Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O meu blogue e eu... (I)

Ontem, logo pela manhã, liguei o computador e acedi a vyla58penedo.blogspot.com, como faço quase todos os dias. Só que desta vez... 
- Olá, bom dia! Bem aparecido! 
Dei um salto na cadeira, largando bruscamente o rato.
- Mas que é isto? Que aconteceu aqui? – pensei, incrédulo. 
- Não aconteceu, está a acontecer! Sou eu a falar contigo! 
Ouvia uma voz, é certo! Mas... vinda de onde? Fixei o meu olhar no ecrã, naquela parte em que me vejo a espreitar pela porta amarela semi-aberta e comecei a aperceber-me de onde vinha a voz que ouvia! Seria possível?
- Sou mesmo eu, o vylapenedo! 
- Mas és um blogue da internet! Não é suposto falares!
E, de facto, não falava. Apesar disso, ouvia claramente a sua voz na minha mente.
Continuando a olhar (ainda) estarrecido na direcção da porta amarela (ainda) semi-aberta, conseguia sentir uma estranha vibração que acompanhava a tal voz. 
- Como consegues falar?
- Não perceberias se te tentasse explicar. Mas ouves-me, certo? 
- Sim... assenti vacilante. E porque falas comigo?
- Indo directo ao assunto... Preciso de ti e que continues a dedicar-te por mim. 
- O quê? – esfreguei as mãos na cara e abanei a cabeça, esperando que o que quer que estivesse a acontecer naquele momento passasse. Mas quando reabri os olhos....
- Desculpa, não devia ter sido tão directo, mas às vezes é melhor assim. 
- Olha lá, mas o que é isto? Dedicação a mim? Não estarás a ser ridículamente exigente? Não sabes que a partir do dia 20 deste mês vai ser mais difícil manter a assiduidade? Como vou ter tempo para tudo? Bem sabes que não tenho o dom da ubiquidade... 
- Tem lá paciência! Tens que fazer um esforço. Não vês que à medida que ias escrevendo posts, comecei a admirar-te e a identificar-me contigo? Não te dirigi a palavra antes, pois não estava certo que me irias compreender, mas hoje percebi que é chegado o momento. 
- Mas isso é absolutamente impossível! É inconcebível uma página da internet, um blogue,
ter um juízo crítico de quem nele escreve!
- Não por uma pessoa qualquer, mas aquele que me criou! E conheces uma definição universal de saudade? 
- Na verdade, há várias definições possíveis... aliás, nem serão definições, mas noções, conceitos.
- Pois lá está! Se não é possível defini-la, porquê toda essa incredulidade? 
Começava a sentir-me “encurralado”, sem resposta a tal argumentação. Como se se tivesse apercebido disso, o meu improvável interlocutor prosseguiu:
- O afecto e a dedicação não conhecem obstáculos. 
- Desculpa, mas não podes estar a falar a sério! A "mala" desse tipo não fecha bem! É o que dirão de mim quando souberem desta conversa... e olha que não perdem uma única oportunidade de me atirar isso à cara... e mais, acrescentam logo que tudo isto me acontece porque sou "benfa", "lampião", ou qualquer coisa assim do género, percebes?
- E tu importas-te mesmo com o que poderão pensar de ti? 
- Por me chamarem benfa ou lampião até gosto e diverte-me, agora quanto ao resto... bom, ai já não sei responder-te... mas todos os meus leitores falarão de mim como “o alucinadinho que fala com o seu blogue”! Serei gozado por todos, apontado a dedo: - “Olha, aquele passou-se!”
(continua)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XVII)

Zeferino andava triste. Passou os dias seguintes numa grande apatia e a pensar na incerteza do seu futuro.
Como autodefesa pensava que devia aproveitar esta experiência com Emeralda para se tornar num cidadão mais forte, mais sólido e mais resistente aos imprevistos da vida. Talvez Emeralda tenha aparecido na hora certa, no lugar certo e se tenha ido embora no momento perfeito. Quem sabe? Quem sabe se não foi melhor assim quando ainda ficou tudo de lindo no ar e todos os mistérios por revelar. Sem terem ainda reconhecido nenhum defeito tal como num belo quadro na parede de uma galeria de arte.

Esta relação fica assim feita de suposições, de imaginação, doces lembranças e muitos sonhos.

E Zeferino pensava para si procurando animar-se: o amanhã pode ser muito incerto, isso é certo, mas não posso perder a esperança e tenho de continuar a procurar a felicidade.
E será que houve mesmo um amor de verdade entre nós ou apenas o carinho de uma sensual amizade?
O que ficou, isso sim, foi este sentimento confuso e difuso que o acompanhou para todo o sempre.
Lembrou-se de retribuir o gesto de Emeralda. Escrever o seu sentir e deixá-lo no Café Le Pré aux Clercs, na esperança de que ela um dia também fosse lá e tivesse a oportunidade de o ler para, finalmente, ficar a saber as razões pelas quais ele não pode comparecer ao encontro.
Assim decidido, deixou ao mesmo empregado de balcão e dentro de um envelope uma mensagem de 15 páginas (!) redigidas com fervor e paixão tendo-a iniciado com uma citação, também de Pablo Neruda, para retribuir de  forma significativa e simbólica mas sobretudo por lhe parecer a mais adequada e perfeita para melhor explicar os seus sentimentos:

"Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos, 
já não se adoçará junto a ti a minha dor.  
Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.  

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.  

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.  

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou...

Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus."

E depois continuou dizendo que as palavras que lhe deixava eram as palavras que sempre existiram no fundo do seu ser e que estariam prontas a saírem no dia em que a encontrasse nessa encruzilhada que é a vida e no dia em que as circunstâncias (ou o destino?) os colocassem frente a frente ou a trilhar o mesmo caminho. Como, aliás, tinha acontecido nesses últimos dias, sem anunciar, sem esperar.
Zeferino continuou num longo desabafo: "Emeralda, tu foste aquela que eu via sem rosto quando te procurava em vão, perdido nas tempestades dos meus pensamentos mais íntimos e que me deixavam vazio, sem te encontrar e sem mais saber de mim.
Depois, surgiste... Assim de surpresa, no meio duma viagem e das «entrelinhas» de um comboio internacional. Ao fim da tarde e enquanto o sol se punha mas que reflectia o teu rosto por entre as folhagens espessas das árvores que passavam pela janela do comboio". 
"Mas fez-se luz!"    "(...)"
"...fizemos acontecer o milagre e tocámo-nos." "...olhámo-nos nos olhos, mergulhámos nos nossos mares, e nesse mesmo instante soube que serias minha."
"...Mais tarde, no preciso momento que resplandeceste em mim por entre duas brilhantes estrelas, que passaram de repente pela mesma janela, eu bebi do teu rosto num beijo, entraste-me na minha alma e disseste: Zefe, beija-me mais e mais!
Selámos o nosso amor com o sal dos nossos olhos, com o gosto dos nossos lábios e com o calor dos nossos corpos.
Se escrevo estas linhas agora e não antes, não é para que saibas que te amo, nem para me rearfirmares o teu amor. Isso sentimos os dois desde o primeiro instante...
Todos os poetas cantaram o amor, mas só quem o sente e o vive lhe entende o sentido, lhe sabe a dor com que o fogo corta o peito, o doce da entrega e o amargo que castiga as almas com as ausências.

Estas linhas simples são apenas um grito ao mundo, para que ele desperte e durante uma breve paragem do tempo se dê conta que existimos. 

Que seja também um anúncio do nosso amor que segue viagem, nesta viagem que é a vida...". 
 (continua...) 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XVI)

Nessa manhã cinzenta do dia 13 de Abril de 1971 (terça-feira 13 - dia das bruxas?), Zeferino foi confrontado com o destino. Um pé mal colocado na borda do passeio fê-lo desequilibrar e estatelar-se desamparado na calçada. Enquanto praguejava, e amaldiçoava os sapatos novos que trazia calçados e se usavam assim altos nessa época, os seus familiares correram aflitos em sua ajuda. De facto, já não conseguiu levantar-se sozinho e rapidamente foi levado para o hospital mais próximo. Depois da respectiva radiografia ao pé direito veio o diagnóstico: entorse grave do tornozelo com rutura dos ligamentos e derrame sanguíneo.
Depois de lhe fazerem um tratamento à base de gelo, foi medicado com um anti-inflamatório e um analgésico, deram-lhe alta com a "promessa" de que a recuperação seria lenta. 

Ao fim de três longos dias parado em casa, mais precisamente no dia 17 de Abril, já muito impaciente e preocupado por não ter tido a oportunidade de telefonar a Emeralda (não havia telefone em casa de seu avô), mesmo ainda não totalmente recomposto e com o pé ainda débil e a doer, Zeferino fez uma incursão sozinho pela cidade de Paris, em busca do tempo perdido e da felicidade. Já não podendo esperar mais, lá foi caminhando devagar com o pé bem aconchegado a uma forte meia elástica e com a ajuda de uma canadiana até à cabine de telefone pública mais próxima. Mas... ninguém atendeu na casa de Emeralda e… achou estranho.
Não teve outro remédio senão deslocar-se a casa dela mas aí também ninguém respondeu pelo intercomunicador. Mais estranho achou... Ficou ali, parado sem saber o que fazer. Aguardou duas horas no passeio em frente até que se lembrou de um destino: o café onde Emeralda tinha tomado o pequeno almoço - o Le Pré aux Clercs. Na altura pareceu-lhe que havia uma certa familiaridade dela com os empregados. Completamente desanimado, Zeferino partiu à procura da sua amada. Ao longe a esplanada estava vazia e logo que entrou no estabelecimento, varrendo-o ansiosamente com o olhar, também verificou que nele não se encontrava ninguém conhecido a não ser o empregado que os tinha atendido na única vez que aí tinha estado. Do lado de lá do balcão, em silêncio, o outro empregado olhava-o num misto de surpresa e de compaixão - pareceu-lhe. Então, Zeferino sentou-se num dos bancos altos do balcão e perguntou por ela. O empregado olhou-o, taciturno, e de seguida retirou de uma gaveta um pequeno envelope fechado que, sem explicações, lhe entregou ao mesmo tempo que encolhia os ombros. 
Com um ar grave e as mãos trémulas, Zeferino abriu o envelope que continha um pequeno bilhete e leu:
 

Zeferino
Não estou certa que leias estas linhas. Nunca mais voltaste e desesperei de esperar por ti... É estranho que, neste tempo que passámos juntos, nunca me tenha preocupado em saber onde moravas ou se tinhas telefone em casa de teu avô. Que pena saber tão pouco de ti! Foi um erro meu. Restou-me esperar... Penso, agora, que tudo não passou de uma fugaz ilusão e que tu rumaste a outras paragens ou, talvez, a Portugal. Entretanto tive também de partir repentinamente e sem contar... sim, já não estou em Paris. Parti para Itália com a minha mãe que procura uma reconciliação com meu pai, portanto... só me resta despedir-me desde modo na esperança que tu um dia por aqui passes e perguntes por mim. Quero dizer-te
que foi por ti que um dia me apaixonei e guardarei para sempre a recordação dos momentos felizes que contigo vivi. Para terminar cito Pablo Neruda e perceberás porquê:
"E desde então, sou porque tu és
e desde então és
sou e somos...
e por amor
serei... serás... seremos..." ♥   
Emeralda 

Por minutos, Zeferino ficou de olhos fixos no chão, meditabundo. O garçon, varria o chão do bar, num mutismo comprometido. Então, levantou-se com dificuldade, apertou a mão ao empregado do balcão e saiu. 
Por Paris deambulou, até que a noite o cobriu com a sua capa de escuridão. Sentado num lugar isolado, nas margens do Sena, a carta amarfanhada entre os dedos, Zeferino escutava o rio, com um olhar ausente. 

No seu cérebro, em turbilhão, lembrava o rosto da bela Emeralda... 

 (continua...) 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Camões e a sua dor...

Calma, amigo Luís! Se vivesse nos dias que correm teria (provavelmente) de tomar uns antipiréticos e uns quantos analgésicos para aliviar essa dor...
 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Os bifes da Dona Josefa...

Quando era miúdo ouvi uma história que ainda hoje não sei se é verdadeira ou se faz parte daquelas que se contam e recontam só por terem alguma piada.
Não custa nada deixá-la aqui e cada um ficará naquilo que lhe parecer.

No dia do casamento, a noiva chegou-se ao pé da mãe quase a chorar e disse-lhe que estava muito preocupada.
E a progenitora muito aflita:
- Então, filha, acalma-te. Não fiques tão nervosa. Hoje vai ser o dia mais bonito da tua vida. Vais casar, vais viver com o homem que amas e que te ama tanto. Vai correr tudo bem, vais ver.
- Não é isso, mãezinha, eu sei que é o dia do meu casamento mas o problema é que eu e o Zé Manel nunca tivemos nada um com o outro! Nunca fizemos nada, percebe? Desde que começámos a namorar até hoje, ele nunca me tocou, nem mostrou vontade disso. Respondeu a filha.
- Oh cum caraças, filha, então e só hoje é que te lembras disso? Tou feita contigo! E agora, se se der o caso de o Zé Manel gostar tanto de homens como tu, comé que vai ser? Ai, filha, agora deixaste-me tão preocupada. Mas agora não há nada a fazer, está quase na hora de ir pró casório. Olha, vamos em frente e o que for soará...

E foram! O Zé Manel ia muito bem vestido, elegante e apessoado, ao ponto de as convidadas amigas da noiva passarem toda a cerimónia, que decorreu na Igreja Matriz de Vila Flor, a invejarem a sorte da noiva.
Seguiu-se a boda. Foi uma festança do camandro ali para os lados do Cabeço da Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas. O pai do noivo, depois de emborcar uns canecos, pendurou a gravata e dançou toda a noite com as damas de honor que estavam bonitas e andavam bem-dispostas. O noivo foi também muito solicitado prá dançaria mas comportou-se sempre exemplarmente, demonstrando ser um perfeito cavalheiro, o que fez aumentar as desconfianças da mãe da noiva.
Terminada a comezaina e a bebedeira, quando os noivos se despediam dos convidados para irem para a lua-de-mel, a mãe da miúda chamou-a de lado e perguntou-lhe:
- Então, Zulmira, estás mais confiante?
- Nada... não... minha mãe, está-me a querer parecer que tudo isto vai correr muito mal.
- Ai filha, que ralação… Olha, filhinha querida, faz um favor à mãe. Amanhã de manhã, assim que te levantares, telefona-me. Mas olha, para não preocupar o teu pai, vamos combinar o seguinte: se o Zé Manel continuar a dar uma de "anjinho agoniado", tu dizes que ele não gosta de bifes; se por acaso suceder um milagre, por pequenino que seja, tu dizes que gosta de bifes. Combinado, filha?
- Combinado, minha mãe.
E lá arrancaram os pombinhos para a Pousada, ali para os lados da Serra de Bornes, onde passariam a primeira noite.
A Dona Josefa não pregou olho, preocupadíssima, apesar de o marido, o anafado Julião ter tentado por quatro vezes cumprir a sua obrigação, antes de ter adormecido e começar a roncar que nem um porco.
Seriam umas 11 da matina quando finalmente toca o telefone em casa da Dona Josefa.
Era a filha:
- Mãezinha, mãezinha, ai mãezinha, nem sei como é que lhe vou dizer isto.
- Diz, filha, meu amor. Ai, querida, estou tão ralada, o teu pai a querer fazer passar-se por noivo durante toda a noite e eu sem notícias tuas. Ai, filha, foi uma noite de angústia, mas conta amor, como é que foi. O Zé Manel, finalmente, gosta ou não de bifes?
- Ai, mãezinha, o Zé Manel gosta tanto, mas tanto de bifes que até lambe a frigideira!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XV)

O  dia não podia estar melhor, com sol e temperatura agradáveis. Emeralda e Zeferino saíram do barco de mão dada e continuaram a passear. Seguiram pela Rue Daufhine, viraram à direita na Rue de Rivoli, depois entraram na Rue de Turenne e desembocaram na Place des Vosges onde um bonito relvado os convidou a sentarem-se e a conversarem. 
Emeralda conhecia muito bem toda esta zona de Paris. Esta é uma Praça muito bonita, rodeada de casas cuja arquitectura permanece igual desde a sua construção há 400 anos, sendo que uma delas, a maior, é a famosa casa de Victor Hugo, o poeta e escritor francês que aí viveu até 1848. "Agora é um Museu mas acho que não vale a pena lá irmos, pois temos outras prioridades", disse Emeralda
Ela falava e ele ouvia-a fascinado ao mesmo tempo que apreciava o seu belo sorriso e os seus cabelos soltos, leves e macios, sem deixar de admirar a beleza ímpar do verde selvagem da relva e das árvores envolventes. Passaram momentos verdadeiramente felizes, deitados e a rolarem na relva, deixando fluir a energia acumulada e a vontade de serem livres. Ela cada vez que o olhava parecia mais leve, mais bela, mais incrívelmente encantadora. Zeferino assim pensava.
 - Gosto tanto de ti... - disseram de repente e ao mesmo tempo um para o outro, e riram-se de seguida.
Foram comer qualquer coisa ligeira. Emeralda umas saladas frias, e ele um cachorro com batatas fritas, sentados frente a frente, de olhos nos olhos, vivendo um momento intenso que só os apaixonados sabem saborear. De mãos nas mãos rindo dos pequenos nadas que são tão importantes como as palavras. Contaram um ao outro pequenas coisas, segredos, que após tão pouco tempo de relacionamento, eram como um cais de descobertas onde descobriram em cada coisa confidenciada que havia muita coisa em comum entre eles apesar de viverem até aí em realidades e mundos completamente diferentes.

Levantaram-se, e abraçados pela cintura enquanto umas gotículas de suor se iam formando entre eles, caminharam até que se deram conta que estavam já mesmo em frente do próximo monumento a visitar: a catedral de Notre Dame, que ficava ali perto, mesmo à beira do Rio Sena. 
Emeralda, utilizando o cartão diplomático da mãe que lhes dava entrada gratuita em todos os Museus, Igrejas e Monumentos de Paris, conduziu Zeferino para o interior desta maravilhosa catedral de estilo gótico e aí tiveram oportunidade de saber um pouco da sua história e de admirarem os seus belíssimos vitrais do século XIII.
Ao saírem da Catedral apanharam o Metro na Gare de Saint-Michel-Notre Dame e saíram apenas na Gare de Anvers com a finalidade de irem visitar um dos locais mais especiais e visitados de Paris, o Sacré-Couer de onde também se tem uma das mais belas e espectaculares vistas da cidade.
No final desta visita, andaram a pé e um pouco sem destino mas deu para visitar Montmartre, um dos bairros mais típicos e boémios da cidade de Paris. Passaram pela zona de Pigalle onde existem bares e clubes eróticos e aproveitaram para espreitar a mais famosa casa noturna localizada neste bairro - o Moulin Rouge.

O dia estava a terminar e não tiveram tempo de ver tudo aquilo que tinham programado pelo que combinaram falar no dia seguinte, por telefone, para programarem o próximo encontro. 
Zeferino ao despedir-se já de noite ainda lhe disse: "É tão bom estar contigo! Olhar os teus olhos e admirar a beleza da tua pele, a lisura do teu cabelo e ficar aqui parado e à espera de ter mais um beijo teu..."
Ao que Emeralda respondeu: Que lindo! E disse-lhe umas palavras quase sussurradas ao ouvido, quentes e íntimas, enquanto se apertavam mais e mais. 
- Gosto da tua voz no meu ouvido e na minha vida... insistiu num sussurro Zeferino 
- A minha voz não existe, amor. A minha voz és tu quando respiras... respondeu Emeralda

Fez-se um pequeno silêncio e depois ela agarrou-se ainda mais a ele...

 (continua...)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XIV)

No dia 12 de Abril, logo no dia seguinte ao Domingo de Páscoa que passara alegremente na companhia dos seus familiares mais próximos, Zeferino tinha acordado bem cedo, ou pelo hábito adquirido ou pela ansiedade do encontro.
O estado do tempo parecia colaborar com o plano que desenhara. Preparou-se sem pressas, saiu de casa e apanhou o autocarro que o levou até à Porte D`Orléans onde apanhou o Metro até à estação Saint-Germain-des-Prés. Saiu da estação e depois de consultar nos seus apontamentos as indicações que Emeralda lhe havia dado ao telefone, continuou o percurso, agora a pé, até à Rue de Jacob, na Île-de-France. Parou em frente do prédio indicado como sendo a morada dela. Deu um toque na campainha. Emeralda atendeu e respondeu pelo intercomunicador que ia descer. Pareceu notar-lhe um ligeiro tremor na voz, mas como era disso que estava à espera (ele também estava nervoso) decidiu não o valorizar. Teria muito tempo para a observar fora do ambiente fechado de um compartimento do comboio onde se haviam conhecido.
Quando Emeralda apareceu Zeferino achou-a deslumbrante, pelo menos a seus olhos que não estavam habituados a cenários idílicos nem a cortes de alta-costura. O batom que lhe realçava ainda mais os lábios, devolveu-lhe, aos olhos dele, um ar inatingível que estava esbatido desde a separação na Gare du Nord, uns dias antes. Pareceu-lhe que estava perante uma bela mulher, mais velha, mais senhoril e muito para além da segurança e da maturidade que tanto o haviam impressionado.
Ela já conhecia Paris. Ele só conhecia os locais que visitou no belo passeio que o seu avô lhe tinha proporcionado sexta-feira passada e também aqueles que tinha visitado sozinho no sábado. Decidiram, entretanto, sentar-se na esplanada do Café Le Pré aux Clercs, que ficava na esquina do cruzamento da Rue de Jacob com a Rue Bonaparte. Enquanto ela bebia um sumo de laranja natural e comia uma torrada bijou, aproveitaram para analisar o mapa da cidade para definirem ou locais que iriam visitar nesse dia. 
Optaram por começar com um passeio no Rio Sena num dos barcos "Les Vedette du Pont-Neuf". 
A manhã estava perfeita, o sol anormalmente quente de Abril. Ao entrarem no barco ouvia-se a voz rouca e quente de Édith Piaf em música de ambiente que se apoderou subitamente da mente de Zeferino. Ficou deslumbrado e mesmo muito emocionado com este quadro que lhe pareceu perfeito, edílico e maravilhoso. Serei muito piegas ou um romântico envergonhado? Interrogou-se, enquanto olhava ao seu redor.
O Rio Sena estava pouco agitado, as aves volteavam pelo barco e alguns vultos viam-se nas pontes, ora caminhando, ora tirando fotografias, outros turistas deambulavam pelas margens.
Este percurso proporcionou-lhes uma visão geral de alguns dos monumentos mais emblemáticos de Paris. Na margem direita viram o Museu do Louvre, a Praça da Concórdia e já depois de terem passado por baixo da Ponte Alexandre III, que é a ponte mais luxuosa de Paris e foi construída para comemorar a aliança franco-russa, surgiu-lhes a Torre Eiffel. Na margem esquerda viram o Museu d'Orsay e a Catedral de Notre Dame. Emeralda perspectivou desde logo uma visita a alguns deles que ainda não conhecia.
Ao regressarem ao local de partida, mais ou menos entre a Pont Alexandre III e a Pont-Neuf, que é apesar de seu nome, a ponte mais antiga de Paris e foi a primeira ponte de Paris a ser construída com pedras, Emeralda virou-se para Zeferino e disse:
- Não existe sítio em que me sinta tão invadida por Paris, como no Rio Sena aqui na Ile de france, entre estas duas pontes. 
- Como é que nos conseguimos esquecer que estes paraísos existem e... estão aqui agora tão perto de nós? Perguntou Zeferino, imbuído naquele espírito intimista.
- Da mesma forma que nos esquecemos que as melhores coisas da vida são muito simples. Como tu por exemplo... Respondeu ela numa voz serena e envolvente.
Zeferino sentiu um ligeiro toque, pressentindo nestas palavras uma intimidade mais ou menos dissimulada. Ficou completamente extasiado. Esforçou-se por controlar-se e à espera que ela avançasse. 
Ela percebeu! Mais madura e adulta do que ele foi-se aproximando muito lentamente. Olhou-o nos olhos, saltando de um para o outro, num jogo de hipnotismo que lhe pareceu devastador.

Ele imitou-a e o tempo que demorou a encostar os seus lábios nos dela pareceu-lhe a viagem para o paraíso...

 (continua...)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Botequim Fantasma - Lembrete

Hoje deixo aqui esta belíssima música (com a respectiva letra) que é mais um original dos BOTEQUIM FANTASMA.
Esta nova banda musical portuguesa é constituída por Cristóvão Siano - Voz; João Pedro Calvo - Teclas; Paulo Andrade - Baixo; Filipe Lopes - Bateria e Tony Lopes - Guitarra. São músicos jovens com muito talento e uma sólida formação musical que lhes permite compor originais com a qualidade deste CD "Guarda-Nuvens", constituído pelos temas "Lembrete", "Antes que peças", "Médio canino", "Miopia" e "Aversão".
 É, sem dúvida, um excelente trabalho que expressa claramente a qualidade criativa desta nova geração de artistas portugueses.


Colei um lembrete nas nuvens
Tomara não chova de mais
Aceno sereno a um barco
Que se afunda ao largo do cais

Porque eu não sou
Não sou capaz
De remar a teu lado

Faço-me um favor
Tropeço no olhar
Atiro contra a dor
Que nos há-de abraçar

Faço-te um favor
Tropeço no olhar
Atiro contra a dor
Que nos vai abraçar

Rasgou-se um lembrete das nuvens
Tomara não cubra de mais
Teu corpo vestido de sonhos
Que flutua ao largo do cais

Porque eu não sou
Não sou capaz
De errar a teu lado

Faço-me um favor
Tropeço no olhar
Atiro contra a dor
Que nos há-de abraçar

Faço-te um favor
Tropeço no olhar
Atiro contra a dor
Que nos vai abraçar

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XIII)

Parecia ser o dia dos contrários para ele. Fumava detestando fumar, não amava adorando amar.
Levantou-se, percorreu umas centenas de metros e voltou a sentar-se num banco de madeira, agora já bem dentro do Jardim das Tulherias, situado mesmo na margem direita do Rio Sena, de onde via passar os famosos barcos de recreio "bateaux mouches" carregados de alegres turistas. E por aí se ficou pensativo... a desfrutar do ambiente mágico que o rodeava.
É neste lento contar do tempo que uma mulher já madura se aproximou dele e lhe pediu lume. A primeira coisa em que ele reparou é que ela era bonita, ou melhor, que lhe apeteceu achá-la bonita. Tinha os cabelos pretos, talvez pintados, e os olhos de um castanho claro contrastante. Depois de acender o cigarro dela no dele ela não se foi embora, mas antes decidiu sentar-se no mesmo banco a contemplar a diversão dos outros. 
Os gritos dos miúdos a brincar e dos adolescentes a deslizarem nos seus skates, mesmo à frente deles.
Ali, juntamente com o silêncio de ambos, desfilavam famílias de pais e mães que tentavam divertir-se divertindo os filhos. Ele sabia que um dia faria exactamente o mesmo, onde, quando e com quem não sabia mas de certeza que seria com quem lhe desse os filhos que ele sonhava ter.
Como seria bom disputar com essa futura e sonhada mãe o colo dos filhos, como via naquele momento dois pais fazerem desde que o filho decidiu chorar!
Mas, aí nesse lugar e nesse instante, olhando para aquela mulher sentada mesmo ao seu lado, a fumar um cigarro cuja chama nasceu no mesmo fogo, apetecia-lhe amá-la. 
Estava um dia soalheiro de Primavera e o final de tarde aproximava-se, o sol descia lentamente e sentia-se uma brisa suave que resfrescava ligeiramente o ambiente. Sentiu-se tranquilo, em paz, ao mesmo tempo que apreciava a beleza ímpar que a natureza lhe oferecia naquele momento. 
Zeferino, assim inspirado por este bem estar interior momentâneo virou-se para a mulher silenciosa e comentou: "está-se bem aqui, não está!?"
-"Sim! Gosto de ficar assim aqui uns momentos, quieta e a relaxar, depois de sair do meu trabalho e antes de regressar a casa"! 
E continuaram a conversar disto e daquilo o resto da tarde e já quando anoitecia ela confidenciou-lhe que morava sozinha num pequeno estúdio numa rua próxima do Trocadero. Interpretando-a mal Zeferino acompanhou-a até lá. Subiram a escada escura, até à porta do apartamento. Depois beijaram-se. E ele, fez menção de entrar. Ela, porém, disse que ele, embora sendo um rapaz gentil, simpático e bonito, era ainda menor de idade e ela tinha o dobro da sua idade. Pelo que suave e delicadamente colocou-lhe uma mão no peito, impedindo-lhe a passagem e... sorrindo amigavelmente, deu-lhe mais um carinhoso beijo ao mesmo tempo que fechava a porta devagarinho.

Zeferino, aturdido e na dúvida se devia ter insistido um pouco mais, ficou ali, parado, sozinho e em silêncio mas pensando: "que pena não ter já 21 anos!". Descansou o olhar no infinito puxou de mais um cigarro, por nervosismo ou para se sentir mais adulto, acendeu-o mesmo ali e desceu as escadas dando início ao regresso a casa e ... lembrou-se de Emeralda...

 (continua...)