Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXXIII)

Zeferino empreendeu esta caminhada na certeza de que iria chegar a bom porto, munido do propósito firme de fazer a viagem sozinho e à sua conta e risco.
Pelas últimas e excelentes experiências que viveu sentia-se optimista e, assim animado, acelerou o passo para entrar na carruagem do comboio que lhe pareceu a mais vazia. Já algo cansado da pesada mochila que levava às costas encontrou um enorme e confortável banco só para si, onde se acomodou e sentiu que poderia descansar.
Ficou então imerso nos seus pensamentos e num estado de alma ambíguo e impreciso que não conseguiria descrever ou exprimir por palavras. Por um lado sentia-se triste por estar a chegar ao fim da caminhada e por outro sentia uma enorme e exultante alegria por tudo o que tinha acabado de viver.
Ora sentado, ora deitado no banco comprido com a cabeça pousada na mochila, ora levantando-se para desentorpecer as pernas, ia consumindo os quilómetros e a distância do caminho que lhe faltava percorrer.
Viajava praticamente sozinho na carruagem e, tendo encontrado um jornal espanhol abandonado num dos bancos, entreteve-se a ler as notícias que mais lhe prenderam a atenção, ao mesmo tempo que praticava a sua leitura em língua espanhola.
Ficou por exemplo a saber que Julio Iglésias se havia casado no dia 20 de Janeiro desse mesmo ano, em Toledo (Espanha), com Isabel Preysler Arrastria, que tinham passado a lua-de-mel nas Canárias e... que iria participar no Festival da Eurovisão com a canção Gwendolyne.
Leu ainda que o Grande Prémio de Fórmula 1 se havia disputado no circuito urbano de Montjuich, em Barcelona,  3 dias antes, a 18 de Abril de 1971. O vencedor tinha sido Jackie Stewart no seu Tyrrell. 
Na Guerra da Independência do Bangladesh, lutava-se ferozmente e diariamente eram violadas dezenas e dezenas de mulheres.
Depois de ler, deitou-se mais uma vez ao comprido no banco e o seu pensamento viajou mais rápido do que o comboio e... estacionou em Vila Flor. 
Mal aí chegou, ficou ainda mais triste. Descodificar as causas dessa tristeza era entrar nos obscuros labirintos duma análise tão real quanto inverosímil do mundo que aí o rodeava. Uma enorme indignação o invadiu de tal modo que nenhuma revolta o podia apaziguar… 
Considerava-se um rapaz pacato e globalmente bem comportado. Por isso não compreendia, nem aceitava, as alegadas razões pelas quais tinha sido castigado tão duramente (três dias de suspensão das actividades lectivas) pelo Director do Externato de Santa Luzia de Vila Flor que frequentava.  
O incidente tinha acontecido na tarde do sábado que antecedeu o final do 2º período desse ano lectivo. A música de um gira-discos animava os cinco ou seis pares que dançavam na sede do Vila Flor Spor Clube. O seu par tinha ido embora momentos antes com receio de que o pai descobrisse onde ela estava e o que andava a fazer. Encontrava-se, naquele momento, no passeio junto da porta de entrada da Sede quando, de repente, viu passar na rua que subia uma bela rapariga de largas ancas e fartos peitos, com andar decidido e mais velha aí uns quatro ou cinco anos do que ele. Não resistiu a mandar-lhe uns piropos. Sem a ofender, antes pelo contrário, para a galantear disse-lhe qualquer coisa como isto: - tens uma avançada melhor do que a do Benfica! És muito jeitosa! Queres vir dançar comigo?
Ela olhou para Zeferino e respondeu: - És um malandreco! Pensas que não te conheço? Pensas que engatas as raparigas todas? Vou já dizer ao Senhor Padre!
Ele não sabia mas o Lelo Pinto, que estava a seu lado, logo o avisou que aquela rapariga era a empregada doméstica do padre Cassiano Dimas Fais, que era também o Director do Externato.
- Mau, mau, então estou feito! Pensou Zeferino.
Nessa mesma noite por volta da hora do jantar, apareceu em casa dos seus pais uma patrulha da GNR(!) acompanhada pelo sacristão(!) dizendo ao pai de Zeferino para irem, sem demoras, a casa do padre.
Pelo caminho Zeferino disse a seu pai que sabia a razão pela qual lá iam. E contou-lhe o incidente dessa tarde em que eu tinha mandado uns piropos à criada do padre. 
Logo que entraram para o escritório do Padre este mandou sentar o seu pai numa cadeira que ficava ao seu lado direito, mas num plano inferior ao seu.
A Zeferino mandou-o ficar de pé e sem grandes rodeios, virando-se directamente para o seu pai, sentenciou:
-Pois aqui o seu filho tratou mal a minha criada que é para mim como da família! Deve educar melhor os seus filhos!
Depois, virando-se para Zeferino: Vais ter que lhe pedir desculpa!
- Eu!? Porquê? Que lhe fiz? - respondeu o assarapantado Zeferino
- Então não te meteste com ela dizendo que era "boa como o milho"?
- Não foi bem esse isso... não utilizei esses termos nem essa expressão. Mas era minha intenção gabá-la, elogiá-la e convidá-la para dançar.
- Com a minha criada ninguém se mete! Ouviste?
- Mas… se eu soubesse que era sua criada, mesmo sem a ter ofendido, nada lhe teria dito!
- Não quero saber! Vamos … pede-lhe desculpa! Já!!! Apontando o dedo indicador para a empregada, que entretanto também tinha entrado, ao mesmo tempo que o olhava de lado.
Zeferino olhou para a rapariga, que tinha visto pela primeira vez nessa mesma tarde, e perguntou-lhe- Eu ofendi-te? Fiz-te algum mal? Prejudiquei-te? Diz a verdade!
Ela olhou para o padre, baixou de novo os seus grandes, lindos e tristes olhos para o chão e... não respondeu.
Mas o padre não desistiu insistindo: - Tens que lhe pedir desculpa! Vamos, pede!
Zeferino, a tremer de revolta, virou-se para seu pai e suplicou: - Pai, vamos embora daqui - nós não merecemos esta humilhação!
- Filho, pede desculpa e vamos embora! Respondeu ele.
- Mas, porquê? Porquê?
- Anda lá, não custa nada!
- Mas, pai! Só lhe quis dizer que era muito bonita! Que simpatizava com ela. Não tenho que pedir desculpa por isso.
- Bom, como não tenho a noite toda para aturar a tua teimosia e má educação, sai já daqui! Imediatamente! Vai para a rua e espera lá pelo teu pai enquanto decido quantos dias vais ficar de castigo.
- Mas isso é uma injustiça! Eu tenho que ir às aulas! O meu pai paga as propinas para eu frequentar aquele colégio e o que aconteceu nada se relaciona com os meus estudos. Não tem o direito de aplicar esse castigo. Respondeu furioso Zeferino, saindo sem olhar para trás, e espumando de raiva e de revolta. Foi directamente para casa e contou a sua mãe o que se tinha passado. Esta respondeu-lhe que deveria ter pedido desculpa pois o padre ainda podia vir a prejudicar seu pai.
Passados alguns minutos lá chegou o pai, de chapéu na mão, com a sentença do Padre: três dias de suspensão das actividades lectivas!
- O quê? O que tem a ver a criada do padre com os meus estudos?
- Deixa lá filho não digas nada. Ele pode fazer com que eu perca o emprego.

Foi assim, a pensar no castigo que cumpria precisamente nessa primeira semana do terceiro período, que Zeferino adormeceu...
(continua...)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Antes e depois das eleições...

ANTES DA ELEIÇÃO:
O nosso partido cumpre o que promete
só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção
porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais
para alcançar os nossos ideais
mostraremos que é uma grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre
asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo da nossa acção
apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política
quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas
não permitiremos de nenhum modo que
as nossas crianças morram de fome
cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem
exerceremos o poder até que
compreendam que
somos a nova política


DEPOIS DA POSSE:
Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA

Nota: Este texto é de um autor qualquer desconhecido, mas... muito esclarecido!!! 
          :-)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXXII)

Ao atravessar a porta de entrada da estação de caminhos-de-ferro de Irun, Zeferino, caminhava lentamente, pelo peso da enorme mochila que levava às costas e também porque se encontrava toda encharcada de água que lhe escorria pela coluna abaixo. 
O desconforto, para além de físico, era sobretudo moral e psicológico. 
Sentia, de facto, um enorme desconsolo pela sensação de que a viagem entrava já no seu declínio e que aquela sugestão de aventura e de magia do desconhecido da viagem imaginada toda ela à boleia até Vila Flor se desvanecia à medida que entrava naquele enorme hangar. Por outro lado, sentia-se algo frustrado porque não gostava de ver os seus planos assim alterados por factores externos à sua vontade. Ele gostava de planear. Dava-lhe gozo aquele trabalho de cálculo mental que o levava a julgar e a ponderar as hipóteses... de ver e rever possíveis ou prováveis soluções... fazia parte da sua personalidade “arrumadinha” e “desarrumadinha” ao mesmo tempo. Ele era assim mesmo... um falso desorganizado ou um organizado pontualmente desarrumado. 
Essa chuva persistente tinha estragado toda a sua estratégia todavia proporcionara-lhe aqueles momentos deliciosos... 
Esperanza acompanhava-o e tinha sido a seu conselho que decidira fazer de comboio uma grande parte do resto da viagem.
- É impossível, com estas condições climatéricas, meteres-te na estrada à boleia. Vais de comboio e eu pago-te a viagem até Portugal. Dissera-lhe ela ao entrarem em Irun. 
- Nem penses nisso! Quero fazer a viagem à boleia pela aventura em si e não propriamente por questões de ordem financeira. Respondeu-lhe de imediato Zeferino, que pensou ainda para si mesmo que só o facto de a ter conhecido e de ter vivido tudo aquilo que com ela viveu já justificava plenamente a opção tomada. 
- Sim, sim, então não pago mas... vais na mesma de comboio. Insistiu ela, convencendo-o de vez.
Ao despedir-se de Zeferino, ao mesmo tempo que lhe metia uma caixa de preservativos no bolso (ele tinha-lhe confessado que nunca os havia utilizado anteriormente), deu-lhe um abraço bem forte enquanto lhe sussurrava ao ouvido: - Aqui está uma coisa que eu nunca dou aos meus clientes: um abraço de despedida. Quando algum deles me quer abraçar eu respondo-lhe que os abraços dão-se quando existe amizade, ternura ou amor.
Depois desprendeu-se lentamente, virou-se e partiu...

Zeferino ficou a vê-la afastar-se, a contornar as pessoas que iam e vinham dentro do enorme hall de entrada da estação e, lentamente, a diluir-se no horizonte. Para sempre.

Depois de ter adquirido o bilhete sentou-se num banco corrido de madeira da enorme sala de espera da estação enquanto aguardava pela hora de partida do comboio que o haveria de levar até Barca d´Alva. Puxou então pelo seu bloco de notas, que era uma espécie de diário, e escreveu: 
- Que dia, meu Deus!... ainda estou completamente inebriado... desfrutei hoje, dia 21 de Abril de 1971, de uma das mais extraordinárias e deslumbrantes experiências da minha vida (…) tudo aconteceu de forma inesperada e onde contava encontrar frieza, recebi ternura; (...) imaginei alguma fraqueza, pela minha inexperiência face a uma profissional, e encontrei inspiração e ardor; (...) estava à espera de indiferença e senti um enorme e empolgante entusiasmo partilhado; (...) aquilo que em princípio era para mim apenas uma relação fortuita  ou um desvario, foi, no meu corpo e na minha mente, uma revelação agradável de uma faceta desconhecida da minha natureza… enfim, o que em princípio deveria ter sido apenas um divertimento acidental e imprevisto foi, sem qualquer dúvida, um esplêndido encontro que me irá marcar indelevelmente e do qual nunca me irei esquecer…
(continua...)

    

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O Padre e os Espanhois...

Numa povoação pequena, mesmo junto à fronteira com Espanha, a igreja fica cheia para a missa das 10: portugueses, espanhóis, o presidente da junta, etc.

O padre começa o sermão:
- Irmãos estamos hoje aqui reunidos para falar dos Fariseus... Aquele povo desgraçado como esses espanhóis que estão aqui...

Oh! O maior tumulto tomou conta da igreja. Os espanhóis ofenderam o padre, houve porrada no adro.

O presidente da junta levou as mãos à cabeça e, indignado, foi falar com o padre na sacristia:
- Sr. padre, vá devagar, os espanhóis vêm para este lado, gastam nas lojas, nos restaurantes, trazem euros para Portugal. Não faça mais provocações.

Durante a semana a conversa entre todos era a mesma: o padre e o sermão do domingo. Aquele zum-zum todo foi fazendo com que as pessoas ficassem curiosas e a querer saber mais sobre o que tinha acontecido.

Finalmente, chega o domingo.

O presidente da junta vai à sacristia e fala com o padre:

- Sr. padre, o senhor lembra-se da nossa conversa? Por favor, não arranje nenhum problema hoje, ok?

Vem a missa e o padre começa o sermão:

- Irmãos... Estamos aqui reunidos, hoje, para falar de uma pessoa da Bíblia: Maria Madalena. Aquela mulher, prostituta que tentou Jesus, como essas espanholas que estão aqui...

Caldeirada: pancadaria na igreja, partiram velas nos corredores, chapadas, socos e alguns internamentos no hospital mais próximo que por acaso ficava em Espanha.

O presidente da junta foi novamente ter com o padre:
- Sr. padre, eu não lhe disse para ir com mais calma? Se o senhor não amansar, vou escrever uma carta ao Bispo e pedir a sua retirada imediata.

Naquela semana, as conversas sobre o sucedido abundavam mais. Ninguém iria perder a missa do próximo domingo, nem que a vaca tossisse.

Na manhã de domingo, o presidente da junta entra na sacristia com o graduado da GNR e adverte o padre:
- Sr. padre, não provoque os espanhóis desta vez, senão acuso-o de provocação de tumulto e vai dentro!

A igreja estava abarrotada. Quase não se conseguia respirar de tanta gente.

Começa o sermão:
- Irmãos... Estamos aqui reunidos hoje, para falar do momento mais importante da vida de Cristo: a Santa Ceia.

(O presidente da junta respirou aliviado...)

- Jesus, naquele momento, disse aos apóstolos: esta noite, um de vocês me trairá. Então João pergunta: Mestre, sou eu? E Jesus responde: Não, João, não serás tu. Pedro pergunta: Mestre, sou eu? E Cristo responde: Não, Pedro, não serás tu. Então Judas pergunta: Mestre, soy yo?

(E daquele templo não ficou pedra sobre pedra)


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXXI)

Depois de agradecer ao senhor que lhe tinha dado boleia e de lhe dizer, enquanto retirava a mochila do carro, que tinha apanhado uma outra boleia que o levaria mesmo até à fronteira espanhola, foi com uma sensação de alívio que Zeferino entrou no Renault 8 Gordini de cor azul berrante, com ar condicionado, estofos de couro e descapotável. Teve pena de não poder usufruir desta última característica devido à chuva intensa e persistente que os acompanhou durante toda a viagem.
Da longa conversa que se estabeleceu entre eles e que decorreu sempre num ambiente calmo e tranquilo, ao mesmo tempo que ouviam belíssima música reproduzida pelo leitor de cassetes, Zeferino reteve sobretudo quando ela lhe disse com a maior das naturalidades: "trabajo sólo por la noche" ou -"mis clientes son hombres con dinero que pagan por tener mi afecto".
Quando ela se apercebeu do estado de estupefacção com que Zeferino ficou, foi com um tom condescendente que lhe referiu: - “Está à vontade menino! Não estou a trabalhar e mesmo que estivesse nunca te aceitaria como cliente, apesar de até seres bem giro, mas… és ainda um adolescente e eu só atendo adultos e… com muito dinheiro!”.  
Eu já sou um adulto… faço 18 anos no próximo mês de Setembro! Mas… muito dinheiro de facto não tenho e mesmo que tivesse também não era desse modo que o iria gastar! Retorquiu, com convicção, Zeferino.
Ela respondeu-lhe com um sorriso lindo que realçava os seus dentes brancos e perfeitos atrás dos seus lábios bem definidos e pintados de vermelho vivo.
- Pero, seguro que no! Tu não precisas deste tipo de serviços e penso até que nunca virás a precisar… normalmente são homens na meia-idade ou até velhotes que nos procuram e, por incrível que pareça, fazem-no mais para poderem ter uma companhia, alguém que os ouça e a quem possam expor os seus segredos, as suas fantasias e insanidades saudavelmente loucas… enfim coisas que não podem dizer e fazer com as esposas e é a nós que vêm "abrir mão" dos seus pudores verbais e revelar o seu íntimo mais profundo… fazemos muitas vezes de terapeutas emocionais, comportamentais e, às vezes, sexuais... julgo que levamos a psicologia e a psiquiatria do campo teórico à prática. Em muitos casos isso resulta, podes crer.

A viagem continuou assim dentro deste registo e num ambiente extremamente delicioso para Zeferino. No interior do carro a música continuava agradável e o perfume, com cheiro a rosas, que dela emanava, deixava-o profundamente inebriado até que, depois de atravessarem Bayonne  e já perto de Biarritz, num ponto mais elevado da estrada e que podia ser ou servir de miradouro, ela encostou o carro para fumar tranquilamente um cigarro.

Lá fora a luz do dia desvanecia-se até porque continuava a chover torrencialmente. Uma sensação de bem-estar apoderou-se deles parecendo que a chuva lá fora apelava para o aconchego do interior do carro.
Em frente entendia-se um prado enorme, verde e vedado onde assistiram, sem querer, aos jogos de sedução de uma égua e do crescente entusiasmo de um cavalo, perfeitamente visível aos olhos dos dois “mirones”.
Para quebrar aquele encantamento, e por que ainda não sabiam o nome um do outro, ela disse-lhe: Podes chamar-me de Esperanza e tu como te chamas?
- Eu sou o Zeferino!
Mas… continuaram a apreciar a cena não despregando os olhares de tudo o que decorria no relvado. Até que o cavalo passou em definitivo à acção e consumava o acto com elegância e muito vigor.
Esperanza, percebendo a crescente concentração de Zeferino na visível excitação daqueles dois animais, disse-lhe, com uma pequena gargalhada: - Parece que também te estás a excitar!...
- Para falar a verdade, não te enganas, Esperanza... – Respondeu ele meio a sério meio a brincar, lançando-lhe um olhar provocador.
A Esperanza atiçou-o ainda mais, dizendo-lhe, desta vez em voz baixa e doce: - Só depende da tua vontade Zeferino! Uma palavra tua e far-te-ei a vontade com todo o prazer.
Um ciclone de pensamentos veio à mente de Zeferino. Até que se encheu de coragem e disse-lhe: - Oh Esperanza, não me provoques! Ainda há pouco tempo disseste que eu era um adolescente e comigo nunca irias...
- Eu disse-te que nunca te aceitaria como cliente… neste momento não estou a trabalhar e… sou apenas mulher… carente… e com vontade de conhecer alguém assim jovem e bonito como tu!
- Tu já percebeste qual é a minha vontade. Diz-me quando e onde!
Responde-lhe a Esperanza: - Onde? Bem, o sítio pode ser este mesmo, que é o mais adequado. Quanto ao "quando", pode ser já!

A chuva que caía no tejadilho de lona do carro nunca lhe parecera tão acolhedora… 
(continua...)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O primeiro passo...

Por vezes deixamos que o desânimo, a frustração ou as adversidades da vida se abatam sobre nós. Outras vezes superamo-nos. 
Mas para que se encontrem forças onde elas já não se vislumbram é sempre precisa iniciativa, um primeiro passo. 
Eis um bom exemplo!

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ave Maria...

Agora que o termómetro parece que vai subir acima dos 40 graus até Domingo (segundo as últimas previsões meteorológicas) pretendo adoptar algumas das recomendações básicas da Direção-Geral de Saúde: “PROCURAR ambientes frescos ou climatizados mesmo durante a noite. EVITAR a exposição directa do sol, principalmente entre as 11 e as 18h”.
Se for caso disso (as previsões às vezes também falham), vou manter-me aqui por casa tentando tenazmente não perder o contacto com os meus prazeres caseiros: jogar xadrez no Yahoo games; devorar mais um dos livros de Ken Follet; acabar de reler os Maias, do grande Eça de Queirós, numa nova Edição oferecida pelo Expresso; executar tarefas de jardinagem no pequeno jardim da varanda cá de casa e… tentar manter o blogue mais ou menos actualizado procurando também dar asas à imaginação e martelando nestas teclas a fim de acabar o Conto: O neto de um emigrante em Paris.
Só que o calor também “queima” parte dos conteúdos que por vezes perpassam por esta cachimónia e… esvaem-se com o suor que escorre pelos dedos das mãos.

Por isso, acho que vou relaxar ouvindo esta refrescante Avé Maria da Beyonce e… "rezar" também para que a inspiração reapareça... enquanto a carta de condução não chega… ;-)


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXX)

Ainda o sol não dava sinais de despontar no horizonte e já Zeferino se encontrava a pedir boleia de polegar esticado, no fim da Avenida Jean Cordier, em Pressac, no bairro periférico mais a sul de Bordéus.
Desesperado porque a maioria dos automobilistas que passavam o olhavam com desdém ou com ar de gozo ao mesmo tempo que outros abrandavam, dando-lhe falsas esperanças, e gritavam com a cabeça fora da janela frases desencorajadoras como: “vai de autocarro” ou, “não tens idade para andar à boleia.” Outros faziam-lhe manguitos e outros nem sequer o olhavam.
Até que ao fim de duas horas lá apareceu uma boa alma que parou o carro e lhe perguntou: - Para onde vais?
- Vou para Portugal – respondeu.
O motorista, um idoso de cabelo grisalho, deu uma gargalhada e respondeu-lhe: ohh, lá…lá! Não vou para tão longe mas se quiseres ir até Lesperon, podes entrar. 
- Onde fica isso? 
- É uma pequena vila já próxima de Bayonne, que é uma cidadezinha já perto da fronteira com Espanha.
Zeferino aproveitou esse rasgo de sorte e sentou-se sem hesitar nos estofos coçados de um velho Citroen. Suspirava aliviado quando ouviu o senhor a justificar-se: “Não costumo dar boleia a estranhos”, “Hoje em dia só se vêm assaltos violentos". “Sabe-se lá que malucos se encontram na estrada…”  
E lá foi conduzindo aos soluços, a uma média de 50 km/h, enquanto discorria um pouco sobre a sua vida dizendo que era reformado mas que ainda trabalhava mais do que muita gente no activo, etc. etc. Entretanto o carro era ultrapassado por todos os lados, mas o condutor parecia indiferente aos sinais de luzes e buzinadelas furiosas. “Passem por cima”, vociferava ele num tom colérico.
A determinado ponto da viagem, exactamente na estação de serviço de Labouheyre, Zeferino viu o senhor do velho Citroen encostar junto do Restaurante de apoio e dizer-lhe: - Vou demorar aqui cerca de meia hora, podes entrar e tomar alguma coisa, se quiseres.
Pois! Que alternativa tenho? Pensou. Por isso entrou, sentou-se e pediu um croissant com um sumo de laranja natural e ficou ali mais de uma hora sem fazer nada de interessante. Uma espécie hora vegetativa a ter pensamentos que ele próprio não poderia descrever, como se não fosse ele a tê-los realmente e não passassem dum ruído de fundo qualquer. Do televisor, por exemplo, ou da máquina de música que se encontrava encostada a uma parede mesmo junto da porta de entrada. 
Estava assim, neste estado apático, quando viu entrar uma mulher que se dirigiu directamente à casa de banho. Ao abrir a porta bateu de frente num homem que ia a sair. Ficaram ali uns segundos a falar um com o outro e depois acabaram sentados ao balcão, lado a lado. Primeiro com um banco de intervalo entre eles, depois ele moveu-se para mais perto dela. Pareceu-lhe que era a primeira vez que estavam a falar, mas talvez já se conhecessem.
Observou que a sala do restaurante estava quase cheia de camionistas, turistas e viajantes que deambulavam apressados entre as mesas já superlotadas e alguns outros de pé em frente do balcão. Ela contrastava pela quietude, pela calma, pelos olhos verdes melancólicos.
Zeferino, enquanto aguardava já impaciente pelo senhor da boleia, bem tentava evitar, mas não conseguia resistir a procurá-la com o olhar, por entre a azáfama constante de pessoas a entrar e a sair. Quando lhe parecia que os seus olhares se iriam cruzar procurava dissimular imediatamente. Mas ela nem reparava nele. O seu olhar, ora se dirigia para o seu interlocutor, ora se estendia para o exterior parecendo concentrar-se na chuva que entretanto começara a cair ininterruptamente. Ele a partir do momento em que se convenceu de que ela não reparava nele, encantado com a beleza do seu rosto, não conseguia mais desviar o seu olhar.
O tempo foi passando e quando os níveis de ansiedade já estavam no auge chegou, finalmente, o senhor da boleia fazendo-lhe sinal de que tinham de prosseguir a viagem.
Quebrado o encanto Zeferino levantou-se, chamou o empregado, pediu a conta, pagou e ficou de pé junto ao balcão esperando pelo troco. Enquanto esperava mesmo ao lado dela foi observando a sua silhueta perfeita, sob um vestido leve que contornava as suas formas e parecia acariciar-lhe o corpo. Ao virar-se para se ir embora ouviu-a dizer para o seu par num espanhol perfeito: - bueno me tengo que ir a Irún!
Zeferino, fez um pequeno compasso de espera e com convicção mas também com delicadeza e elegância dirigiu-se a ela: - desculpe, mesmo sem querer, ouvi dizer-lhe que ia viajar para Irun, eu estou em viagem para Portugal, pode dar-me boleia até lá?
Ela, depois de o olhar de alto a baixo, fixou-o directamente nos olhos e respondeu-lhe sorrindo: - sin duda, por qué no?
                                                                                                                                                (continua...)

sábado, 3 de agosto de 2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Desabafo de um aposentado recente...

Com o despacho de aposentação chegaram também alguns conselhos de velhos amigos.
Agora, que tens vagar, desfruta”;
Lê os livros que não leste ou relê aqueles de que mais gostaste”;
São as pequenas coisas que amamos que nos fazem felizes”;
"Aproveita e escreve no teu blogue";
"Faz uns vídeos no Windows Movie Maker";
"Passeia mais";
"Vai a Vila Flor";
Aproveita”;
Aproveita”;
Aproveita cada segundo da tua vida”!

Disseram-me e… eu bem tento.
Mas este sossego desassossegado, ao qual ainda não me habituei, abate-se sobre mim.
Tal como sempre me desassossegou assistir à queda de alguns dos valores que para mim eram essenciais, também nunca me habituei a este tipo de governantes que fizeram com que a palavra honra fosse uma coisa do passado e, com isso, me tivessem "empurrado" mais cedo para fora do sistema.

Por tudo isso interrogo-me: 
O que é que eu posso aproveitar se não puder reclamar?
O que é que eu posso aproveitar se nada puder partilhar?

É que, a minha vida não é apenas minha. 
É cada vez menos minha…

terça-feira, 30 de julho de 2013

Faz hoje um ano e um mês que...

Tudo era diferente. 
Estava muito longe de tudo e de quase todos. 
espaço onde eu escrevia - o RAXAlebre - tinha cumprido, de certa forma, a função para o qual tinha sido criado pois já tinha feito o registo das mais significativas e marcantes passagens da minha vida profissional e dos contextos em que foram ocorrendo. 
Também já tinha feito, de forma simples e retrospectiva, uma síntese das razões pelas quais eu sempre considerei que era (e fui) professor por acaso e que estava no ocaso de o ser.
A escola também já nada me dizia e as velhas tertúlias (que saudades Carlos Alberto!) já não eram a mesma coisa. 

Por tudo isso apeteceu-me então criar outro espaço. 
E... dessa vontade, nasceu o Vyla Penedo no dia 30 de Junho de 2012, sobretudo para partilhar um pouco de mim e estabelecer pontes com os amigos que foram ficando para trás. 
Foi, aliás, por sugestão de alguns (que nunca se dignaram a fazer um único comentário) que resolvi abrir mais este blogue abrindo também a alma ao mundo. 

Aqui deixei (e deixo) vaguear a imaginação, expondo as minhas ideias e convicções, confessando sentimentos e até fazendo (ou tentando fazer) algumas chalaças. Procurei fazer deste espaço um espelho de mim próprio. Nunca o consegui inteiramente. Se já na vida real tentamos varrer os defeitos para baixo do tapete, no virtual parecemos um poço de virtudes (e só nas entrelinhas e nos silêncios é que nos revelamos inteiramente).

Tudo isto também para dizer que nunca imaginei que o meu blogue completaria todo este tempo de existência. 

E, correndo o risco de que este pequeno orgulho seja tomado como arrogância ou excesso de vaidade, quero afirmar que também nunca me passou pela cabeça que teria 10000 visualizações ao fim de 13 meses que hoje se completam... 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Joan Baez, Diamonds and Rust - Live, 1975

Joan Baez é compositora e intérprete de música popular americana desde o início da década de 60 e uma das minhas favoritas durante as décadas seguintes. 
Baez é a irmã mais velha de Mimi Farinia, com quem partilhou a paixão pela composição musical e pela intervenção política. 
A carreira profissional de Baez começou em 1959 no "Newport Folk Festival", onde, com 18 anos, foi a grande revelação. Ela lançou pela Vanguard Records no ano seguinte seu álbum de estreia, "Joan Baez", uma colecção de baladas tradicionais, chamando a atenção pela qualidade do reportório e pelo seu talento no violão acústico, aliado a sua bela voz de soprano. O álbum seguinte, "Joan Baez, Vol. 2", foi lançado em 1961. Ganhou um disco de ouro, o mesmo acontecendo com "Joan Baez in Concert", de 1962. Com apresentações regulares, Joan Baez tornou-se um fenómeno artístico. Em 1963, já era considerada uma das cantoras mais populares dos Estados Unidos. Em 1964 lança o disco Joan Baez/5, incorporando neste trabalho uma selecção de populares canções folk dos Estados Unidos e da América Latina, com destaque para interpretações de composições dos músicos brasileiros Villa-Lobos e Zé do Norte. Além de folk tradicional e canções de protesto, ajudou a promover Bob Dylan, impressionada com suas composições iniciais e incluindo várias delas no seu reportório. Tornaram-se namorados por uns tempo, mas o relacionamento acabou em 1965. Entre seus sucessos históricos desta época, podem ser citados "We shall overcome", "With God on our side", "All my trials", além de outros...

domingo, 28 de julho de 2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Júlio Iglésias - Un canto a Galicia

Deixo aqui também este vídeo em homenagem às 80 vítimas mortais do acidente ferroviário de Santiago de Compostela.

Que aconteceu assim  :-(

A estranha justiça inglesa :-)

Nota: Deixo aqui hoje um pequeno episódio (verdadeiro) que me foi enviado 
por email  a propósito da justiça feita a um ministro inglês.

Em 2003, o deputado inglês Chris Huhne foi apanhado num radar em alta velocidade. 
Na época, a então mulher dele, Vicky Price, assumiu a culpa.   
O tempo passou e aquele deputado passou a Ministro da Energia, só que o seu casamento acabou. Vicky Price decide vingar-se e conta a história à imprensa. 
Como é na Inglaterra, Chris Huhne, Ministro, demite-se primeiro do ministério e depois do Parlamento. 

ACABOU A HISTORIA?
Qual quê! Estamos em Inglaterra...  E em Inglaterra é crime mentir à Justiça.
Assim, essa mesma Justiça funcionou e sentenciou o casal envolvido na fraude do radar em 8 meses de cadeia para cada um e uma multa de 120 mil libras, (+-100 mil euros). 

Segredo de Justiça?
Nem pensar, julgamento aberto ao público e à imprensa.
Quem quis, viu e ouviu. 

Segurança nacional? 
Nem pensar, infractor é infractor.
Privilégio porque é político? Nada!

E o que disse o Primeiro Ministro David Cameron quando soube da condenação do seu ex-ministro?
"É uma conspiração dos media para denegrir a imagem do meu governo? " ou "É um atentado contra o meu bom nome e dos meus Ministros"? 
Errado. Esqueçam, nada disso!
O que disse o Primeiro Ministro David Cameron  não foi acerca do seu ex-ministro foi sobre o funcionamento da Justiça. 
E o que disse foi: "É bom que todos saibam que ninguém, por mais alto e poderoso que seja, está fora do braço da Lei." 

Estes ingleses monárquicos são mesmo um bando de atrasados, não são?

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXIX)

Zeferino ao chegar ao minúsculo quarto tomou mais um duche antes de se deitar. Esteve acordado durante bastante tempo e com a mente a divagar de lembrança em lembrança. Estranhamente, estar deitado naquele quarto parecia fazer ressuscitar com mais intensidade antigas memórias e velhas recordações. Algumas delas eram bem agradáveis, outras nem por isso pois traziam-lhe laivos de tristeza. A Lua estava tão brilhante que teve necessidade de apagar a luz do candeeiro e estender-se de novo na cama mas agora virado para a janela por onde o luar irrompia, lançando longas sombras que impregnavam as paredes do quarto de tons de cinza e prata.
Depois levantou-se inquieto e abriu a mochila de onde retirou uma esferográfica e o seu bloco de notas. Sentou-se na borda da cama, acendeu de novo o candeeiro e escreveu:
Bordéus, 20 de Abril de 1971
Se hoje eu falasse de saudade, falaria do teu cabelo macio e perfumado, desse teu aroma que me deixa quase embriagado, lembrar-me-ia da tua pele branca e macia e, também do teu sorriso tranquilo e franco.
Se hoje eu escrevesse sobre saudade, quem sabe, agradeceria aos céus por me terem lembrado de ti. Se hoje eu pensasse em saudade, não me lembraria só dos teus inflamados beijos, mas com certeza sofreria também lembrando-me dos teus toques, das tuas mãos e daquelas conversas longas e do calor do teu abraço, do quanto é bom ter teu corpo, mesmo de modo fugaz, no meu abraço.
Se hoje, só por hoje, eu sentisse saudade, não só me lembraria da tua face bonita, do teu corpo esguio e do teu contorno tão feminino, como também da tentação que é sempre chegar tão perto, sentir teu cheiro e não te poder tocar, apenas e sempre admirar.
Se por agora, neste momento, eu não sentisse saudade, talvez nem tivesse do que falar e muito menos sobre o que escrever, ah, mas que tolo sou, que não me permito a este sentimento, tão vazio de vaidade, tão vazio de orgulho e tão cheio de quase pranto, pobre de mim, com tantos motivos para viver e aqui isolado neste quarto a quase falecer de... saudade!

Depois, Zeferino, já mais calmo e relaxado, adormeceu com o bloco de notas ainda agarrado e aberto na página onde tinha acabado de escrever. Não era sua intenção adormecer naquele momento, mas acabou por mergulhar numa espécie de sono profundo como há muito não acontecia, preenchido pela sensação da presença de alguém muito próximo.
Quando despertou, os ponteiros do relógio indicavam as 5 horas e 30 minutos. A luz do quarto alterara-se.

Esfregou os olhos, tomou banho, pegou na pesada mochila, ajustou-a bem sobre os ombros e saiu… 
(continua...)

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Aposentação antecipada! A razão do meu "contentamento descontente"... (III)

Finalmente, e para terminar este capítulo, quero dizer que continuo a acreditar nas pessoas. Não nas pessoas todas que comigo trabalharam. Não sou tão ingénuo a esse ponto. Mas que há boa gente lá isso há! 
Estou também convencido que mesmo as outras, aquelas em que não acredito, ou em que deixei de acreditar e que comigo se cruzaram, fizeram-no por um motivo qualquer e desempenharam um papel importante para o meu enriquecimento pessoal.
Hoje prefiro recordar apenas algumas das pessoas que, em momentos importantes deste percurso, marcaram positivamente a sua passagem. 
Não vou falar de todas por motivos óbvios. Mencionarei apenas algumas daquelas que: pela forma como foram corrigindo os meus defeitos, pelo seu exemplo, pela sua prática e pela sua intervenção oportuna me serviram de modelo e contribuíram decisivamente para o meu bem-estar na profissão e para que me tornasse cada vez melhor enquanto pessoa e profissional.

A primeira dessas pessoas foi a Albertina S. Rodrigues que teve um papel curioso, mas determinante, no meu ingresso nesta carreira. Estou mesmo convencido que se ela não se tivesse disponibilizado, nesse dia 22 de Novembro de 1978, para alterar o seu horário recebendo uma turma que me estava destinada, eu nunca teria aceitado iniciar funções nesse dia. 
De facto, quando constatei que no horário que estavam a propor me tinha sido atribuída uma turma do 11º ano de escolaridade de Geologia, fiz saber que não podia aceitar o lugar, assumindo que não estava preparado sob o ponto de vista científico e pedagógico para leccionar Geologia a esse nível de ensino.
O presidente do Conselho Directivo ainda procurou argumentar mas, vendo a minha inflexível determinação, procurou resolver o problema de outra forma mandando chamar uma das professoras do 11º B (Biologia e Geologia) que leccionava geologia a outras turmas. Essa colega era a Albertina que, confrontada com o problema, serenamente, depois de analisar e ponderar muito bem, apresentou uma proposta de solução que passava por ceder uma das suas turmas de Ciências da Natureza do 7º ano e assumir, ela própria, a turma do 11º que me estava destinada. E pronto! Resolveu-se o problema e eu aceitei o lugar!

No ano seguinte, já na Escola C+S de Carrazeda de Ansiães, um dos colegas que mais me marcou e de quem me tornei amigo foi, sem dúvida, o Manuel Freire Vilares. Pela sua atitude e pela sua postura profissional tornou-se, para mim, se calhar sem ele o saber, uma referência profissional. Para ele o foco da aprendizagem estava no aluno e no seu contexto. O saber/fazer e o saber/ser eram para a maioria dos alunos daquela região e daquele tempo muito mais importantes para a sua vida futura do que simplesmente os conteúdos teóricos das diferentes disciplinas. As viagens, que juntos fazíamos, diariamente, no meu “bolinhas” e/ou na sua Citroen Dyane, de Vila Flor para Carrazeda de Ansiães, eram aulas de pedagogia pura que eu ouvia com toda a atenção e interesse.

Na segunda metade da década de 80 tive o privilégio de trabalhar com um grande profissional, o Mário Sanches.
Já eramos amigos e vizinhos desde a infância e adolescência pois vivíamos na mesma rua. Juntos jogávamos à bola e “hóquei” (utilizando os troncos das couves fazendo de stick e papéis de cartão embrulhados em meias de nylon, fazendo de bola). Aproveitávamos ainda a proximidade da muralha da Vila e do Arco D. Dinis para brincarmos aos cowboys e aos índios e a Quinta da Paz para comermos saborosos melões alheios. :-)
Depois, cada um seguiu o seu percurso até que nos voltámos a juntar na mesma escola, que curiosamente foi construída num terreno situado a 100 metros de distância da nossa rua e do Largo da Fonte Romana, palco central das nossas brincadeiras.
Aí nas novas instalações da Escola Secundária de Vila Flor e como profissional, o Mário mostrou-me que é possível ter sempre em vista objectivos bem precisos e como se deve lutar até se conseguirem concretizar. Ele trabalhava acima da média de todos os outros e a sua ambição, o seu empenho, o seu espírito empreendedor e a sua vontade de querer sempre um pouco mais foram, sem qualquer dúvida, para mim, um exemplo e um modelo a seguir.

Em meados dos anos 90, vim para a EB 2/3 de Valadares implementar o Projecto o “Direito à Diferença”. Não o teria conseguido da mesma maneira se não tivesse encontrado uma colega excepcional, a Manuela Matos, que era a Directora de Turma onde os alunos portadores de deficiência mental foram inseridos.
A sua entrega e disponibilidade foram desde logo fundamentais para que se criassem na escola as condições necessárias à implementação do Currículo Alternativo desses alunos. Por sua vez a sua enorme sensibilidade e dedicação foram determinantes para tornar possível a criação dos contextos fundamentais para uma melhor integração na escola e posteriormente na comunidade onde, felizmente, estão integrados e exercem actividades não segregadoras.

Para o fim deixei a Amélia Lopes. Os últimos são os primeiros. Foi a minha primeira Delegada de Grupo e aquela que viria, passados alguns anos, a tornar-se minha mulher, companheira e amiga. A ela devo muito daquilo que sou, ou fui, em termos profissionais. Com ela aprendi mais Biologia e Pedagogia do que em toda a minha formação académica. Ahh! E Anatomia também... :-) Para além do amor, da atenção, da compreensão e do incentivo manifestados ao longo de uma vida, em todos os contextos profissionais e pessoais.
É com ela que continuarei a viagem, seja ela qual for. 
Juntos vamos desfrutar a vida de uma outra forma, porque depois de tantos anos de trabalho, de tantas preocupações, dos falhanços e sucessos acumulados e, sobretudo, dos filhos criados, sabe bem olhar para o oceano atlântico sem pensar em mais nada, assistir ao pôr-do-sol, seguir o voo das gaivotas, ou ler um livro confortavelmente instalado na esplanada de um bar de praia, enquanto se saboreia uma cerveja fresquinha...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Aposentação antecipada! A razão do meu "contentamento descontente"... (II)

Podia agora deixar aqui algumas palavras sobre o bem que me sinto aqui em casa. 
Podia escrever sobre os planos que tenho para o futuro. 
Podia ainda dizer o quanto pequenas e inesperadas coisinhas  me fazem sentir bem.
Podia falar nos momentos de desassossego e de indignação que também vou tento, em alternância com os anteriores.  
Podia (e prometo que vou tentar fazê-lo oportunamente) deixar aqui algo sobre o meu dia-a-dia e o quanto os meus pensamentos se conseguem alinhar, por forma a conseguir (ou tentar) superar-me.
Podia, se quisesse olhar para trás, procurar encontrar lacunas e falhas próprias. 
Podia, se pudesse parar e rever toda a minha vida profissional num só andamento, preocupar-me exclusivamente com o importante e dispensaria enfim o dispensável.
Podia, se pudesse regressar uns anos atrás, não me ter fechado sobre mim mesmo, na segurança do caminho percorrido até aí...

Se calhar podia. Mas seria tudo isso o mais importante neste momento?

Acho que não. Julgo que hoje é o tempo de fazer, de forma o mais pragmática possível, outro tipo de reflexões e expressar-me sobre outros aspectos da vida que considero mais oportunos e interessantes.

Por exemplo, dizer que acredito que nada acontece por acaso e que somos nós que fazemos e construímos o nosso destino. 
Acredito que de alguma forma, directa ou indirectamente, num passado mais ou menos longínquo, fomos nós que contribuímos para o presente. 
É verdade que estamos condicionados por uma série de factores, internos e externos (entram aqui os Sócrates, os Passos Coelho e tantos outros daqueles que nos desgovernaram), mas podemos sempre agir e/ou reagir de diferentes maneiras e isso é uma escolha, uma decisão nossa. 
Por outro lado, nenhum de nós está isento de lhe acontecer algo mau e a dor que tal provoca não pode ser evitada. Agora cabe-nos a nós decidir se enfrentamos essa dor ou se nos deixamos abandonar ao sofrimento que ela nos causa. É por isso que duas pessoas reagem de forma diferente a uma adversidade. 
Há uma frase, que li algures, de Carlos Drummond Andrade, que define bem a nossa liberdade de escolha mediante as adversidades externas: "a dor é inevitável, o sofrimento é opcional".

Foram alguns destes princípios e algumas destas razões intrínsecas que me "obrigaram" a decidir e a tomar a atitude que tomei, no momento que o fiz, pedindo a aposentação antecipada.


Eu quero acreditar que a verdade, aquela à qual muitas vezes também tento fugir com desculpas vãs, é que a minha vida é a forma como a vivo e depende apenas de mim...

(continua...)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Aposentação antecipada! A razão do meu "contentamento descontente"... (I)

Imaginem uma viagem feita através do tempo e do espaço, em linha recta e a grande velocidade, desde o dia 22 de Novembro de 1978 até 12 de Julho de 2013!  
Se tal fosse possível sentiriam, com certeza, a sensação que estou a sentir neste momento. Um grande alívio!

O primeiro desses dias corresponde ao meu primeiro dia de trabalho na Escola Secundária de Monção. O segundo corresponde ao último, o dia em que o despacho de aposentação chegou à minha escola actual, EB 2/3 de Valadares.

Naquele longínquo dia (mas aqui tão próximo) comecei com muita garra e predisposição para o trabalho, mesmo tendo plena consciência de que a integração num novo emprego nem sempre é fácil e poderia demorar o seu tempo. No entanto, a ideia de aprender coisas novas e conhecer pessoas e ambientes diferentes era excitante e agradável. Por tudo isso, tentei começar com o pé direito e causar uma boa impressão até porque a motivação estava a altas rotações.
Nesse primeiro dia conheci a escola, o Presidente do Conselho Directivo e as colegas do meu grupo disciplinar procurando familiarizar-me com tudo e com todos. Foi fácil encontrar pessoas dispostas a ajudarem-me e a quem me mostrei totalmente disponível para ouvir com atenção tudo o que me disseram, principalmente sobre horários, regras da escola e do meu grupo disciplinar, hábitos de trabalho e de convívio e tudo o que estava relacionado com as tarefas que iria desempenhar. Foi, sem dúvida, um belo arranque!

Agora estou de saída! Saio de mansinho e imbuído do tal espírito ambíguo de contentamento descontente.
Provavelmente não saio da forma com que sonhei sair mas… saio pelo meu pé, quando e como quis, e com a consciência plena do dever cumprido e de ter feito sempre o melhor que pude.
Saio já! Por vontade própria (apenas e só) por entender que já não tenho condições anímicas para continuar a aturar este sistema educativo e esta escola em que já não me revejo nem acredito.

A minha passagem por esta profissão foi uma longa aprendizagem e uma lição de vida permanente e diária.
Sei que, muitas vezes, só o tempo julgará com objectividade e distância a acção de cada um de nós. Não pretendo, aqui e agora, proceder a uma avaliação exaustiva do meu trabalho ao longo da minha carreira até porque tenho a oportunidade de o vir fazendo no meu outro espaço de dissertação - o RAXALEBRE-, o Blogue em que eu procuro mostrar o professor que fui por acaso e já no ocaso de o ser.
Creio, contudo, que essa postura não colide em nada com o balanço globalmente positivo que faço de mais de trinta e cinco anos de trabalho em algumas das áreas mais específicas e relevantes que fui assumindo e desenvolvendo. Procurei estar permanentemente actualizado com os novos métodos e formatos de ensino e com as novas disciplinas e áreas disciplinares (Biologia/Ciências da Natureza, Hortofloricultura e Criação de Animais, Educação Tecnológica e Educação Especial) que fui assumindo sucessivamente. 
Para me sentir seguro fui frequentando e concluindo novos cursos e novas qualificações profissionais. Fui actualizando os meus conhecimentos procurando, em simultâneo, adaptar-me  a novos conteúdos disciplinares, a nova legislação e a novos equipamentos e softwares. Para isso estive sempre disponível e sempre "ligado".
Tenho consciência de ter contribuído, algumas vezes, nestas últimas duas décadas e num caminho quase solitário para a defesa da Educação Especial e, sobretudo, para a integração plena dos meus alunos portadores de deficiência mental no sistema regular de ensino.
Na defesa dos meus alunos NEE(s) fui intransigente. Arranjei por isso alguns atritos, desinteligências e aborrecimentos pelo caminho mas, enquanto acreditei que esse era o melhor caminho, lutei - com convicção - até ao fim. Procurei fazê-lo com toda a honestidade e empenho. Não estive aqui para fingir e nunca gostei do “nim”. Podia ter aprendido mais cedo a ser mais moderado? Podia, aceito que sim… mas sempre fervi por dentro com a mentira, a hipocrisia e a desonestidade intelectual.

Neste contexto, e ao fim destas três décadas e meia, é perfeitamente natural achar que esta desmotivação seja... natural. Até porque me sinto verdadeiramente injustiçado. Durante décadas tive, agora vou repetir-me... é outro dos meus defeitos :-(, um acordo com o Estado, representado pelo Ministério da Educação, assinado de boa-fé por ambas as partes, que garantia a minha aposentação ao fim de trinta e seis anos de serviço, independente da idade. Posteriormente e de forma unilateral esse mesmo Estado alterou esse contrato permitindo a minha aposentação apenas aos sessenta anos de idade, desde que tivesse os tais 36 anos de serviço. Mais recentemente, ainda no Governo de Sócrates e dentro da febre legislativa que o assolou, alterou-o de novo e mais uma vez, sem a minha assinatura e muito menos o meu consentimento, para os 65 anos de idade. Mais recentemente, e já nesta legislatura, a idade de aposentação passou para os 66 anos!!!
Senti-me enganado pelo próprio Estado, aquele em quem eu sempre confiei e defendi. Perante alguém que é batoteiro, porque não cumpre os contratos que assina e, pelo contrário, impõe novas regras a quem está, como eu, no final de carreira, sem qualquer respeito pelos direitos e compromissos assumidos só me restava tomar a atitude que tomei: pedir a aposentação antecipada com o consequente corte na retribuição mensal.

É o preço que terei de pagar pela minha liberdade e para poder dizer sempre o que sinto e penso…
(continua...)

domingo, 14 de julho de 2013

Estarei a ficar...

É difícil descrever o meu estado de espírito actual.
É uma sensação inexplicável, uma mistura de regozijo e de apaziguamento e simultaneamente de mágoa e aperto. Um pequeno nó no estômago que não se desfaz, uma vontade reprimida de apregoar o meu contentamento descontente.
Estou sentado em frente ao computador e não sei o que fazer com ele, sei que tenho coisas para escrever e não sei por onde começar.
Parece que estou ausente mesmo estando presente.
Na minha cabeça fervilham mil pensamentos, fragmentos de mil coisas. Estou perdido dentro de mim… 
Talvez amanhã já consiga.

Estarei a ficar Cavaco?