam voo, ouvindo-se perfeitamente o bater das suas asas. Parece que queriam livrar-se dos homens e das suas manias, voando e fugindo das objectivas das máquinas fotográficas que as perseguiam. Voavam de forma errante parecia-me, mas talvez com sentido para elas. As aves não voam só porque lhes apetece. Voam para fugir dali, voam para ir a qualquer lado, e o problema é meu se não lhes entendo o sentido do voo.

Deixei assim fluir os meus pensamentos, deixei-os voar com as gaivotas. Bater asas com elas. Livre. Como se as minhas ideias também sentissem o ar e se afastassem do chão. 
E quase adormeci nesse pensamento...
 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Natal dos Simples - José Afonso



Hoje evoco aqui o saudoso Zeca Afonso e, simultaneamente, uma antiga tradição: “as Janeiras”.
Recordo-me que, ainda miúdo, ia cantar as Janeiras juntamente com um grupo de amigos nos primeiros dias do mês de Janeiro. Por regra, levava uma pandeireta pois não tinha muito boa voz. 
Normalmente íamos cantar a casa dos vizinhos e às casas das ruas mais próximas. De um modo geral, eramos bem recebidos pelas pessoas visitadas que assim colaboravam na manutenção desta tradição. Para além de nos desejarem a todos um bom ano ofereciam-nos alheiras, salpicões, chouriças, filhoses e “bôlas” de azeite, à boa maneira transmontana.
Nós correspondíamos às pessoas que nos recebiam bem, mais ou menos assim:
Esta casa é tão alta
é forrada de papelão
aos senhores que cá moram
Deus lhe dê a salvação...

E aos (poucos) que não colaboravam cantávamos desta forma:

Esta casa é tão alta
é forrada de madeira
aos senhores que cá moram
Deus lhe dê uma caganeira… 
:-)

sábado, 11 de janeiro de 2014

UHF - Vernáculo

Dois amigos de longa data enviaram-me, por email, este vídeo arrebatador. 
Veio mesmo a calhar! Ele está na minha "onda" e vem dar uma sequência lógica ao teor e conteúdo dos últimos três posts deste blogue. Mas, evidentemente, está apresentada numa versão melhorada e elevada a uma qualidade de intervenção superlativa.



Aproveito-o, deixando-o aqui por tudo isso mas também porque ele é emocionante, actual, importante (pelo momento que se vive) e muito bem conseguido. É, de facto, um excelente trabalho dos UHF- o melhor para mim. 
Mostra-nos como a música pode e deve ser usada em tempos de crise social e política. 
Por analogia, fez-me lembrar a música de intervenção do Zeca Afonso e do Sérgio Godinho, bem como dos poemas de Ary dos Santos e da grande Natália Correia, que tiveram um papel fundamental para o “despertar” da mentalidade democrática de muitos jovens da minha geração.
Estas palavras, assim ditas e cantadas, são como que um grito de revolta num tempo e num País cujo povo está acomodado, submisso e resignado a esta escravidão que nos é imposta pela toika estrangeira e pela troika nacional (como diz, com graça, Jerónimo de Sousa).

É a esse grito de revolta que eu me associo! 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Reparem agora neste...



Palavras para quê? É um "artista" português...


Ou um palhaço português?